Håkan Samuelsson, presidente executivo da Volvo, diz que a China está a optar cada vez mais por fabricar localmente os automóveis para consumo interno e que “o mesmo está a acontecer com os EUA”. E defende que “os carros elétricos são melhores, a única desvantagem é a dificuldade em carregá-los”
in Expresso, por Vítor Andrade, 29-01-2026
Depois de ter anunciado uma mudança radical para a produção de carros totalmente elétricos a partir de 2030, a construtora sueca Volvo recuou na estratégia. Em entrevista ao Expresso, o presidente executivo da marca diz que é necessário “ser realista” e continuar a fabricar carros com motorizações híbridas enquanto os clientes o desejarem.
A Volvo ainda continua focada na eletrificação total de toda a sua frota?
Sim, mas isso é a longo prazo. E a questão é: quando chegaremos lá?
Mas a marca tinha assumido que em 2030 abandonaria por completo carros com motores a combustão…
Dissemos que seria em 2030, mas provavelmente levará um pouco mais de tempo. Teremos, com certeza, carros elétricos para todos os nossos clientes em 2030. A questão é: será que vivem em zonas onde os podem carregar? E aí temos de ser realistas. Assim sendo, decidimos que precisamos de híbridos plug-in para estes clientes. Mas diria que a maioria dos nossos carros serão elétricos em 2030.
Mas não na totalidade, portanto?
Não totalmente. Note-se que a Europa cresceu 25% [em vendas de carros elétricos] no ano passado. É um crescimento muito rápido, que irá continuar. E com este carro que estamos a apresentar [o Volvo EX60] diria que o processo vai acelerar. Porque agora vamos ter um carro com um preço acessível, que carrega de forma muito rápida e tem uma autonomia semelhante à de um automóvel normal com motor a combustão. Quanto ao tempo para a adoção, deixemos que sejam os clientes a decidir. Estamos prontos para 2030, mas vamos esperar para ver quando é que o último cliente vai optar por um carro elétrico ou por um híbrido.
O que pensa da revogação da proibição dos carros com motor de combustão interna pela Comissão Europeia a partir de 2035?
Para nós não é grande problema, pois nunca fomos pressionados para isso. Acreditamos que para a indústria automóvel é, provavelmente, bom se houver sinais [políticos] claros. E se a transição para a eletrificação for mais rápida, se criarmos um grande mercado interno na Europa para os automóveis elétricos, isso será bom para toda a indústria automóvel europeia.
“Se lançarmos os carros e não houver rede de carregamento, isso será um problema para todos nós”
E se aqueles sinais não forem nesse sentido?
Em caso contrário estaremos a deixar o caminho aberto para os chineses, o que, mais ou menos, já acontece. Por isso não acho que seja bom para a indústria, a longo prazo, tentar manter-se na tecnologia antiga e ultrapassada. Os carros elétricos são melhores, a única desvantagem é a dificuldade em carregá-los. Mas ainda faltam dez anos até 2035, portanto é um desafio muito mais simples do que enviar um homem à Lua. Penso que seria possível e desejável instalar mais carregadores na Europa nos próximos dez anos.
Acredita nisso?
Sim, claro. Se a União Europeia decidisse realmente criar um programa deste tipo, seria totalmente viável. Mas se lançarmos os carros e não houver rede de carregamento, isso será um problema para todos nós.
Está otimista, apesar da lentidão das decisões políticas a nível europeu?
Absolutamente. Se puder carregar os carros, sim. E, claro, vamos precisar deles. Não se pode é simplesmente impor à indústria automóvel a exigência de que venda apenas carros elétricos se não houver onde os carregar. Por isso, se houver um programa semelhante para construir a infraestrutura, penso que seria claramente viável. E é uma das melhores medidas para reduzir as emissões de CO2.
A Volvo tenciona aproveitar alguma da tecnologia da sua acionista chinesa Geely?
Sim, até porque as nossas prioridades são mesmo não fazer concessões e apostar nos carros totalmente elétricos. Vamos ver o que poderemos fazer de forma mais inteligente em conjunto com a Geely. E o XC70 [um híbrido de autonomia alargada] é um bom exemplo do que podemos fazer. O mercado automóvel parece estar a passar da globalização para o regionalismo.
Quer precisar melhor?
Sim, isto está a acontecer porque a globalização, há muitos anos, transformou-se numa abordagem mais regional. E pode ver a China, por exemplo, que era realmente dominada por carros importados, especialmente no segmento premium, e agora está a tornar-se um mercado muito mais doméstico. Têm os seus próprios carros e a China também já não consegue produzir para exportação como antes, porque agora existem tarifas. E se quiser vender no mercado chinês precisa de fabricar localmente. O mesmo está a acontecer com os EUA.
Qual será a vossa abordagem ao mercado norte-americano?
Vamos construir o XC60 localmente, nos EUA, e também precisaremos de importar alguns produtos britânicos. Mas iremos necessitar também de um híbrido de autonomia alargada nos EUA.
Neste contexto de ‘guerra tarifária’ e de passagem da globalização para a produção mais regional, a Volvo equaciona fechar alguma fábrica na Europa…?
Não.
… ou fazer despedimentos?
Não.
Mas já o está a fazer…
O que se passa é que decidimos reduzir o pessoal em três mil pessoas.
Onde exatamente?
São funcionários administrativos, não da produção. Aliás, nessa área estamos a expandir. Estamos a construir uma nova fábrica na Eslováquia. Portanto, não estamos a fechar nenhuma fábrica, pelo contrário, estamos a construir uma nova.
O Expresso viajou a convite da Volvo






