“Tarifas em cima de tarifas” no setor automóvel põem em risco exportações nacionais

Anúncio de novo aumento nas tarifas sobre exportações de automóveis de 15% para 25% trouxe nova incerteza à indústria automóvel, num momento em que enfrenta custos crescentes provocados pela guerra.

Não bastasse a guerra no Irão, que acelerou uma escalada dos preços dos combustíveis e de outras matérias-primas que vêm da região do Médio Oriente, o anúncio de um aumento das tarifas sobre as exportações europeias de automóveis para os EUA, de 15% para 25%, veio agravar ainda mais as perspetivas para a indústria. Uma “nova ameaça” que pode travar as vendas da indústria automóvel e dos componentes para a Europa.

Depois de, no ano passado, ter fechado um acordo comercial com Bruxelas, onde ambos os blocos concordaram em reduzir as tarifas aplicadas sobre os bens europeus para 15%, Donald Trump prepara-se para dar o dito por não dito e voltar a aplicar uma taxa de 25% — a inicialmente anunciada por Washington — sobre as exportações europeias do setor automóvel para os EUA. O argumento é que a União Europeia não estará a cumprir o acordo assinado entre o presidente dos EUA e a presidente da Comissão Europeia, na Escócia.

“Tenho o prazer de anunciar que, uma vez que a União Europeia não está a cumprir o nosso acordo comercial integralmente acordado, na próxima semana aumentarei as tarifas sobre os automóveis e camiões da União Europeia que entrem nos Estados Unidos. A tarifa será elevada para 25%“, escreveu Trump na sua plataforma de redes sociais, Truth Social.

José Couto, presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), lamenta mais este anúncio, realçando que estamos perante “tarifas em cima de tarifas”, que estão a colocar a indústria “nessa situação que é preocupante“. Depois de um primeiro trimestre de quebras, o responsável não tem dúvidas que “as encomendas de componentes vão baixar”.

“Sabemos que as exportações da Alemanha para os EUA baixaram. As empresas portuguesas trabalham para a Alemanha”, destaca, notando que “isto não é uma coisa de curto prazo. É uma nova ameaça que vai determinar um período mais longo de recuperação para a indústria nos EUA“. As exportações de componentes automóveis fixaram-se em 3.000 milhões de euros no primeiro trimestre, menos 1,4% face ao mesmo período de 2024, com vendas para EUA e Alemanha a descerem.

Para José Couto, “vai ser preciso refazer planos de produção e de investimento em função de um novo enquadramento de produção na Europa. Vai ser preciso reajustar produção”. Perante estes desafios, o presidente da AFIA diz que “é preciso aumentar a competitividade nas componentes europeias e nacionais. Não podemos permitir que a indústria se deixe amarfanhar pelos competidores asiáticos e americanos“, atira.

Hélder Pedro, secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP), considera o anúncio “negativo” para o setor automóvel. “É uma situação que cria mais incerteza no setor automóvel. A relação bilateral com os EUA é uma relação que tem de ser resolvida”, realça, destacando que “as tarifas não são benéficas para os consumidores”. Para o secretário-geral da ACAP, o anúncio surge como uma “eventual retaliação à Alemanha”, uma vez que surge depois de o chanceler alemão Friedrich Merz ter afirmado que os EUA estavam a ser “humilhados” pelo Irão nas negociações para pôr fim ao conflito no Médio Oriente.

Quanto à indústria automóvel portuguesa, o responsável recorda que “Portugal é o 7.º produtor da União Europeia” e o “setor não está muito exposto aos EUA”. Mas, “a indústria nacional exporta para a União Europeia” e “se a economia europeia abrandar haverá menos procura, iremos vender menos veículos para a UE”, admite.

Mesmo que as tarifas não avancem, Hélder Pedro refere que a ameaça “coloca mais pressão sobre a UE”. “Há alguma preocupação porque tem impacto nos mercados e nos indicadores, isto num momento em que já temos inflação a subir. Não são anúncios positivos, mesmo que volte atrás”, atira.

Entregas sem prazos e custos a subir

As tarifas vêm aumentar a incerteza que paira sobre o setor, que enfrenta um aumento significativo dos custos de produção, por várias vias, devido à guerra no Irão. Segundo José Couto, no caso das componentes, “os custos estão a aumentar não só na energia, mas também na logística e nas matérias-primas. Há um aumento significativo de custos. Nos melhores cenários, há um aumento entre 10 e 12% do nível de custos“.

“Há alguns fornecedores que já não dão prazo para as entregas”, esclarece, referindo um “pessimismo nos planos de produção”.

Já o secretário-geral da ACAP refere que “as fábricas vão sentir uma implicação nos custos de produção“. Em termos de procura, “não há ainda uma desaceleração”, mas, avisa, “não sabemos os danos [desta crise] e quanto tempo vai demorar a repor [a situação de] pré-guerra”.

Quanto ao fornecimento de matérias-primas, para já, não há problemas, porque “há stocks, mas a prazo iremos sentir esse efeito”.

 

in ECO, por Patrícia Abreu, 05-05-2026


 

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