Para a indústria de componentes, “um bom ano já não é crescer, é manter. E isso implica ajustes”, alerta a AFIA
in Expresso, por Margarida Cardoso, 04-04-2025
A indústria de componentes vê na ameaça de tarifas de Trump às importações do sector automóvel um travão ao crescimento da economia europeia e mundial, com riscos acrescidos para o emprego. “No cenário atual, um bom ano já não é crescer, é manter (o nível de 2024), mas isso significa necessariamente ajustes na produção com consequências no emprego”, diz ao Expresso José Couto, presidente da AFIA, associação representativa de um sector com 64 mil trabalhadores e que fechou 2024 com vendas ao exterior de €11,8 mil milhões, 4,5% abaixo do ano anterior.
Avaliar o real impacto das tarifas nas exportações portuguesas só será possível dentro de uns meses. “Abril já pode ser afetado, mas a imagem real virá lá para julho”, indica. “Trabalhamos com encomendas de curto prazo. Em alguns casos com prazos de três meses ajustados a 30 dias. Temos de aguardar para ver o que se vai passar, mas sabemos que vamos ter um problema nas exportações de componentes, porque os consumidores vão sempre reagir e decidir em função do preço”, assume.
E será um problema em duas frentes, nas vendas diretas para os Estados Unidos da América (EUA), o quarto mercado do sector e o único dos oito maiores clientes de Portugal a crescer (3%) no ano passado, mas também nas vendas indiretas, por via do que a indústria nacional vende para produtores na Alemanha e em França, mas também noutras geografias, da Eslováquia ao México ou ao Canadá. No caso de Espanha, o maior cliente dos componentes lusos, com uma quota de 28,3%, não deverá haver impacto imediato, uma vez que a indústria automóvel espanhola não está a trabalhar com os EUA.
Mas há ainda outra frente a considerar. “Há empresas europeias e também algumas portuguesas que investiram no México, o grande vendedor de automóveis para os EUA, a par do Canadá, que também acabam por ser afetadas”, sublinha.
“O que sabemos é que mesmo sem tarifas já houve alguns ajustes no mercado europeu, com fornecedores para os EUA a fazerem replaneamento de encomendas, o que afeta de imediato toda a cadeia de fornecimento”, alerta José Couto, sem esquecer que a própria Europa “enfrenta dificuldades internas várias”, da retração do consumo ao impacto da política de mobilidade suave. E estão em causa “13 milhões de postos de trabalho e 7,5% do PIB europeu, o que não é pouco”, precisa.
TMG avança para os EUA
No que respeita à indústria têxtil, Mário Jorge Machado, presidente da ATP — Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, coincide na previsão de “dificuldades, mas mais nas exportações indiretas” para a indústria automóvel europeia do que nas vendas aos EUA. “Estamos a falar de coisas com muito volume e pouco peso, caras de transportar, por isso temos um fornecimento de proximidade”, explica o dirigente associativo, admitindo a probabilidade de “alguma deslocalização de investimentos, até porque, em geral, estão em causa contratos de seis ou sete anos”.
A TMG Automotive, um dos maiores fornecedores europeus de materiais para a indústria automóvel, incluindo componentes como o assento e o tablier, vai fazer isso mesmo, “mas já tinha decidido ir para os EUA antes da ameaça do Presidente Trump”, diz, numa referência à parceria do grupo de Famalicão com a Haartz Corporation para a construção de uma fábrica no Sul dos EUA “para produzir e vender uma gama de produtos flexíveis para interiores automóveis de origem local”.
“Neste momento ainda está tudo muito confuso no que respeita às tarifas de 25% sobre as importações do sector automóvel e a outras tarifas que foram sendo anunciadas. Temos de aguardar, mas estamos conscientes de que basta a Alemanha ser afetada para também o sermos”, resume Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP, a associação do sector metalúrgico, que tem nos componentes automóveis um terço das suas exportações.






