Com acesso a energias renováveis abundantes e baratas, bem como às maiores reservas de lítio da União Europeia, Portugal tem em mãos uma oportunidade de transformação da sua economia
in Expresso, artigo de opinião de Artur Patuleia, 21-01-2025
Após a crise na produtora sueca de baterias Northvolt, o fornecimento de baterias para a produção automóvel na União Europeia passará cada vez mais por cadeias de valor globais e investimento asiático. Com as maiores reservas de lítio da União Europeia, uma posição geográfica estratégica e acesso a renováveis baratas e abundantes, Portugal tem neste contexto uma oportunidade acrescida de atrair investimento industrial da cadeia de valor das baterias.
Portugal foi bafejado com o acesso privilegiado aos recursos que dominarão a nova economia limpa e digital. Depois de ter perdido a corrida da industrialização no século XIX para regiões com melhores acessos a combustíveis fósseis, Portugal tem desta feita acesso aos recursos necessários para a produção das tecnologias da nova economia limpa e digital. Entre estas tecnologias destacam-se as baterias, semicondutores, veículos elétricos, eletrolisadores, energias renováveis ou bombas de calor. Trata-se de produtos com cada vez maior presença nas nossas sociedades, estimando-se que o seu mercado triplique até 2035. Estas tendências já são visíveis no caso português. Em junho de 2023, dados do Governo português indicavam €9 mil milhões em intenções de investimento na indústria das baterias, com um potencial de sete mil empregos.
Estamos perante uma vaga de investimento industrial à escala global para a produção destas tecnologias. Países e blocos económicos globais competem entre si pela localização destes investimentos, na certeza de que a futura geografia industrial destas cadeias de valor ditará influência geopolítica, relevância tecnológica e o nível de sofisticação das diferentes economias. Recentemente, a consultora McKinsey estimou que, no caso português, se pode estar perante uma oportunidade que valerá 10% do PIB até 2030.
Com acesso a energias renováveis abundantes e baratas, bem como às maiores reservas de lítio da União Europeia (UE), Portugal tem em mãos uma oportunidade de transformação da sua economia, desenvolvendo capacidade industrial em áreas estratégicas a partir dos seus recursos naturais. Portugal poderá assim romper com a tradição de não acompanhar a exploração de recursos naturais com investimento industrial – dados da OCDE revelam que um recurso geológico português gera perto de 80% da sua riqueza no estrangeiro, quando a média na UE ronda os 30%.
Mas a oportunidade é também seguida de responsabilidade, especialmente para os objetivos estratégicos da União Europeia. A capacidade de Portugal atrair investimento industrial a partir do acesso a reservas de lítio e de energia renovável abundante e barata é duplamente benéfica para os objetivos europeus de maior resiliência económica e competitividade. Por um lado, contribui para as ambições europeias de incorporação de materiais críticos minerados ou refinados na UE na produção de tecnologias estratégicas, ainda por mais com baixos custos energéticos. Por outro lado, a existência de capacidade industrial na cadeia de valor do lítio combinada com a posição geográfica de Portugal – e as suas relações económicas privilegiadas com economias emergentes – poderão fazer do país uma plataforma de referência nos fluxos globais de comércio de lítio e produtos associados (ex: baterias e componentes). Isto por si só reduzirá os riscos de fornecimento em cadeias de valor estratégicas.
A crise da Northvolt tenderá a reforçar a importância destas cadeias de valor globais, e assim a influência geoeconómica portuguesa. O avanço tecnológico de produtores asiáticos no fabrico de baterias, coloca-os ainda mais como parte imprescindível da futura capacidade instalada de produção de baterias na UE. Nesta nova realidade, Portugal poderá ter um papel destacado no acesso às matérias-primas e produtos intermédios para a produção de baterias no espaço europeu, contribuindo para o objetivo europeu de maior resiliência económica.
Contudo, Portugal ainda tem desafios a superar na atração de investimento industrial. Pese embora o seu acesso privilegiado a lítio, os dados de investimento clean tech revelam que Portugal ainda ocupa uma posição tímida no mapa de investimentos industriais de baterias e veículos elétricos (ver estatísticas do think tank europeu Bruegel e do instituto de investigação alemão Fraunhofer). Ao contrário da revolução industrial do século XIX, em que as regiões com acesso a carvão se tornaram importantes centros industriais, Portugal não está a conseguir capitalizar o seu acesso privilegiado a recursos naturais, arriscando-se a ficar-se pela exploração e refinação de recursos naturais – dados da cadeia de valor do lítio do Canadá revelam que apenas 15% da riqueza gerada pela cadeia de valor das baterias se encontra nas fases de mineração e processamento de lítio.
Para superar estes desafios será necessário que Portugal adapte o seu quadro de política industrial, à semelhança de Espanha que em dezembro lançou uma nova Lei da Indústria e se perfila publicamente como o próximo “hub” europeu de investimento industrial. Tal passará por ajustar a arquitetura e mecanismos do quadro de política industrial, do financiamento ao planeamento de infraestruturas, à inovação ou à maior previsibilidade no licenciamento. Mas também passará por assumir uma voz influente no debate europeu sobre indústria e competitividade, perfilando o país como parte da solução para os objetivos europeus de maior resiliência económica e competitividade.






