Aceleração do investimento na indústria da defesa já está a acontecer na Alemanha. Fábrica de comboios de Görlit vai passar a produzir componentes dos tanques de guerra Leopard II
in Expresso, por Anabela Campos, 26-04-2025
Com os EUA a ameaçar retirar-se da NATO se os restantes Estados-membros não reforçarem o investimento, a União Europeia avançou em força para uma estratégia de rearmar a Europa e reinvestir na indústria da defesa.
Na Alemanha o processo já está em marcha. Os alvos são para já o setor automóvel e da ferrovia. Mas há mais indústrias em mutação, com impacto também no mercado de trabalho. A procura por trabalhadores qualificados já está a aumentar, esperando-se que haja uma reconversão de competências.
Há já uma fábrica de comboios em transformação, a da Alstom, em Görlitz, empresa que a fabricante francesa decidiu encerrar, deslocalizando a produção para um país com custos mais baixos, e que agora irá ser readaptada para a produção de material de defesa. Não é a única. A Rheinmetall, líder europeia na produção de munições e veículos militares, está também a equacionar adaptar uma fábrica da Volkswagen que irá fechar – a de Osnabruck – , para produzir equipamento militar, como já admitiu o presidente executivo da empresa, Armin Papperger. O setor está num grande dinamismo e isso é visível um pouco por toda a Europa.
É já a partir de 2026 que a empresa de defesa alemã KNDS vai passar a construir componentes dos tanques de guerra Leopard II e dos veículos de combate de infantaria Puma na fábrica de comboios de Görlitz, uma empresa do leste da Alemanha, que tem 176 anos, e construía carruagens de comboios e elétricos.
Foi no final de 2024 que se soube que a KNDS, fabricantes de tanques, tinha comprado a fábrica da Alstom, onde o Financial Times (FT) fez uma reportagem contando a história da família Liebig, há três gerações a trabalhar nesta empresa. A KNDS comprometeu-se a manter cerca de 350 dos 700 trabalhadores da fábrica.
“O que é muito triste para mim é que ainda precisamos da produção de armas”, lamentou Carsten Liebig, que se reformou em 2021, após uma vida inteira a fabricar comboios e eléctricos que transportam passageiros em países como a Alemanha e Israel.
Esta é a segunda vaga de desindustrialização a que muitos alemães assistiram desde a reunificação do país em 1990, uma vez que a fábrica da Alstom não é a única empresa da indústria transformadora a encerrar no leste da Alemanha. Há outras do setor químico, por exemplo, e a tendência já levou à perda de cerca de 250 mil empregos na Alemanha desde a pandemia.
Octavian Ursu, presidente da Câmara de Görlitz, citado pelo FT, admite que outras cidades poderão em breve passar pelo mesmo tipo de transição industrial. “Como os grandes investimentos estão a ser canalizados para o rearmamento, é provável que este tipo de mudanças nas instalações industriais continue a acontecer”, afirmou Ursu.
A Alemanha, que tirou o travão ao aumento do défice, já depois da União Europeia ter anunciado no início de março que irá haver flexibilidade para libertar 800 mil milhões de euros para investir em Defesa, tem estado a subir os gastos no setor. As despesas alemãs com a defesa aumentaram quase 80% desde 2020, atingindo mais de 90 mil milhões de euros em 2024, segundo estimativas da NATO. E o plano é que continuem a aumentar, uma mudança drástica na Alemanha que ficou limitado nos investimentos militares depois da Segunda Guerra Mundial.
Corrida à mão-de-obra
Nos últimos três anos, avança o FT, a Rheinmetall – cujas ações em bolsa dispararam tornando-a uma empresa mais valiosa que a Volkswagen – , a Diehl Defence, a Thyssenkrupp Marine Systems e a MBDA, quatro grandes da Defesa alemã, contrataram mais de 16.500 trabalhadores, o que representa um aumento de mais de 40%. E até 2026, planeiam contratar mais 12.000 trabalhadores.
A procura por trabalhadores qualificados vai aumentar e não é só na Alemanha. Esse é aliás um dos grandes desafios do novo desígnío europeu ReArm Europe. “Encontrar e formar as pessoas certas” será um desafio fundamental para os fabricantes do sector da defesa, alertou Benjamin Heelan, analista do Bank of America, citado pelo FT. Dado o forte desinvestimento na indústria da defesa e na indústria transformadora, Portugal é um dos países onde a escassez de mão-de-obra é evidente.
A consultoras EY e do Dekabank afirmam, noticia a Deutsche Welle, que “nos próximos anos os países europeus membros da NATO irão investir 72 mil milhões de euros por ano em armamento, o que poderá criar 680 mil vagas de trabalho na Europa”. Resultados semelhantes aos alcançados pela consultora Kearney, que salienta que a procura irá depender de até que ponto os Estados pretendem armar-se e quanto esperam gastar em percentagem do PIB.
Há empresas a posicionar-se. A Rheinmetall, juntamente com o fabricante de radares e sensores Hensoldt, já se comprometeu a contratar cerca de trezentos trabalhadores despedidos da Continental e da Bosch – dois dos maiores fornecedores de automóveis da Alemanha.
Conta ainda o FT que o entusiasmo dos alemães em aderir ao esforço de rearmamento da Alemanha, incluindo o apoio militar à Ucrânia, está longe de ser grande e claro. E é grande a preocupação com a ascensão de partidos de extrema direita ao poder.





