Industrial Accelerator Act: uma oportunidade decisiva para reforçar a indústria europeia

A realidade industrial exige liderança e visão: sem medidas fortes hoje, a Europa arrisca perder irreversivelmente capacidade produtiva, inovação e autonomia estratégica nos setores que vão moldar a próxima década

A Europa está num momento de viragem. A apresentação do Industrial Accelerator Act (IAA) pela Comissão Europeia marca um ponto de inflexão há muito necessário: o reconhecimento explícito de que a competitividade industrial é um pilar estratégico para a autonomia económica do velho continente, mas somos cientes que ainda há um caminho por percorrer.

O objetivo de elevar a indústria transformadora de 14,3% para um mínimo de 20% do PIB até 2035 não é apenas ambicioso, é indispensável para garantir emprego qualificado, inovação e resiliência num contexto global cada vez mais competitivo.

Ao longo das últimas décadas, a Europa manteve uma posição de abertura comercial exemplar. Porém, a realidade industrial mudou profundamente. A ausência de instrumentos eficazes para proteger e estimular a produção local tem contribuído para uma erosão gradual da base produtiva europeia.

Estudos recentes indicam que, sem ação política concreta, a Europa poderá perder 23% da sua criação de valor na indústria de fornecedores automóveis, colocando em risco até 350 mil postos de trabalho nos próximos cinco anos. Na área da automação, o impacto poderá ser ainda maior.

Com o Industrial Accelerator Act (IAA) a Europa deu um passo importante, mas é necessário fazer mais. Para competir com a China, temos de reconhecer que a batalha também se ganha ou se perde ao nível dos fornecedores. Precisamos de um quadro político que não apenas incentive as vendas de veículos elétricos, mas que obrigue a que o ‘cérebro’ de alto valor do automóvel seja desenvolvido e fabricado aqui.

Sem isso, corremos o risco de perder criação de valor e empregos na Europa. Além disso, importa lembrar que podermos usar os combustíveis sintéticos (e-fuels) para descarbonizar também a frota de automóveis existente.

Conteúdo local: uma medida necessária para restabelecer o equilíbrio global

O IAA introduz, pela primeira vez, requisitos de conteúdo local para setores estratégicos, entre os quais a indústria automóvel, as tecnologias net-zero, as indústrias intensivas em energia e as cadeias críticas de valor. Esta opção pode ser vista como uma mudança de paradigma, mas é, acima de tudo, um movimento de equilíbrio. Vários concorrentes globais já aplicam políticas robustas de proteção da produção local, permanecer inerte seria deixar a indústria europeia em desvantagem permanente.

No setor automóvel, a definição de um veículo “Made in EU” assenta em critérios robustos: montagem na União Europeia, 70% de componentes de origem europeia (excluindo baterias), e incorporação de componentes-chave de baterias produzidos na Europa.

Estes critérios, que ganham ainda mais rigor a partir de 2030, reconhecem algo crucial: 75% do valor de um veículo é gerado pelos fornecedores. É por isso tão importante que o enquadramento regulatório proteja não apenas os fabricantes finais, mas toda a cadeia industrial e continue a incentivar a inovação “Invented in Europe”.

A proposta da Comissão acerta ao identificar componentes especialmente vulneráveis à deslocalização, como a eletrónica, o e-powertrain e vários elementos do ecossistema das baterias. E não devem ser esquecidos os sistemas de auxílio à condução (ADAS) pela importância que têm em tornar as nossas estradas mais seguras e sustentáveis.

Estes segmentos são essenciais para os veículos do futuro. As metas específicas de conteúdo europeu para estas áreas devem representar não apenas proteção, mas um incentivo direto ao investimento tecnológico no continente.

O momento de agir é agora

O debate legislativo que agora se inicia no Parlamento Europeu será intenso e complexo. A realidade industrial exige liderança e visão: sem medidas fortes hoje, a Europa arrisca perder irreversivelmente capacidade produtiva, inovação e autonomia estratégica nos setores que vão moldar a próxima década e a perder terreno na indústria automóvel global.

O futuro industrial não começa amanhã, já começou ontem. Enquanto concorrentes como a China investem massivamente em veículos elétricos, baterias e softwares automotivos, as políticas fragmentadas e excesso de burocracia ameaçam a competitividade europeia. É neste cenário que o IAA surge como a última oportunidade de recuperar o fôlego industrial e garantir liderança tecnológica.

O problema é claro: sem mecanismos estratégicos, a Europa vai continuar numa posição reativa em relação às tendências globais, enquanto outros países definem o ritmo. A China, por exemplo, não só produz em grande escala, como domina setores críticos e atrai investimentos que poderiam estar aqui. Se não existir uma ação decisiva e efetiva, empregos, know-how e competitividade económica acabam transferidos para outras geografias fora do continente europeu.

A mensagem é inequívoca: a Europa tem os recursos, o talento e a tradição industrial para liderar, mas tem de agir rápido. O futuro da indústria automóvel não espera e a Europa também não se pode dar ao luxo de esperar. O Industrial Accelerator Act é, por isso, uma oportunidade histórica que não devemos desperdiçar.

Made in Europe, Invented in Europe … with European Talents.

 

in Expresso, artigo de opinião de Javier Gonzalez Pareja | Presidente da Bosch para Espanha e Portugal, 08-06-2026

 

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