Tarifas dos EUA ameaçam encomendas ao sector automóvel português, admite AFIA

Representante dos fabricantes de componentes automóveis critica “decisão unilateral” dos EUA e reconhece que “se as nossas vendas ao exterior se situarem em números do ano passado, já seria positivo” dado o atual contexto de choques negativos exógenos.

A “decisão unilateral” dos EUA de recuar no acordo comercial atingido com a UE no ano passado relativamente ao comércio internacional de automóveis irá obviamente afetar a indústria portuguesa de componentes, que depende bastante de outras geografias europeias como a Alemanha e Espanha. As exportações para estes mercados europeus até têm aguentado, mas é expectável uma redução das encomendas nos próximos meses com a introdução de tarifas norte-americanas na próxima semana, reconhece a Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA).

Washington voltou a avançar com tarifas sobre o sector automóvel europeu após o acordo comercial alcançado no ano passado, que previa barreiras de 15%. Assim sendo, os veículos europeus passarão a pagar 25% de tarifa à chegada ao mercado norte-americano, uma decisão “unilateral” da administração dos EUA e que constitui “um revés importante” para os fabricantes europeus, admite José Couto.

“Parecia que estava tudo resolvido, mas afinal não está”, começa por referir o presidente da AFIA ao JE, destacando os efeitos indiretos para o ramo português. “Tanto como produtores, como fornecedores da indústria alemã, estamos também com alguns problemas. Se os nossos clientes na Europa baixam a sua produção porque o mercado americano se fecha por questões regulatórias, também as empresas portuguesas sofrerão por via de uma baixa do volume de encomendas, em especial para a Alemanha”, resume.

Em concreto, o caso alemão até é dos menos negativos, na medida em que a quebra das exportações de componentes no arranque deste ano, de 2,6%, fica abaixo da queda na produção automóvel do país, que recuou 4% nos dois primeiros meses de 2026. Para o presidente da AFIA, este é um sinal de resistência das exportações nacionais e que mostra a “relevância” dos fabricantes portugueses.

Em sentido inverso, as vendas nacionais para Espanha, França e Reino Unido, os restantes mercados do top-4 de exportações portuguesas, caíram mais do que as produções nacionais destes países. Nos dois primeiros meses do ano, as exportações de componentes caíram 8,5% para 1.973 milhões de euros, de acordo com o levantamento da AFIA.

Perante este cenário, José Couto traça um comparativo: “se as nossas vendas ao exterior se situarem em números do ano passado, já seria positivo”. E, para tal, a prioridade é reforçar a competitividade, até porque esse tem sido também o desígnio dos nossos principais concorrentes, que partem de uma base mais elevada.

“Estamos acima da produtividade da indústria nacional, mas ainda é pouco, porque não estamos perto dos primeiros. Precisamos de caminhar rapidamente para o top-10”, projeta. “O top-4 das nossas exportações são países onde a produtividade tem crescido e onde há interesse em continuar a aumentar a competitividade”.

Washington recua no acordo do ano passado

A decisão de Trump de recuar no acordo comercial com os europeus foi anunciada na Truth Social, a rede social do presidente norte-americano, na semana passada e como retaliação pelo suposto incumprimento da UE na aplicação dos moldes acordados com Washington. Em vez dos 15% previstos nas negociações com Bruxelas, a administração norte-americana quer agora cobrar 25% à entrada de veículos automóveis e camiões oriundos do Velho Continente.

“É plenamente compreendido e acordado que, se produzirem carros e camiões em fábricas norte-americanas, não haverá tarifas”, lê-se na publicação do presidente dos EUA.

Recorde-se que o acordo comercial entre os dois maiores blocos económicos do mundo alcançado no verão passado previa que, caso os norte-americanos recuassem e voltassem a colocar barreiras comerciais acima do acordado, o Parlamento Europeu se reservaria ao direito de retirar a ‘luz verde’ dada.

Em 2025, e apesar da tempestade tarifária desencadeada pelo ‘Dia da Libertação’ norte-americano, que fez disparar a tarifa média à entrada nos EUA, o país manteve-se como o segundo mercado para a produção automóvel europeia, atrás apenas do Reino Unido. Ainda assim, as exportações caíram 21,7% em comparação com o ano anterior para 31 mil milhões de euros, de acordo com os dados divulgados pela Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) este mês.

Destes, 12% eram veículos eletrificados, uma redução em relação aos 15% registados no ano anterior.

Em sentido contrário, 6,3 mil milhões de euros em veículos norte-americanos foram importados para o continente europeu, ou seja, uma queda de 19,1% em termos homólogos.

 

in O Jornal Económico, por João Barros, 06-05-2026

 

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