O economista Miguel Caldeira Cabral considera que a Europa deve “retaliar”, tal como fez o Canadá, que já falou em colocar tarifas em produtos e bens sensíveis aos lóbis que apoiaram Donald Trump – tabaco, armas e eletrodomésticos, por exemplo.
in CNN Portugal, por Patrícia Pires, 03-02-2025
Ninguém parece ter muitas dúvidas de que o mundo vai sofrer com as tarifas que Donald Trump quer impor para defender a economia norte-americana. E Portugal não escapará imune. Nesta altura o pior “é a incerteza” que já está a afetar as bolsas e o “efeito disruptivo” na economia, que ficará provavelmente em suspenso até se saber ao certo o que deseja o presidente dos Estados Unidos, explica à CNN Portugal o economista Miguel Caldeira Cabral.
Os valores das tarifas ainda não são conhecidos ao certo e se para o Canadá e México se falou em 25% e para a China 10%, sobre a Europa nada foi dito. Miguel Caldeira Cabral acredita que os valores não sejam tão elevados: “Grande parte desta estratégia de tarifas parece ser uma estratégia para ganhar vantagens negociais.” Ou seja, assusta-se o mundo com valores elevados e fecham-se negociações a meio termo. Trata-se “apenas de uma forma de ganhar vantagens de curto prazo”. “Não é liderar, é só fazer bullying através das fronteiras, o que não é de facto nada bom para o mundo”, defende.
De uma coisa o economista não tem dúvidas: “Isto é muito mau para ambos os lados do Atlântico” e não podemos esquecer que “Portugal é um país que está virado para o Atlântico”.
O impacto em Portugal pode ser “direto e indireto”, sendo que nos últimos anos as exportações para os Estados Unidos “têm crescido bem”. Todos os anos exportamos cerca de “cinco mil milhões”, o que “equivale a cerca de 4% das nossas exportações” e importamos “perto de três mil milhões”. Mas além do valor das tarifas, falta saber o tipo de bens que vão ser “objeto de tarifas”. Sendo que “do que importamos metade é petróleo”.
E o que mais exportamos? “Exportamos têxteis, em particular têxteis de lar. Exportamos químicos, máquinas e muitos inputs para a indústria. E isto tudo é o que exportamos diretamente. Porque indiretamente exportamos outro tanto, mas é mais difícil saber exatamente. Até porque há muitos componentes que exportamos para a indústria de máquinas ou para a automóvel – para outros países – que depois acabam em exportações para os Estados Unidos. O que significa que pode haver aqui um impacto indireto também importante”, assume Miguel Caldeira Cabral.
“Encerramento de fábricas”
Um dos objetivos de Donald Trump pode ser fazer com que a Europa esteja disposta a “importar mais gás natural e petróleo dos Estados Unidos”. E, nesse aspeto, Portugal poderia ter alguma vantagem. “O nosso Porto de Sines poderá acabar por beneficiar se houver mais interesse da Europa ou se facilitar mais a importação, nomeadamente do gás americano e do petróleo americano. Mas será uma vantagem mais desfasada”, admite.
A atual incerteza é grave para o especialista. “Até estar esclarecido qual será a política do Trump em termos de comércio internacional, investimentos em novas unidades de exportação que sejam em áreas viradas para exportar para os Estados Unidos, vamos estar em suspenso.” Um efeito em cadeia e “disruptivo”, uma vez que só depois de mais certezas as empresas terão noção dos passos futuros. Fechar, mudar de país, investir, desinvestir, readaptar, procurar outros mercados, entre outros. Na verdade, esta decisão “vai gerar, no curto prazo, provavelmente encerramento de fábricas de ambos os lados da fronteira, ou seja, lá dentro dos Estados Unidos e fora dos Estados Unidos”.
Miguel Caldeira Cabral considera que a Europa deve “retaliar”, tal como fez o Canadá, que já falou em colocar tarifas em produtos e bens sensíveis aos lóbis que apoiaram Donald Trump – tabaco, armas e eletrodomésticos, por exemplo.
Ao todo, Portugal poderá ver 10% das suas exportações afetadas, sejam as que são feitas de forma direta com os Estados Unidos, sejam as que chegam ao outro lado do Atlântico por intermédio de outros países.
O economista considera que a recuperação económica europeia também pode ser afetada por esta política que é “negativa” e um “entrave”. E é por isso que defende que “a Europa deve, obviamente, retaliar para evitar que os Estados Unidos possam ter algum ganho de termos de trocas”.
Mas não só. “A Europa o que deve fazer é, contrariando a lógica de Trump, deve acelerar os acordos de comércio com a América do Sul e a América Central. Eventualmente com o Canadá, mas também com o Japão, com a Coreia. Virar-se para outros lados. Numa altura em que os Estados Unidos parecem querer fechar-se é importante que a Europa aproveite essa oportunidade e principalmente não deixe a China como o único interveniente que tem uma estratégia de internacionalização e de entrada e conquista de mercados.”
É, no fundo, “aproveitar para combater o isolacionismo americano, reforçando e acelerando os acordos comerciais com o resto do mundo, já que o resto do mundo poderá estar neste momento mais aberto a fazer acordos com a Europa também”.
E há uma ironia que não escapa aos olhos de Miguel Caldeira Cabral: “Os Estados Unidos foram os líderes da construção desta ordem mundial que, em muitos aspetos, era favorável às economias de mercado, era favorável às democracias e, por isso, havia uma natural liderança americana”. Só que agora “estão a destruir estas instituições e a confiança que havia nestas alianças, estando a dar cabo em pouco tempo do que demorou 100 anos a consolidar”.
“Parece-me que é muito mau para o mundo, mas muito mau também para os próprios Estados Unidos”, conclui.
“Destino importante para as exportações portuguesas”
A área dos componentes será uma das mais afetadas com as tarifas anunciadas e José Couto, da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), não tem dúvidas de que vão ter “um efeito direto e indireto”.
Mas, tal como Miguel Caldeira Cabral afirmou, até ser conhecido o tarifário final não é possível, diz à CNN Portugal José Couto, calcular o impacto destas medidas no país. “Vamos ter uma onda sobre a Europa, mas não sabemos qual é a ordem de grandeza. Há empresas europeias que trabalham na Europa e que, por exemplo, trabalham no México”. Ou seja, irão sofrer duplamente com as tarifas.
“Há uma coisa que é certa, é que as exportações para o mercado americano têm algum significado, nomeadamente em alguns produtos que são diferenciados. E se houver uma diminuição da procura desses produtos, obviamente vamos sofrer”, antecipa.
Todavia, há já “construtores que pensam construir automóveis nos Estados Unidos e, portanto, no território dos Estados Unidos, porque é uma forma de manter o negócio e estar perto de quem lhes compra os componentes”.
Mas José Couto teme os efeitos da medida para além da administração Trump. “Tem um efeito que não se esgotará no tempo do trânsito da Casa Branca ou durante o mandato do Trump. Provavelmente, estará para além disso e portanto as empresas têm de se adaptar a este processo e fazer investimentos.”






