A indústria automóvel europeia está em dificuldades, mas já discute um plano de ação com a Comissão Europeia que pode mudar as regras do jogo.
in Razão Automóvel, por Fernando Gomes e Mariana Teles, 21-02-2025
É uma tempestade perfeita para a indústria automóvel europeia: metas de emissões que para serem alcançadas estão dependentes de elétricos que não estão a vender em número suficiente; concorrência agressiva vinda, sobretudo, da China; alterações geopolíticas e uma «guerra» comercial à escala global.
Para fazer frente a estas dificuldades, a indústria automóvel e a Comissão Europeia (CE) sentaram-se à mesma mesa — desde o final do mês passado — para encontrar soluções e delinear um Plano de Ação.
Estão envolvidas múltiplas entidades neste diálogo: representantes do setor automóvel (construtores e fornecedores), outras associações (consumidores, ambientais), o Conselho da União Europeia e o Parlamento Europeu.
Os objetivos deste diálogo estratégico são claros: elevar a competitividade, acelerar a inovação, garantir a transição para uma mobilidade limpa e aumentar a resiliência da cadeia de distribuição.
O que podemos esperar?
Este Plano de Ação já tem data de apresentação marcada: 5 de março. As expetativas são grandes e poderão determinar em muito o futuro da indústria automóvel europeia e o seu papel no mercado global.
Há cinco grandes temas que estão a ser debatidos entre os envolvidos: Inovação e liderança em tecnologias futuras; Descarbonização; Competitividade e resiliência; Relações internacionais; e Racionalização regulatória e otimização dos processos.
No que toca a inovação e liderança em tecnologias futuras, o problema atual é claro: as empresas europeias estão a perder terreno em tecnologias essenciais, como software, baterias de nova geração e condução autónoma. Podemos esperar novos incentivos à inovação, apoio a startups e regras mais eficientes para a colaboração em I&D (pesquisa e desenvolvimento).
O tema da descarbornização é aquele que tem concentrado mais atenções no imediato: há metas ambientais para cumprir cada vez mais exigentes e para isso. O Plano de Ação poderá incluir algum tipo de revisão da regulamentação assim como medidas para acelerar a expansão da infraestrutura de carregamento e estimular a compra de mais veículos elétricos.
A indústria automóvel tem enfrentado custos elevados em matérias-primas, energia e mão de obra. É imperativo que todo o setor consiga elevar a competitividade e resiliência em relação à concorrência (especialmente chinesa), através da redução de custos e de haver garantias que consegue o fornecimento de componentes essenciais, como baterias.
E por falar em concorrência, esta vem de países com políticas agressivas de apoio à indústria automóvel que deturpam as regras do jogo. O tema das relações internacionais ganha assim importância renovada, prevendo-se que o Plano de Ação inclua também medidas para garantir a transparência e concorrência justa no comércio global.
Por fim, mas não menos importante, a racionalização regulatória e otimização dos processos vem dar resposta a uma das maiores críticas queo setor tem feito continuamente às entidades reguladoras: o excesso de carga burocrática e sobreposição de regras. A palavra de ordem é desburocratizar e simplificar.
Alteração das metas de emissões?
Uma das questões mais críticas em discussão tem a ver com as metas de emissões de CO2, que os construtores automóveis têm de reduzir em 15% — média 93,6 g/km para a indústria —, até ao final do ano. E sem esquecer o objetivo final de as reduzir em 100% até 2035.
São vários os fabricantes em risco de incumprimento, o que pode levar ao pagamento de multas multimilionárias, de vários milhares de milhões de euros — são 95 euros por carro e por grama acima do estipulado. São vários os construtores que pedem que as regras sejam revistas.
Um dos resultados que poderemos obter deste “Diálogo Estratégico” entre a CE e a indústria poderá estar na revisão ou das regras ou do calendário, de modo a equilibrar os objetivos ambientais com a viabilidade das próprias empresas — são mais de 13 milhões de postos de trabalho que estão em causa na Europa.






