José Couto, Presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel
in Revista Indústria Portuguesa, Edição n.º5, janeiro – março 2026
A Indústria Portuguesa de Componentes Automóveis tem revelado um desempenho acima da produção automóvel na Europa. Entre 2019-2025 cresceu a uma taxa de +3,8% ao ano, o que compara com um decréscimo médio anual de -4,2% da produção automóvel na Europa.
Esta performance resulta da competitividade e fiabilidade continuadamente demonstrada pela indústria junto dos clientes internacionais. Refira-se que 98% dos automóveis produzidos na Europa têm pelo menos um componente fabricado em Portugal, seja o tipo de motorização que tenham.
A indústria portuguesa de componentes para automóveis propõe soluções aos clientes para dar forma à mobilidade do futuro, inteligente e com baixas emissões de carbono. Estamos a conseguir responder aos desafios dos nossos clientes, aos desafios do regulador, ao novo quadro concecional da mobilidade, a todo este novo desiderato. Porém não nos podemos equivocar: nem tudo depende das empresas! Se bem que as empresas têm investido há que esperar que exista um reforço do país para podermos ser mais competitivos e provarmos aos clientes que existe um esforço de modernizar infraestruturas, também de aumentar a qualificação como forma de aumentar de forma consistente a produtividade.
O setor automóvel está a passar por grandes transformações. As novas tecnologias estão a transformar a indústria automóvel e a sua cadeia global de valor. Novas tecnologias tanto modernizam os processos produtivos como permitem o desenvolvimento de novos produtos, como, por exemplo, veículos elétricos ou autónomos. Outras grandes mudanças (como mudanças nas preferências dos consumidores e restrições mais rígidas ao impacto ambiental) estão a contribuir para esta transformação.
O papel da AFIA é, e será, acompanhar os fabricantes de componentes para automóveis, representá-los, defendê-los e ajudá-los a antecipar e gerir os desafios do dia-a-dia e preparar as empresas para o futuro. Nomeadamente na necessária transição dos modelos de negócio tradicionais para um novo modelo que atenda a preocupações ambientais, sociais e de boa governação, como é exemplo o ESG, Environment, Social & Governance, na sigla inglesa.
A indústria automóvel caracteriza-se por fortes efeitos estruturantes e multiplicadores em termos de desenvolvimento dos sectores a montante, elevados graus de cooperação entre as empresas e um importante relacionamento com universidades e centros de engenharia e I&D, alicerçado pelo apoio das suas Associações Sectoriais, esta convicção é corroborada pela Comissão Europeia ao propor, no documento Industrial Accelerator Act (IAA), a indústria de Componentes como veículo de indução ao processo de reindustrialização para a recuperação produtiva em termos competitivos dos países da UE.
Acrescendo ao favorável comportamento do mercado nacional e internacional há as oportunidades derivadas das tendências de evolução tecnológica do automóvel como a limitação de emissões, a condução autónoma e o aumento da conectividade. Estas tendências criam janelas de oportunidade para a indústria automóvel em Portugal. É neste quadro que a AFIA está em contacto permanente com todas as entidades que têm poder para influenciar o sector, sensibilizando-as para estas realidades e incentivando-as no sentido das intervenções possíveis e desejáveis.
Para um país que, tendo em conta a sua dimensão, tem feito um percurso de valorização da indústria, consideramos que era fundamental que, as entidades públicas em coordenação com as privadas, desenhassem um plano de contacto com todos os construtores de automóveis e com os grandes fornecedores/integradores internacionais de componentes (os “Tier 1”) para captar os seus projetos e investimentos. O que se pode antecipar é que vamos ter no curto e médio prazo um ambiente altamente competitivo, onde o Made in Europe dá-nos uma visão para objetivos de incorporação de componentes, dá orientação para a origem europeia do “produto”. Subjacentemente devíamos promover a imagem do país no exterior com vista à captação de mais investimento estrangeiro, com particular enfoque na necessidade de atrair um novo construtor automóvel para estabelecimento de uma nova linha de montagem. Aquela teria um elevado impacto de alavancagem para toda a indústria de componentes automóveis.






