“Quinze dias depois de tomar posse, o presidente dos EUA estava pronto a aplicar tarifas à China, Canadá e México”. Já a Europa “anda há anos presa em relatórios sem avançar”, diz presidente da AEP
in Expresso, por Margarida Cardoso, 05-02-2025
Com as ameaças de tarifas de Donald Trump e a incerteza a pairar sobre o comércio internacional, o Brasil vai conquistando cada vez mais atenção em diferentes fileiras da indústria portuguesa, dos têxteis à metalurgia, ao vinho ou ao sector automóvel. “Sem marca não podemos olhar para a Ásia como alternativa, mas o Brasil pode ser uma hipótese muito interessante, em especial no âmbito do acordo do Mercosul”, reconhece Mário Jorge Machado, presidente da ATP, associação do sector têxtil, que tem nos EUA o único mercado em crescimento no ranking dos seus 10 maiores clientes.
“Temos de olhar mais para o Brasil como um cliente interessante, com potencial”, afirma o presidente do conselho de administração da AEP – Associação Empresarial de Portugal, Luís Miguel Ribeiro, atento às “portas que se abrem com o acordo UE – Mercosul em toda a América do Sul e, em especial no mercado brasileiro”. “E Portugal pode aproveitar a oportunidade para assumir um papel de liderança na Europa nesta frente”, afirma Luís Miguel Ribeiro ao Expresso.
Mas quando se fala da política protecionista norte-americana, “também vale a pena analisar exatamente o que está em causa”, comenta o mesmo dirigente. O presidente da AEP sublinha que “o grau de abertura da economia europeia é de 97%, contra os 25% dos EUA e os 37% da China” e que “o peso das importações na Europa é de 47%, contra 14% nos EUA e 18% na China”.
No meio de todas as dúvidas sobre o que será realmente a política de tarifas aduaneiras do presidente dos EUA, Donald Trump, há uma coisa que ficou clara: “A capacidade de ação dos EUA contrasta com a extrema lentidão da Europa”, afirma Luís Miguel Ribeiro, presidente do Conselho de Administração da AEP – Associação Empresarial de Portugal.
“Quinze dias depois de tomar posse, o presidente dos EUA estava pronto a aplicar tarifas à China, Canadá e México e aplicou-as efetivamente à China. Já a Europa anda há anos presa em relatórios sem avançar”, precisa.
Na sua análise, “se o protecionismo americano pode ter um lado positivo, será como motor da Europa, forçando os líderes da UE, finalmente, a agir”, diz o dirigente associativo num apelo “à união e ação” da Europa repetido por diferentes líderes empresariais depois de Trump dizer expressamente que “em breve” irá aplicar taxas sobre as importações europeias.
Mas se a preocupação é grande, como todos admitem, os planos de ação e promoção dos diferentes sectores no 4º maior cliente de Portugal mantêm-se inalterados, garantem.
Investir nos EUA
“A incerteza é grande e estamos a falar do nosso maior mercado de exportação, mas como os EUA são deficitários em vinho, acreditamos que este não será um alvo de Trump e mantemos os EUA como mercado prioritário”, diz Frederico Falcão, presidente da Viniportugal, sobre um cliente que vale mais de €100 milhões e na expetativa de ver a nova administração a “atacar o consumo da cannabis, que tem vindo a crescer e a ganhar terreno ao vinho nos EUA como no Canadá”.
Nos componentes automóveis, José Couto presidente da associação sectorial AFIA, sublinha que “os EUA têm vindo a ganhar relevância para Portugal” e “não é fácil encontrar mercados de substituição”, pelo que “a melhor estratégia é focar a atenção em fazer o trabalho de casa bem feito para obter ganhos de produtividade e aumentar a competitividade, até porque mesmo sem tarifas sobre a Europa, a política de Trump traz desafios acrescidos”, alerta.
“Estamos a investir numa alternativa aos motores de combustão e esses não vão ser os carros que os EUA procuram. Além disso, se as taxas avançarem sobre o México também seremos penalizados porque há empresas portuguesas a trabalhar lá e vendemos para lá”, nota.
No quadro atual, será provável termos mais investimentos diretos nos EUA, incluindo de empresas portuguesas, admite depois de a TMG Automotive (têxteis para automóveis) anunciar que vai ter uma fábrica no sul do país em parceria com a norte-americana Haartz. No entanto, “isso exige uma capacidade financeira que muitas empresas não têm”, admite.






