Da agricultura à cerâmica, negócios fazem contas aos prejuízos: Devastação deixa economia em pára-arranca
Ainda é difícil fazer o balanço ao rasto de destruição provocado pela depressão “Kristin” na economia, mas nos campos e nas fábricas “a verdadeira tempestade” pode “ainda estar para vir”
in Expresso, por Juliana Simões, Margarida Cardoso, Vítor Andrade, Ana Baião, 05-02-2026
O efeito devastador da tempestade “Kristin” foi transversal a toda a economia e, na verdade, ainda está por contabilizar com exatidão a real dimensão dos prejuízos, pela simples razão de que não só não tem sido fácil comunicar com todos os afetados como também não está a ser possível ir a todos os sítios porque ainda há estradas cortadas.
Certo, para já, é que foram duramente afetados os sectores da construção e obras públicas, cerâmicas, moldes, agricultura e floresta, componentes automóveis e indústria transformadora em geral.
Henrique Carvalho, diretor-executivo da NERLEI — Associação Empresarial da Região de Leiria, reconhece que, apesar dos danos no comércio e nos serviços, o impacto mais severo recai sobre a indústria, onde há fábricas com grandes áreas destelhadas e atividade parada. Nas situações mais graves admite paragens de um a dois meses, com recuperações que podem estender-se até oito.
José Luís Sismeiro, presidente da Associação Regional dos Industriais de Construção e Obras Públicas de Leiria (ARICOP), diz que esta catástrofe natural trouxe perda de capacidade produtiva e de capacidade de fornecimento de materiais ao sector da construção. “Muitas das empresas foram elas próprias duramente afetadas”, vinca. E apela ao Governo para pedir a Bruxelas autorização para prolongar os prazos de execução das obras afetas ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Sector das telhas sob pressão
Leiria é uma das zonas mais vocacionadas para as cerâmicas e para a produção de telhas, material que na última semana tem sido alvo de uma procura nunca antes vista. Há milhares de casas, armazéns e edifícios comerciais e industriais que ficaram sem coberturas e no topo das preocupações está a reposição dos telhados.
Segundo a APICER — Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e Cristalaria, os prejuízos mais reportados incluem “arranque de coberturas, infiltrações, danos em chaminés e sistemas de exaustão”, além de perturbações no fornecimento elétrico e nas comunicações, essenciais ao funcionamento de secadores e fornos.
Paragens podem ir de um a dois meses e, nos casos mais graves, a recuperação pode prolongar-se até oito
Apesar disso, os responsáveis admitem que algumas empresas produtoras de telha cerâmica estão a recorrer a stocks e redes de distribuição para dar resposta à procura. Questionada sobre um possível aumento de preços, a APICER diz desencorajar práticas especulativas, mas admite que constrangimentos na oferta e na logística possam refletir-se no mercado.
No sector dos moldes e plásticos, “mesmo passados sete dias, há empresas sem luz e outras que ainda não estão a operar completamente”, afirma Manuel Oliveira, secretário-geral da CEFAMOL — Associação Nacional da Indústria de Moldes, alertando para impactos nos prazos de entrega aos clientes.
A ligação dos moldes ao sector automóvel agrava o risco de efeitos em cadeia. A indústria de componentes reporta “duas dezenas de empresas com grandes prejuízos e processos de recuperação difíceis” e “um conjunto alargado de firmas que tiveram vários dias de paragem por falta de energia”. Ainda sem números para apresentar, José Couto, presidente da AFIA — Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, fala de “graves problemas na manutenção da capacidade laboral em muitas fábricas”, em especial no eixo entre Aveiro e Leiria, admitindo que “a depressão ‘Kristin’ vai trazer desemprego” e “há linhas de produção a parar na Europa”.
Da floresta aos morangos
Na área da floresta, “tem sido muito difícil entrar em algumas das zonas devastadas pela tempestade”, o que dificulta um balanço, mas, segundo João Gonçalves, presidente do Centro PINUS, a quantidade de madeira de pinho-bravo destruída não deve andar longe da que foi consumida pelos fogos do ano passado. E estima que 30% a 40% da área de cerca de 40 mil hectares afetada pelo vento pode estar destruída, agravando o défice de madeira da indústria.
A Portugal Fresh — Associação para a Promoção das Frutas, Legumes e Flores de Portugal refere “perdas de milhões de euros” da Figueira da Foz para sul, com “vários hectares de culturas anuais dizimadas, que não permitem cumprir os contratos com clientes nas próximas semanas, e algumas culturas plurianuais com perda total da campanha, designadamente framboesas e amoras”. “A verdadeira tempestade para muitos destes produtores pode ainda estar para vir: a da burocracia e a das soluções inadequadas”, sublinha Gonçalo Santos Andrade, presidente da associação.
No Alentejo, a Lusomorango — Organização de Produtores de Pequenos Frutos avança prejuízos diretos provisórios superiores a €10 milhões entre as quatro dezenas de produtores associados na zona de Odemira, com perda de mais de 50% da capacidade produtiva imediata e risco para campanhas futuras, contratos de exportação e postos de trabalho. Pede que o estado de calamidade seja alargado ao concelho.
Ainda sem grandes números, a FPAS — Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores fala de “centenas de explorações afetadas”. “A tempestade passou na zona do país onde há mais criação de porcos, de Pombal para sul”, explica um criador que ficou com “duas explorações muito afetadas no Montijo”.
No balanço final, Henrique Carvalho elogia a resposta das autarquias no terreno, mas deixa críticas às medidas económicas. “Anunciar linhas de crédito é anunciar mais dívida para as empresas, não é suficiente”, argumenta, defendendo rapidez na execução dos apoios e definição de prioridades na construção.






