“Quando se espera um furacão, fica-se feliz com uma simples tempestade”, diz CIP sobre o acordo ente UE e EUA. Reino Unido “negociou melhor”, afirma AEP
in Expresso, por Margarida Cardoso, 28-07-2025
Os principais índices das bolsas europeias podem ter reagido em alta ao anúncio do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos, as ações das principais construtoras automóveis da Europa podem ter valorizado, mas a preocupação na indústria portuguesa continua. “A ansiedade de não sabermos o que temos pela frente acalmou, mas continuamos sem informações exatas sobre o que está em jogo e o que teremos de enfrentar”, diz ao Expresso José Couto, presidente da AFIA, a associação dos fabricantes da indústria automóvel, com dúvidas sobre a capacidade da Europa manter o registo das exportações nas 750 mil viaturas vendidas aos EUA em 2024.
Neste momento, diz, “é difícil saber se temos um bom acordo neste acordo possível, ou se a UE simplesmente se curvou perante os EUA”, afirma o empresário e dirigente associativo “pouco convencido de que o teto máximo de 15% nas tarifas sobre as importações europeias seja exatamente isso”. “É urgente a Comissão Europeia vir esclarecer os termos do acordo”, sustenta,
Na AEP – Associação Empresarial de Portugal, Luís Miguel Ribeiro não tem dúvidas de que “este é o acordo possível, mas está longe de ser o desejável”. Desde logo porque “a tarifa definida para a União Europeia, embora igual à aplicada ao Japão, é superior à concedida ao Reino Unido, o que significa que eles conseguiram negociar melhor”.
“Faltam ainda muitos detalhes sobre o acordo”, mas “há um aumento significativo das tarifas para as nossas empresas que exportam para os EUA diretamente ou através de outros países europeus. E isso significa perda de competitividade”, sublinha.
É verdade que depois de Trump ameaçar a Europa com tarifas de 200%, entretanto limitadas a 50% e, mais recentemente a 30%, fechar um acordo nos 15% pode ser “melhor do que nada”. “Quando se espera um furacão, fica-se feliz com uma simples tempestade”, como resume Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP – Confederação Empresarial de Portugal. Mais: “Tendo em conta o cenário alternativo de não acordo, que desencadearia uma agudização incontrolável de retaliações e contrarretaliações, com consequências desastrosas para a economia europeia, é com relativo alívio que acolhemos este desfecho. Para as empresas portuguesas esta previsibilidade é revelantíssima e a aparente acalmia dos mercados assim o confirma”, nota.
Impacto “muito negativo” para empresas
Contudo, sublinha, “estamos perante um aumento de taxas alfandegárias de um nível médio em torno de 2,5% antes da tomada de posse do Presidente Trump, de acordo com os cálculos da Organização Mundial de Comércio, para os 15% agora acordados”, não havendo reciprocidade do lado da UE “o resultado final afigura-se obviamente desequilibrado” e o impacto direto “será obviamente muito negativo para as empresas”.
E quais os sectores que serão mais afetados? As respostas coincidem. Para a CIP, um dos alvos principais é a indústria farmacêutica. O que se vai passar exatamente com os medicamentos ainda não está bem definido, mas em Portugal este é um dos sectores que regista maior exposição direta aos EUA, com uma quota de 34% nas exportações da fileira em 2024.
“Mesmo os setores em que o mercado norte-americano tem menor expressão não deixarão de ser certamente afetados. Tal será, por exemplo, o caso do setor automóvel, que não tem uma grande exposição direta ao mercado norte-americano, mas que exporta para empresas europeias muito dependentes deste mercado”, refere.
“O nosso mercado indireto é o que mais nos preocupa”, confirma José Couto, precisando que os EUA absorvem apenas 4,9% das exportações da indústria lusa de componentes, mas parte do que é vendido para países como Alemanha, França ou Espanha também atravessa, depois, o Atlântico. Admite, ainda, ter “muitas dúvidas sobre a possibilidade dos 15% anunciados virem efetivamente substituir em baixa as tarifas atuais de 27,5% em vigor sobre as importações de veículos europeus.
Para Luís Miguel Ribeiro, tão importante como o facto dos EUA representarem 6,7% das exportações portuguesas de bens, sendo o quarto mercado nacional e primeiro não europeu, é exatamente o peso das exportações indiretas: “uma vez que esta tarifa se aplica aos restantes 26 países da União Europeia – destino de mais de 70% das exportações portuguesas de bens. Caso as exportações de bens desses países para os EUA se deteriorem, é expetável que importem menos bens de Portugal. O setor automóvel poderá ser um dos setores mais afetados de forma indireta, assim como o têxtil”, precisa.
Alerta para acelerar apoios
Em termos gerais, relativamente ao impacto do acordo,, “tenderá a ser maior nos setores com maior grau de exposição aos EUA, destacando-se vários setores de elevada especialização produtiva da economia portuguesa, como os bens alimentares, os têxteis e o calçado, bem como os produtos das indústrias química, metalomecânica e de equipamentos, entre muitos outros”, afirma.
Outra preocupação transversal aos diferentes sectores é o compromisso da UE investir 600 mil milhões de dólares” (510 mil milhões de euros) nos Estados Unidos, comprar “grandes quantidades” de equipamento militar e 750 mil milhões de dólares (638 mil milhões de euros) em produtos energético. “Isso vai pesar negativamente em termos de PIB europeu, investimento em indústria e em Investigação e Desenvolvimento na Europa. Vai pesar na nossa produtividade e competitividade”, diz José Couto. “É um alerta para acelerar as medidas de apoio à internacionalização e competitividade das empresas”, acrescenta Luís Miguel Ribeiro.
E em cima de tudo isto, é preciso considerar, impacto decorrente das tarifas impostas pelos EUA a importações de outros países, designadamente a China. “Temos as vendas de automóveis na Europa a cair 1% e a indústria automóvel europeia a perder 12% porque a venda de viaturas de marcas chinesas está a aumentar”, alerta José Couto. “O mercado europeu já está a sentir uma maior pressão dos produtos chineses”, concorda Luís Miguel Ribeiro, da AEP. “Há que ter em conta o aumento de concorrência provocado pelo desvio dos fluxos comerciais do resto do mundo para os mercados europeus”, destaca também Rafael Alves Rocha, da CIP.






