A Horse Aveiro, como agora é designada, começou por ser uma fábrica de caixas de velocidades, mas agora faz motores elétricos para carros híbridos. Tudo o que ali é produzido segue para os mercados internacionais
in Expresso, por Vítor Andrade e Tiago Miranda, 17-07-2025
A de 1600 quilómetros da Bolsa de Paris, onde as ações da Renault caíam cerca de 16% na manhã da passada quarta-feira, após uma revisão em baixa da margem operacional do grupo prevista para este ano, a fábrica de Cacia da Renault, rebatizada como Horse Aveiro, arrancava para mais um dia de trabalho, totalmente focada na produção de mais umas centenas de caixas de velocidades e em mais uma remessa de motores para automóveis híbridos. Apesar dos desafios vividos pela indústria automóvel, a unidade industrial está a crescer.
A fábrica no distrito de Aveiro, que já é uma das unidades nucleares do grupo Renault na sua transição para a mobilidade elétrica, trabalha agora com três turnos. Passou de 1300 para 1500 empregados durante o ano passado e continua a recrutar, nomeadamente mão de obra especializada, para acompanhar a expansão da sua produção.
O volume de negócios ascendeu aos €500 milhões no ano passado, contra €350 milhões em 2023, e, segundo os seus responsáveis, já é a maior fábrica do sector automóvel em Portugal a seguir à Autoeuropa. José Pedro Neves, diretor-geral do grupo Renault para Portugal, diz que “estamos a assistir a uma espécie de ‘limpeza’ desta unidade’ industrial”, no sentido em que deixou de fazer caixas para carros com motores a combustão para se expandir para o fornecimento de “importantes” componentes para motores híbridos.
E garante que a equipa da Renault em Portugal está tranquila com a mudança na liderança do grupo (esta semana, Duncan Minto foi nomeado presidente executivo interino) e confiante na estratégia que o grupo automóvel francês se propõe continuar a seguir, “cada vez mais focada na transição para a mobilidade elétrica”.
É nesta direção que tem caminhado a renovada fábrica de Cacia após ter integrado a nova divisão do grupo Renault designada como Horse Powertrain. A nova nomenclatura resulta da entrada de dois acionistas de peso: a chinesa Geely e também a Saudi Aramco (que é a maior petrolífera do mundo e uma das empresas globais mais lucrativas de sempre).
A Renault tem um centro de reparação de baterias em Loures, mas está quase “às moscas”, pois não avariam
A fábrica, que antes era conhecida por Renault Cacia e por fazer caixas de seis velocidades manuais para todo o grupo, há pouco mais de meio ano começou a produzir motores elétricos para os carros híbridos de todos os modelos da Renault e exporta 100% da sua produção para 114 países. Além do motor propriamente dito, também produz caixas de velocidade para os novos motores híbridos para todo o universo Renault. Mas não é tudo, pois a fábrica também vende esta tecnologia para equipar motores da Nissan (de que a Renault é acionista) e da Mitsubishi. Aliás, 43% do volume de negócios da Horse Aveiro é feito fora da Europa.
“Trabalhar com universidades”
O diretor-geral da Renault para Portugal garante que o trabalho daquela unidade tem estado a ser reconhecido pelos seus pares, mas que luta todos os dias com concorrência interna do próprio grupo para poder continuar a vender “made in Portugal”. Nota ainda que “temos estado a fazer um fantástico trabalho com algumas universidades” e que a busca por novo talento não pára.
“A reconversão da fábrica para a ‘hibridização’, que na prática é a eletrificação, está a ser um trabalho extraordinário, de que muito nos orgulhamos”, assinala o gestor.
José Pedro Neves recorda que o que serviu de base à expansão física da Horse Power em Aveiro (cujo capital está repartido em 45% para a Renault, 45% para a Geely e 10% para a Aramco) foi a utilização dos terrenos onde o antigo primeiro-ministro José Sócrates chegou a anunciar a construção de uma fábrica de baterias para a Nissan. Ora, como essa infraestrutura nunca chegou a sair do papel, a unidade da Renault acabou por crescer naquela direção.
Além desta unidade de Cacia — e recorde-se que, no passado, a Renault teve fábricas na Guarda e em Setúbal —, a marca francesa acaba de dar mais um passo em frente e criou uma outra unidade de negócio em Loures.
A pensar sobretudo na mobilidade elétrica, a marca francesa criou ali um centro de reparação de baterias. Ou seja, sempre que os seus clientes de modelos elétricos tiverem uma avaria, “as baterias já não têm de ir a França, nem a Espanha, são reparadas cá”, enfatiza José Pedro Neves.
Já há clientes em espera para conseguirem o seu Renault 5 elétrico, uma das grandes apostas da marca
E ironiza logo a seguir que a unidade de Loures, “infelizmente, está um bocado às moscas, porque as baterias dão pouco trabalho, quase não têm avarias”. “Aliás, posso dizer que este centro está a reparar baterias que vêm de outros países”, acrescenta. É, no fundo, “uma forma de o otimizarmos”, considera.
23 anos de liderança
No que respeita à performance comercial do grupo em Portugal, o gestor recorda que, em 36 anos no mercado, 23 anos consecutivos foram de liderança absoluta, tendo sido interrompidos em 2021, quando a Renault foi ultrapassada pela sua concorrente Stellantis.
No primeiro semestre deste ano a marca automóvel ficou em segundo lugar nas vendas de carros em Portugal, com 11.408 unidades, menos 0,3% do que no período homólogo, ao passo que a líder Peugeot cresceu 12,5%, para 16.303 unidades matriculadas, de acordo com os dados da ACAP — Associação Automóvel de Portugal.
José Pedro Neves passou em 2021 para a marca Dacia (do grupo Renault), com a missão de desenvolver o modelo de negócio para Portugal. “Foi um sucesso”, reconhece, e nota que o Dacia Sandero foi o modelo mais vendido no nosso país durante o ano de 2024.
“Acho que criámos aqui uma fórmula de sucesso. E posso dizer que hoje há muitos grupos a tentar copiar a Dacia, assim como o nosso modelo de negócio: bons carros e a preços acessíveis. E não é fácil conseguir a conjugação desses fatores”, observa.
O gestor orgulha-se ainda de ter conseguido “conquistar muitos jovens pela racionalidade, porque as novas gerações têm valores um bocadinho diferentes e já não estão agarrados ao statu que antes o carro proporcionava. São mais pragmáticos — querem um bom carro para andar e que seja acessível. Ponto”.
Por falar em público mais jovem, uma das últimas apostas do grupo, a pensar sobretudo nesse segmento, foi ir buscar o velhinho Renault 5, dar-lhe uma nova roupagem, mas agora com o coração ligado à corrente elétrica. E é assim que a marca recupera um dos seus maiores ícones (com décadas), muito virado para uma utilização dinâmica, urbana, de curtas deslocações diárias e com um preço, apesar de tudo, já mais acessível do que alguns concorrentes: a partir dos €25 mil. “A aceitação foi tal que agora temos alguns clientes em fila de espera”, nota José Pedro Neves.
E confirma que se trata de uma aposta de peso na transição da marca para a mobilidade elétrica e que “estão para vir mais ícones”, mas agora todos ligados à corrente.
Renault revê em baixa margem para este ano
Esta semana a Renault mudou de CEO e travou a fundo em bolsa, com as ações a caírem 16% na manhã de quarta-feira, em Paris. Na terça-feira a empresa divulgou os dados preliminares do primeiro semestre e reviu em baixa a previsão de margem operacional para este ano: se antes apontava para uma margem de pelo menos 7%, agora projeta 6,5%. Na gestão, a solução é transitória: Duncan Minto ficará na condição de CEO interino até à escolha de um líder definitivo, após a saída inesperada de Luca de Meo há um mês. Tudo isto num cenário de grande turbulência no sector, induzida pela transição ‘forçada’ por Bruxelas para a mobilidade elétrica.







