O acordo UE–Mercosul foi aprovado politicamente e o impacto potencial para a indústria automóvel europeia promete ser significativo.
in Razão Automóvel, por Guilherme Costa, 09-01-2026
Depois de 25 anos de negociações complexas, a União Europeia aprovou esta sexta-feira, por maioria qualificada, o acordo comercial com o Mercosul. Apesar da oposição formal de França, Polónia, Áustria, Irlanda e Hungria — a Bélgica absteve-se —, o acordo obteve o apoio necessário no Conselho, desbloqueando um dossiê que há muito era considerado politicamente tóxico, mas economicamente decisivo.
O tratado entre a União Europeia e o bloco do Mercosul, que integra Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, visa criar a maior zona de comércio livre do mundo, abrangendo cerca de 700 milhões de consumidores.
Num momento em que a influência económica da China cresce na América Latina e a relação transatlântica atravessa uma fase de imprevisibilidade, Bruxelas procura reforçar parcerias baseadas em regras, previsibilidade e acesso recíproco aos mercados.
O que prevê o acordo
No plano industrial, o acordo estabelece a eliminação progressiva de tarifas e barreiras técnicas ao comércio. No setor automóvel, o impacto é particularmente relevante: tarifas até 35% são aplicadas a veículos produzidos na União Europeia e agora serão gradualmente removidas, permitindo um acesso mais competitivo a um mercado sul-americano estimado em cerca de três milhões de veículos por ano.
De acordo com a Comissão Europeia, o tratado poderá aumentar as exportações da UE para o Mercosul em até 39%, o equivalente a cerca de 49 mil milhões de euros anuais, sustentando mais de 440 mil empregos no espaço europeu. Num setor que representa mais de 8% do PIB da UE e emprega 13,6 milhões de pessoas, o acordo assume uma dimensão estrutural.
Porquê agora e porque é crítico para o automóvel
Este acordo chega numa altura crítica para o motor da economia europeia. A indústria automóvel europeia enfrenta atualmente pressões simultâneas em vários mercados-chave.
Nos Estados Unidos, a política comercial tornou-se altamente volátil. A utilização recorrente de tarifas como instrumento de negociação por parte da administração de Donald Trump tem aumentado a incerteza para os construtores europeus, afetando decisões de investimento, planeamento industrial e cadeias de fornecimento.
Na China, o cenário também se deteriorou. As marcas europeias estão a perder quota num mercado dominado por construtores locais, pressionado por uma guerra de preços, sobrecapacidade produtiva e um consumidor cada vez mais orientado para soluções domésticas. O mercado que durante anos funcionou como amortecedor global deixou de garantir crescimento.
Neste contexto, a abertura do mercado sul-americano ganha um peso estratégico acrescido. Não como alternativa isolada, mas como diversificação crítica das exportações europeias.
Veículos, mas também matérias-primas
O impacto para a indústria automóvel neste acordo com o Mercosul não se limita aos veículos acabados. Inclui igualmente benefícios ao nível da diversificação de cadeias de abastecimento, nomeadamente no acesso a matérias-primas críticas como lítio, grafite e manganês — essenciais para a transição elétrica e para reduzir dependências externas da indústria europeia.
É precisamente esta combinação entre exportações industriais e segurança de fornecimento que explica a posição da ACEA (Associação Europeia de Fabricantes Automóveis). A associação tem defendido de forma consistente que o acordo com o Mercosul não é apenas uma oportunidade comercial, mas uma necessidade estratégica para preservar a competitividade da indústria automóvel europeia.
Atualmente, mais de 30% dos veículos produzidos na UE são exportados, gerando um excedente comercial superior a 90 mil milhões de euros. Estimativas do setor apontam para a possibilidade de as exportações automóveis para o Mercosul triplicarem até 2040, com a remoção de tarifas e barreiras técnicas.
Concluídos os procedimentos no Conselho, o acordo seguirá para assinatura formal ao mais alto nível institucional da União Europeia. Posteriormente, será submetido ao Parlamento Europeu e, nas matérias que extravasam a política comercial comum, aos parlamentos nacionais dos Estados-Membros.
Ainda não é o fim do processo
Apesar da aprovação política, o percurso legislativo não está concluído. Persistem resistências internas, sobretudo no setor agrícola, razão pela qual foram incluídas salvaguardas automáticas para limitar importações em caso de distorções de mercado.
Dito isto, o acordo UE–Mercosul entra agora na sua fase formal. O primeiro passo consiste na conclusão do procedimento escrito no Conselho, que consolida a posição dos Estados-Membros e autoriza a assinatura oficial do tratado entre a União Europeia e os países do Mercosul.
Depois da assinatura, o texto será submetido ao Parlamento Europeu, cuja aprovação é indispensável para que o acordo produza efeitos jurídicos. Paralelamente, por se tratar de um acordo classificado como “misto”, determinadas disposições — sobretudo as que ultrapassam o âmbito estrito da política comercial comum — terão ainda de ser ratificadas pelos parlamentos nacionais dos Estados-Membros, num processo que poderá decorrer de forma faseada.
Na prática, nada muda de um dia para o outro para a indústria automóvel europeia com este acordo. No entanto, o risco político caiu de forma significativa: o tratado deixou de ser um dossiê bloqueado e passou a ser um processo em marcha.






