Falta de peças por causa do mau tempo trava produção da Autoeuropa
O impacto das sucessivas tempestades que têm devastado Portugal ainda não se fez sentir de forma drástica nas duas maiores fábricas de produção de automóveis, apesar de ambas reconhecerem que alguns fornecedores foram atingidos pelo mau tempo. A Autoeuropa foi mesmo forçada a suprimir o turno da noite em três dias.
in Jornal de Negócios, por Pedro Curvelo, 05-02-26
Sem estarem localizadas nas zonas mais violentamente atingidas pelas tempestades Kristin e Leonardo, a Stellantis de Mangualde e a Volkswagen Autoeuropa, em Palmela, dependem de fornecedores nacionais, alguns dos quais em áreas que sofreram de forma mais grave a fúria dos elementos, nomeadamente nos distritos de Leiria e Coimbra. A Stellantis indica ao Negócios que tem mantido a capacidade no máximo. Já a Autoeuropa diz que a situação “está a ser gerida”, mas já há um travão no T-Roc.
A Autoeuropa, que representa 70% da produção automóvel em Portugal, está a “conseguir gerir alguns constrangimentos enfrentados por alguns dos fornecedores”, disse ao Negócios fonte oficial da fábrica de Palmela. Contudo, como revelou a Comissão de Trabalhadores da empresa, foram suspensos os turnos da noite de quarta a sexta-feira devido à escassez de algumas peças essenciais para a produção do SUV da VW.
O “porta-aviões” da indústria automóvel nacional refere ao Negócios que “está a ajudar os fornecedores afetados pelo mau tempo a recuperarem a operacionalidade”, assegurando, assim, que a produção do T-Roc não sofra grandes perturbações. Mas os efeitos das sucessivas tempestades já se sentem.
A Stellantis de Mangualde escapou do impacto direto do mau tempo, mas admite que alguns fornecedores foram atingidos. Ainda assim, fonte oficial da fábrica que produz veículos das marcas Peugeot, Citroën, Opel e Fiat, assegura ao Negócios que “nenhum dos fornecedores daquelas zonas [em particular Leiria] deixou de entregar na fábrica”, que no ano passado alcançou um novo máximo histórico de produção com 91.662 viaturas, o equivalente a 26,8% do total.
A fábrica portuguesa teve mais sorte do que a “irmã” de Vigo, que foi forçada a suspender vários turnos de produção devido a problemas na cadeia de fornecimento de componentes por parte de empresas espanholas devido à tempestade Kristin.
Impacto maior nas fábricas de automóveis no estrangeiro
A região de Leiria tem um elevado número de empresas da indústria de moldes e que fornecem quer fabricantes de componentes para a indústria automóvel quer diretamente construtoras automóveis. É o caso da TJ Moldes, cujos responsáveis já assumiram publicamente que existe o risco de paralisar uma fábrica da Porsche na Alemanha devido aos estragos provocados pela tempestade Kristin. Em causa está o molde para o capô de um dos modelos da marca germânica.
O presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), José Couto, já alertou que o impacto poderá ser mais forte em empresas de componentes ou fabricantes automóveis nos mercados alemão, espanhol e francês.
Ao Negócios, o responsável sublinha que as empresas fornecedoras do setor automóvel daquelas regiões estão a “organizar-se para disponibilizarem capacidade de produção umas às outras”. Há um movimento de solidariedade entre os empresários que tentam, desta forma, evitar a perda de clientes. Esse é, de resto, o maior risco para as empresas que sofreram maiores danos: verem os seus clientes substituí-las por outros fornecedores se o retorno à normalidade nas operações demorar demasiado tempo.






