Chegou à liderança da TMG Automotive em 2008. É CEO de um grupo nacional que está a projetar um futuro internacional, ao mesmo tempo que dá resposta às novas necessidades de uma indústria que quer ser “verde”. E a IA é uma aliada nessa rota.
Da Fábrica de Fiação Tecidos do Vale de Manuel Gonçalves, criada por Manuel Gonçalves em 1937, que quatro décadas mais tarde se transformou na Têxtil Manuel Gonçalves, restam o nome, que entretanto evoluiu para TMG Automotive, e também o compromisso com a entrega de produtos de qualidade, teoricamente tradicionais, mas embebido de muita inovação que tem permitido à empresa liderada por Isabel Furtado abrir portas de cada vez mais fabricantes de automóveis. Tanto na Europa como na China, sendo que a verdadeira oportunidade está do outro lado do Atlântico.
Dos quase 90 anos de existência, Isabel Furtado acompanhou de perto praticamente quatro décadas – ainda trabalhou 14 com o seu avô, o fundador -, assumindo o volante da têxtil que trabalha com materiais compósitos, na sua maioria derivados de polímeros, para criar componentes flexíveis e macios que estão presentes em muitos dos automóveis que são utilizados no dia. A TMG Automotive está nos tabliês, nos painéis das portas, nas consolas centrais ou nos apoios de braços de marcas como Mercedes, BMW, Toyota ou Porsche.
Licenciada em Economia pela Universidade de Manchester, a CEO preparou-se, antes de o ser, para aquele que seria o futuro da empresa familiar portuguesa. A especialização em Tecnologia Têxtil deu-lhe as chaves para afinar o motor do negócio, mas também para lhe dar mais potência para acelerar um negócio que vive cada vez mais da inovação. Como em muitas áreas de atividade, a diferenciação é determinante para o sucesso. Essa capacidade de estar à frente está comprovada, cabendo agora a Isabel Furtado expandi-la para colocar a TMG num patamar global.
Agarrar a oportunidade
A TMG Automotive tem já uma longa história ao lado da indústria automóvel. Produziu pela primeira vez para a marca sueca Saab, em 1971, conquistando depois a Volvo, atualmente controlada pela Geely, seguindo-se muitas outras que, atualmente, ascendem a um total de 23 fabricantes de automóveis. A Europa é o principal mercado, representando mais de 60% da produção, mas há muito que a exportação não é suficiente para esta CEO que está a apostar na internacionalização. Primeiro foi para Oriente, mas agora ataca a verdadeira oportunidade, a Ocidente.
Foi em 2015 que a TMG chegou à China para fornecer a Daimler e BMW, inicialmente através de uma parceria comercial, que evoluiu, em 2020, para uma “joint venture” industrial em Ningbo, denominada HaMinJi (Ha de Haartz, Min de Min e Ji de TMG). “No caso da China, acompanhámos os nossos clientes, fabricantes de automóveis europeus”, explicou a própria no Economia Sem Fronteiras, do canal Now, mas o foco está na aposta recente feita nos EUA.
“Esta nova fase da nossa história é guiada pelos mesmos valores de inovação e excelência que têm acompanhado gerações da família Gonçalves”, afirmou a CEO na altura do anúncio de um investimento conjunto de 51 milhões de dólares para a instalação de uma fábrica da TMG Haartz Solutions LLC em Bostic, na Carolina do Norte. É uma nova fase num “mercado muito apetecível, que tem grandes oportunidades de crescimento”, admite a responsável.
“Trabalhamos em duas tecnologias na TMG Automotive e só há duas empresas na Europa a fazê-lo, nós e um concorrente alemão. Os nossos parceiros americanos só trabalham numa das tecnologias. Vamos introduzir nos Estados Unidos uma das nossas outras tecnologias e ficamos, juntamente com a Haartz, um “player” internacional, com capacidade para fornecer globalmente qualquer marca de automóvel”, revelou no mesmo programa, explicando assim o entusiasmo com esta aposta.
E a IA?
“A TMG sempre apostou em tecnologia, pois esta traz qualidade e competitividade”. Esse é o mote da empresa. É também o de Isabel Furtado que não só tem construído em cima do legado que lhe foi passado à boleia desse foco em colocar no mercado toda a inovação que a TMG tem apresentado, como faz uso da evolução tecnológica para ser muito mais eficiente. A tecnologia “permite tomar melhores decisões num menor espaço de tempo e com maior rentabilidade”, diz a CEO de um grupo que apresenta, anualmente, um volume de negócios bem acima da fasquia dos 100 milhões de euros.
Enquanto boa parte do tecido empresarial português está ainda a olhar para a inteligência artificial (IA) para tentar perceber as suas mais-valias quando aplicada aos seus negócios, Isabel Furtado já colhe os frutos de ter máquinas a fazer o que para um humano seria quase impossível. Na conferência Millennium Portugal Exportador, a gestora deu o exemplo da aplicação da IA na manutenção preditiva das máquinas ou da descoberta da raiz de um problema num artigo, mas sublinhou também os benefícios na otimização do uso de matérias-primas, na redução dos desperdícios industriais ou na melhoria da eficiência energética.
“Ter uma pessoa a inspecionar um determinado artigo durante oito horas é algo que não acrescenta valor e é quase desumano”, salientou, “Ao substituirmos [essa tarefa] por sensores que vão detetar 80% dos defeitos, passa a ser o operador que dirige a máquina, e não o contrário. Mas a ação humana tem de lá estar. Com certeza que a IA e a robótica estão a substituir empregos, mas são aqueles que têm menor valor acrescentado, que nós dizemos que são um tédio e até, de certa forma, estavam a desumanizar os colaboradores”, disse a CEO de uma empresa que emprega diretamente 741 trabalhadores, 24% dos quais com ensino superior em áreas como a engenharia, ciência de materiais, inovação, e gestão industrial.
Futuro mais “verde”
“Se há uma indústria que tem revolucionado, é a indústria automóvel, que hoje em dia tem mais patentes que a indústria farmacêutica”, diz Isabel Furtado, sustentando a aposta que tem feito na tecnologia. Mas a indústria automóvel sabe que do seu futuro também depende a adaptação a um mundo que se quer mais “verde”. Os “pilares de gestão são a inovação e a sustentabilidade”, razão pela qual a CEO está já a pensar na necessidade de entregar ao mercado os biopolímeros, os materiais reciclados e a verdadeira economia circular.
A atenção à sustentabilidade levou-a a integrar o consórcio internacional Mission 0 House, uma iniciativa lançada pela Polestar [marca de luxo da Volvo] e pela Lindholmen Science Park que reúne empresas, universidades e centros de investigação com o objetivo de acelerar a transição para uma indústria automóvel com neutralidade climática.
Ligeira subida no “ranking”
Evolução no “ranking” de Os Mais Poderosos
Estreou-se no “ranking” em 2025, na 48.ª posição, tendo subido um lugar entre os Mais Poderosos. Isabel Furtado está no 47.º lugar da lista do Negócios.

Bilhete de Identidade
- Cargo: CEO da TMG Automotive desde outubro de 2008.
- Naturalidade: Nasceu em 1961, em Famalicão, onde reside.
- Formação: Estudou no Canadá e no Reino Unido. É licenciada em Economia pela University of Manchester.
- Família: Filha de um dos três descendentes de Manuel Gonçalves, é casada e tem três filhos.

in Jornal de Negócios, por Paulo Moutinho, Diana Ramos, 28-07-2026






