“Stellantis não vai fechar fábricas”, garante número dois do gigante automóvel

Diretor de Operações da Stellantis – grupo que tem uma fábrica em Portugal (Mangualde) -, diz que está aberto a novas parcerias com marcas chinesas na Europa

Está a Stellantis a equacionar o encerramento de alguma fábrica? A resposta do número dois da gigante automóvel é perentória: “Não. Por enquanto, não está previsto”, assegura o diretor operacional do grupo, Emanuele Cappellano, apesar de a Stellantis estar apenas a utilizar 60% da sua capacidade instalada.

Em entrevista ao Expresso, em Hannover (Alemanha), o diretor de operações (COO) para a Europa, com o pelouro das marcas europeias (cargo que acumula com a direção da Stellantis Pro One, unidade de negócio para os veículos comerciais, como furgões e pick-ups), mostra-se otimista e garante que a utilização da capacidade instalada do grupo vai aumentar “em breve” para 80%. Em parte, recorrendo à partilha de algumas unidades industriais com marcas chinesas.

É o que vai acontecer com a Leapmotor e com a Dongfeng. A primeira, que já integra o universo da Stellantis, vai utilizar as fábricas deste grupo em Saragoça e em Madrid (Villaverde) no âmbito da expansão da parceria estratégica entre as duas partes.

No caso da Dongfeng, além da produção de automóveis por esta marca chinesa na fábrica de Rennes, em França, em conformidade com a regulamentação europeia e os requisitos Made in Europe, o acordo com a Stellantis prevê também a distribuição de carros elétricos da própria Dongfeng nos mercados europeus. De acordo com o plano previsto, os parceiros vão criar uma nova joint venture sediada na Europa e liderada pela Stellantis (com 51%).

Abertos a “outras possíveis parcerias”

“Por enquanto não há mais novidades. Mas estamos a olhar atentamente para outras possíveis parcerias. Estamos abertos a isso, até porque é uma forma de acelerar o nosso desenvolvimento, e utilizarmos a capacidade produtiva, tanto quanto possível, para além de termos acesso a tecnologias mais competitivas que talvez hoje não tenhamos”, admite Emanuele Cappellano.

A Stellantis, que é o quarto maior grupo automóvel mundial, e integra 15 marcas (entre as quais a Peugeot, Citroën, DS, Opel, Alfa Romeo, Jeep, entre outras), não deverá, para já, entrar na Defesa, ao contrário de alguns dos seus concorrentes mais diretos, como a Volkswagen ou a Renault. Cappellano diz que não tem nada contra essa opção, mas que, à data, não está a ser considerada. Por outro lado, quando lhe perguntamos se está ser equacionado o fecho ou a venda de alguma das marcas que integram o portefólio da Stellantis, sublinha que não, mas admite que o grupo chegou a “estudar essa possibilidade”. Mas nota que as marcas estão muito ligadas a certas regiões da Europa e mesmo a algumas regiões a nível global e que “essa tendência é para aprofundar”. Em Portugal a Stellantis tem uma fábrica de comerciais ligeiros em Mangualde.

Para já, a Stellantis, ao contrário da VW e da Renault, não equaciona a entrada na área da Defesa

O gestor fala de “um regresso às origens” de algumas marcas icónicas do grupo, como a Citroën ou a DS, pela via da eletrificação, mas não adianta pormenores.

Emanuele Cappellano garante que não haverá despedimentos mas algumas situações de readaptação da mão de obra para atividades diferentes das que desenvolviam. É o caso da unidade de Poissy (França), que vai deixar de produzir automóveis para se dedicar aos componentes e à economia circular.

O diretor operacional da Stellantis não comenta o que se está a passar com o grupo Volkswagen (que anunciou recentemente o despedimento de mais de 100 mil empregados), e diz apenas que “a regulamentação europeia deve mudar, porque sem mudança a indústria europeia vai entrar numa profundíssima crise”.

De notar que, à crescente convulsão no grupo Volkswagen (que acarreta o encerramento de quatro fábricas na Alemanha, pela primeira vez na sua história), juntou-se, esta semana, o facto de a gigante do sector automóvel ter sido removida do índice Euro Stoxx 50, o que resultou de uma revisão trimestral motivada pelo fraco desempenho bolsista da fabricante alemã.

Os custos do processo de reestruturação em curso, associados ao fraco desempenho da marca no mercado chinês, estão entre as principais causas da quebra da performance do gigante alemão — que, ainda assim, continua a vender milhões de carros e a ocupar a segunda posição no sector à escala global, a seguir à Toyota. A marca nipónica admite, por seu turno, investir cerca de €5,6 mil milhões por ano, a partir de 2028, na automatização das suas fábricas à escala global, com perto de 400 mil robôs.

Emanuele Cappellano, porém, prefere anunciar que, até 2030, a Stellantis colocará no mercado 25 novos modelos, equipados com todos os tipos de motorizações: combustão (gasolina e gasóleo, híbridos e elétricos).

“Os motores a diesel são para continuar, pois, no segmento dos comerciais, ainda têm muita procura, tanto na Europa como noutros continentes”, acrescenta o gestor da Stellantis. É muito provável que a empresa volte aos carros equipados com motores híbridos mas a diesel, retomando uma experiência que foi feita pela Peugeot há pouco mais de uma década, mas que depois foi descontinuada. “Isso é uma outra coisa, que iremos comunicar assim que pudermos”, remata o gestor. Mas vai mesmo acontecer? “Acho que poderia ser uma opção interessante para os veículos comerciais.”

Mas porque é que neste contexto os veículos comerciais são tão importantes para a Stellantis? “Porque historicamente a Stellantis tem uma liderança muito forte neste tipo de veículos. Somos os primeiros do segmento na América do Sul e ocupamos o terceiro lugar na Europa, mas com tendência para melhorar. Nos Estados Unidos também ocupamos a terceira posição”, aponta Cappellano.

O Expresso viajou a convite da Stellantis

FRASES

“Isso [veículos comerciais híbridos a diesel] é uma outra coisa, que iremos comunicar assim que pudermos”

“Os motores a diesel são para continuar, pois, no segmento dos comerciais, ainda têm muita procura”

Emanuele Cappellano
COO da Stellantis

in Expresso, Vítor Andrade | Coordenador de Economia, 24-09-2026

 

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