Braga está a ganhar peso na estratégia global da Bosch para a mobilidade do futuro. Da fábrica de Lomar já saíram 17,5 milhões de radares que já equipam veículos em todo o mundo.
“Em Braga estamos a contribuir para o carro do futuro.” É assim que Carlos Jardim, administrador da Bosch, descreve os radares sensores que estão a ser produzidos na fábrica da multinacional alemã em Lomar. É desta unidade que vão sair 10 milhões de radares este ano para mais de 20 clientes de todo o mundo. No final deste ano, a unidade irá iniciar a produção em massa de um radar interior destinado a prevenir o esquecimento de bebés dentro dos automóveis. “Braga será, a partir deste ano, a fábrica da Bosch que mais produz radares a nível mundial.”
À chegada à unidade industrial, deparamo-nos com uma estrutura com 100 mil metros quadrados de área total, dos quais 50 mil são dedicados à produção e logística, empregando 3.500 pessoas. Depois de entrarmos no complexo industrial percorremos vários pavilhões até chegarmos ao edifício BRG 108, onde fica a unidade de produção do sensor radar e onde “a magia acontece”, segundo as palavras de Maria Oliveira, diretora de produção do Radar.
Localizados nesta unidade desde 1990 — unidade que pertenceu à Grundig — o complexo conta com três polos de produção, três áreas logísticas e três polos de desenvolvimento (espalhados por Sequeira, Lamaçães e Ferreiros).
Na unidade de produção do radar sensor, ninguém entra sem registar a entrada e sem o equipamento adequado, que inclui bata branca da Bosch e botas. No caso dos visitantes, é fornecida uma fita adesiva magnética para colocar nas sapatilhas.
A unidade de Braga começou a produzir radares em 2022, o radar geração 5, e desde então já fabricou 17,5 milhões de unidades para marcas como o grupo Volkswagen, BMW, Honda, Nissan e BYD. A nível global, a Bosch já produziu 100 milhões de radares em 25 anos, altura que começou a dedicar-se a esta tecnologia.
“O radar geração 5 começou a ser produzido fora de Braga e foi transferido para cá”, refere Nuno Ribeiro, program manager da Bosch Braga. Em 2025, a fábrica nortenha começou a produzir a nova geração de radares, o 6, vendido para todo o mundo. “Braga é a única fábrica do mundo a produzir o radar geração 6”, afirma com orgulho, Nuno Ribeiro, sublinhando que se trata do primeiro radar da Bosch lançado fora da Alemanha.
“Temos três gerações de produtos que já estão em produção em série em Braga, geração 5 plus, geração 5 premium e geração 6 — que começou a ser produzido em setembro do ao passado. Temos uma nova geração que está em fase de desenvolvimento a geração 7″, explica ao ECO, Maria Oliveira, diretora de produção do Radar.
Braga é a única fábrica do mundo a produzir o radar geração 6 e o primeiro radar da Bosch lançado fora da Alemanha.
Nuno Ribeiro | Program Manager Bosch Braga
Para além da fábrica de Braga, os radares são produzidos na Alemanha, China e México, com exceção da geração 5 premium e da geração 6 fabricados apenas em Portugal.
O investimento entre 25 a 30 milhões de euros realizado no último ano permitiu duplicar a capacidade de produção, passando de três para seis linhas industriais, com a capacidade instalada a aumentar de 5,5 milhões para 10 milhões de radares por ano.
Atualmente, a fábrica opera com seis linhas de produção, onde os radares frontais e de canto (corner radar sensors) são produzidos através de processos totalmente automatizados e semi-automatizados. Numa das linhas sai um radar a cada 4 segundos. No total, são produzidos 38 mil radares por dia, sendo que o ano passado saíram de Braga cerca de seis milhões de radares.
“Em Braga somos lead plant para esta solução, ou seja, desenvolvemos e industrializamos não só para Braga, mas também para as outras localizações da Bosch que produzem este produto”, conta o administrador da multinacional alemã, acrescentando que “têm equipas a trabalhar na digitalização, inteligência artificial e logística de soluções que vão ser aplicadas não só em Braga, mas também na international production network que produz os mesmos produtos que nós produzimos”, nota Carlos Jardim.
Os resultados já refletem esta expansão: “Só nos primeiros três meses do ano produzimos em Braga 40% do volume total registado em 2025”, destaca Maria Oliveira, diretora de produção do Radar, que trabalhou durante três anos na fábrica da China. Em março, foram produzidos quase um milhão de unidades da geração 5 plus. Diariamente, são ainda processadas entre 60 e 80 paletes, enviadas para mais de 20 clientes em todo o mundo.
“Os radares são uma peça muito importante na mudança de portefólio da fábrica de Braga”, refere Maria Oliveira, reforçando as palavras do administrador: “Vamos ser a fábrica que mais vai produzir radares dentro do grupo Bosch.”
“Estamos a desenvolver sistemas computacionais muito complexos que irão gerir todos os sinais que são adquiridos por estes sensores”, explica Carlos Jardim, administrador da Bosch, destacando que “os radares verificam tudo o que acontece à volta do carro e as câmaras têm a capacidade de observar tudo o que acontece dentro do carro”.
O radar sensor pode ser adaptado às necessidades dos clientes e estão presentes em sistemas como por exemplo o Automated Emergency Braking (travagem automática de emergência) e o Blind Spot Detection (deteção de ângulo morto). Em veículos pesados, podem até detetar perda de carga.
O program manager da Bosch Braga explica que ao desenvolverem o produto, conseguem colocá-lo no mercado para qualquer OEM que esteja interessado, contabilizando que “neste momento equipam mais de 20 OEM que incluem fornecedores de carros, de motos, de camiões e comboios“, detalha o Nuno Ribeiro.
Na comparação com câmaras, os radares destacam-se pela capacidade de funcionamento em condições extremas. “Pode estar nevoeiro, chuva intensa ou escuridão total, e os radares continuam a funcionar”, sublinha Carlos Jardim, administrador da Bosch. O responsável acrescenta que a combinação entre câmaras e radares está a tornar-se cada vez mais comum na indústria automóvel.
Carlos Jardim destaca ainda que os radares sensores são “uma grande vantagem” e que é por isso “que muitos dos construtores estão a mudar de câmara para radares ou até fazer uma combinação de ambos para uma melhor performance“.
O administrador dá o exemplo da Tesla. A marca automóvel de Elon Musk lançou agora um novo modelo que já tem radares, em que o “campo de atuação é muito maior e as câmaras, infelizmente, não funcionam em situações climatéricas e de luminosidade muito agressivas”.
“Com a inteligência artificial iremos trazer ainda mais capacidade de perceção a estes radares, tornando-os o futuro da condução autónoma”, acrescenta o administrador da Bosch em Braga.
No final deste ano, a fábrica de Braga iniciará a produção em massa de um radar interior destinado a prevenir o esquecimento de bebés dentro dos automóveis, o chamado cabin sensing. “Este radar vai detetar a presença de ocupantes e alertar o condutor para evitar mortes de bebés dentro da viatura”, revela o program manager.
Em 2027, a unidade vai arrancar com a produção do radar geração 7 e, no ano seguinte, da versão premium. O System on Chip desta nova geração será desenvolvido e produzido pela Bosch, funcionando como o “cérebro” do produto. Segundo a administração, esta integração permitirá “ser mais competitiva em termos de custo e mais autónoma, deixando de depender de terceiros para receber a eletrónica do produto”.
Na ótica de Carlos Jardim, o sucesso do projeto baseia-se em três pilares: “trazer rapidamente as novas soluções para o mercado, conseguir custos competitivos para podermos competir com este mercado muito complexo, principalmente com a China, e ter qualidade, porque sem qualidade não conseguimos equipar carros premium e fazer uma condução cada vez mais segura”, remata o administrador.
Antes da produção, todo o desenvolvimento ocorre no centro de I&D localizado em Sequeira. No total, o projeto Radar envolve cerca de 200 colaboradores, entre investigação, produção e industrialização, e o centro conta atualmente com cerca de 15 vagas em aberto.
Lukas Wassermann, atual diretor de engenharia da unidade de Braga, mudou-se da Alemanha para Portugal após seis anos na área de Radar Components da Bosch, com o objetivo de “trazer mais empregos e negócios para Portugal”. O responsável afirma que a multinacional é líder de mercado neste segmento do radar sensor.
Embora a Bosch disponha de vários centros de desenvolvimento a nível global — incluindo Plymouth (EUA), Leonberg (Alemanha), Budapeste (Hungria), Yokohama (Japão), Suzhou (China) e Bangalore (Índia) — a multinacional alemã decidiu concentrar em Braga o desenvolvimento e industrialização das próximas gerações de radares.
Hernâni Correia, responsável pelo desenvolvimento de hardware da Bosch Braga, destaca que Portugal reúne “competência, flexibilidade (tendo em conta que estão a uma hora e meia de avião da casa mãe) e eficiência em inglês”, rejeitando que o custo seja o principal fator de competitividade face à China.
Num momento em que a tecnologia de sensores ganha peso na evolução para o carro do futuro, a fábrica e o centro de I&D da Bosch em Braga afirma-se cada vez mais como um dos principais polos mundiais de produção de radares para a indústria automóvel.
in ECO, por Fátima Castro, 12-04-2026





