O futuro da indústria automóvel em Portugal e na Europa é desafiante, requer mudanças, mas sobretudo adaptação às tendências e a cada mercado em si. Quatro representantes do setor falam do “papel importante” dos governos e pedem mudanças regulamentares, fiscais e até dos incentivos dados para a compra de carro
in CNN Portugal, 02-06-2025
A indústria automóvel está a viver a sua “maior transformação desde sempre”, numa altura em que chegam ao mercado “novos atores”, verificam-se novas tendências de consumo e a transformação energética e digital é vista como única meta a alcançar. Mas é preciso colocar um travão às exigências feitas, tornar os incentivos para compra mais acessíveis e rever a política fiscal do setor, defendem quatro representantes da área, que marcaram presença na conferência “O Carro do Futuro”, organizada pela CNN Portugal Summit e pelo Standvirtual, que decorreu esta segunda-feira no Auditório da Fundação Champalimaud, em Lisboa.
Thomas Hegel Gunther, diretor-geral da Volkswagen Autoeuropa, destaca que, “motivada pela eletrificação, pela redução de emissões, pela conetividade, pela digitalização e pela também condução autónoma”, esta é “maior transformação automóvel de todos os tempos”. Mas isso tem custos, pois todas estas apostas “requerem investimentos enormes” que, juntamente com “regulamentações”, com a chegada de “novos concorrentes”, em particular chineses, e também com “políticas, em parte políticas protecionistas, fazem com que a situação seja muito difícil” e o custo dos carros fique aquém das capacidade de grande parte dos consumidores.
Os governos, diz o diretor-geral da Volkswagen Autoeuropa, têm um papel importante na suavização desta transformação da indústria, sobretudo face à entrada de novos players, como é o caso das fabricantes chinesas. “É importante a Europa não perder a competitividade como local de produção de automóvel, por isso é importante realizar políticas”, diz, instando os governos a perceberem “a importância de manter essa capacidade”. E o que podem fazer os governos concretamente? “Reduzir a burocracia, é importante a redução de regulamentações, porque custam tempo, custam dinheiro, custam capacidade das empresas e, na verdade, inibem, evitam ou dificultam as empresas de serem mais competitivas, serem mais produtivas e é isso que é necessário nesse momento”, atira Thomas Hegel Gunther. E no caso concreto de Portugal aponta o caminho para o aumento do campo industrial. “Olhando para os últimos 20 anos, o número de fornecedores, de peças e serviços, não aumentou muito. Acho que Portugal tem uma necessidade de tentar atrair e aumentar esse campo industrial, que é o campo automóvel.”
E no que toca a políticas, José Pedro Neves, CEO da Renault Group Portugal, sublinha a importância de abrandar com a regulamentação. “É preciso tomar a consciência que a Europa está baseada em objetivos nobres, que é a descarbonização, que é um problema do planeta, mas o nível de exigência está a pôr a sua própria indústria em perigo e de alguma forma, quer pelos timings, quer pela regulamentação”, diz, apressando-se a dar um exemplo: “Todos os anos saem dez novos regulamentos para os construtores de automóvel e isso exige custos elevadíssimos do produto que depois não está ao nível naturalmente da procura e da capacidade poder de compra dos portugueses.”
Mas não é apenas na regulamentação que se deve mexer, continua José Pedro Neves. “A fiscalidade automóvel está muito desajustada, não é revista há mais de 20 anos”, lamenta, afirmando que “há uma incoerência em que automóveis que emitem menos chegam a pagar mais porque têm uma cilindrada [maior] na sua composição”. Para José Pedro Neves “há uma revisão fiscal a fazer, inclusivamente em sede de ACAP [Associação Automóvel de Portugal] iremos fazer uma proposta ao governo [nesse sentido]”.
Consumidor também mudou
No que toca a tendências no setor, as “tendências em Portugal seguem mais ou menos as tendências europeias”, diz o CEO da Renault. E essas tendências são, sobretudo, uma maior procura por carros elétricos ou híbridos, como nota Andreas Merentitis, VP de Dados da OLX Group. “Os veículos elétricos e híbridos têm tido mais popularidade. Em Portugal, em particular, temos 50% de aumento, ano após ano, da procura de carros elétricos e híbridos. Os governos têm um papel importante em como isto pode ser acelerado”, diz o analista de dados, adiantando ainda que o carro que querem, de um modo geral, é o “melhor, mais rápido e mais intenso” e que a tecnologia, sobretudo por Inteligência Artificial, tem de acompanhar isso.
Mas as tendências vão além do que procurar num carro, passam, sobretudo, pelo condutor. E, sobre este ponto, Isabel Furtado, CEO da TMG Automotive, aborda uma mudança na forma como a sociedade olha agora para o carro, em particular, para a aquisição de um carro.
“Quando falamos em tendências mundiais temos de olhar quais são as tendências da sociedade que vão impactar o veículo. Acredito que a partilha em meio citadino será uma realidade, porque os jovens não têm a necessidade pertença que nós tínhamos, ter um carro não é um status, os jovens querem ter acesso a, não querem preocupar-se com o seguros e IUC [imposto único de circulação]”, afirma Isabel Furtado.
E esta mudança de tendências e opções de compra pedem mudanças na abordagem. “Os desafios que temos pela frente são, por um lado, sermos competitivos, porque o poder de compra português não é comparável ao de outros países da União Europeia, e isso põe-nos em desvantagem e alimenta importações paralelas, daí o foco em democratizar o veículo elétrico”, diz José Pedro Neves, CEO da Renault Group Portugal, adiantando que, por outro lado, há ainda o desafio de dar incentivos que sejam, de facto, usáveis de forma generalizada. “Temos de falar com os governos para ter incentivos, mas incentivos que permitam às pessoas adquirir automóveis e não incentivos para produtos que não estão ao alcance dos portugueses”, atira, dizendo que tais incentivos não têm de ser exclusivamente para carros elétricos, mas também para carros com menores emissões, tornando a transição mais suave e facilitada.






