Há uma nova ordem no comércio entre EUA e União Europeia. Ainda há setores a sonhar com taxa zero, mas o impacto já chegou

Entra a relevância da estabilidade e a convicção de que 15% é muito, as empresas portuguesas lutam com a incerteza em relação às tarifas dos EUA. Muitos setores anseiam pela isenção. Até lá, pagam.

in Observador, por Alexandre Machado, 07-08-2025


“É meia noite!!! Milhões de dólares em tarifas estão agora a chegar aos Estados Unidos da América”. A mensagem, toda escrita em letra maiúscula, é de Donald Trump. O Presidente dos Estados Unidos esperou que o ponteiro do relógio estivesse quase a chegar às zero horas de dia 7 de agosto para escrever esta mensagem na sua rede social, Truth Social.

A essa hora em Washington (quase cinco da manhã em Lisboa) entrava em vigor a ordem executiva assinada por Donald Trump que impunha aos produtos provenientes da União Europeia taxas de direitos aduaneiros de até 15% na maior parte dos produtos, continuando mais agravadas no aço e alumínio.

O valor decorre do acordo que foi firmado entre Donald Trump e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no final de julho, o qual estabeleceu a possibilidade de haver, posteriormente, algumas exceções nestas tarifas, nomeadamente nos produtos farmacêuticos e nos vinhos e bebidas alcoólicas. Os setores contactados pelo Observador ainda têm pouca visibilidade sobre o que vai acontecer. Uma coisa é certa. Não duvidam que esse aumento do custo final do produto, proveniente dos direitos aduaneiros, lhes vai chegar, apesar do pagamento ser da responsabilidade de quem compra o produto nos Estados Unidos.

“O acordo comercial entre a União Europeia e os EUA ainda é recente, sem que se conheça todos os detalhes. Face a esta indefinição, as empresas — sobretudo em setores que ainda não sabem que tarifas se vão aplicar — estarão a aguardar um cenário de maior previsibilidade para adotarem estratégias de mitigação adequadas”, indica, em comentários escritos ao Observador, Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP (Associação Empresarial de Portugal).

A descida de preços de quem compra já foi pedida aos fornecedores que ou esmagam margem ou podem perder negócio. Só que, dizem ao Observador, há setores que não têm margens para absorver essa tarifa, mesmo que se tenha fixado em 15%, depois de ter havido ameaças de 30% e 20%.

Há setores que esperam a tão ambicionada exceção. Mas as negociações ainda estarão a decorrer. Também há a promessa de haver mais pormenores sobre o acordo numa comunicação conjunta dos Estados Unidos e da União Europeia. Fonte oficial da Comissão Europeia diz ao Observador que não há um prazo para a publicação dessa declaração conjunta e para a divulgação da lista final de exceções. “O trabalho continua”. A União Europeia, e alguns dos Estados-membros, têm posto a tónica no facto de o acordo dar previsibilidade e estabilidade, mas a incerteza continua a ocupar o dia a dia dos gestores europeus.

“De certo que houve, nestes últimos tempos, a tentativa de exportar rapidamente para que chegasse aos Estados Unidos antes do dia 7 de Agosto, mas também essas taxas foram aplicadas há tão pouco tempo que não sabemos como é que vai ser”, admite, por outro lado, Mário Jorge, bastonário da Ordem dos Despachantes Oficiais.

Vinho à espera da exceção. Mas encomendas foram antecipadas

“15% não é um bom acordo. A taxa é relativamente alta” e “já causou algum dano”. Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, não tem dúvidas de que o setor vinícola vai sair prejudicado. Explica que a venda de vinhos nos Estados Unidos passa por três níveis: importador, distribuir e retalhista. Todos, diz, querem a sua margem. O que significa que o produto vai acabar no consumidor com aumento de preços que podem ser o dobro dos 15%. Com um impacto grande especialmente nas gamas mais baixas, vendidas a um preço menor, e que respondem às necessidades de um público mais sensível ao preço. Muitos produtores não têm margens para absorver o acréscimo de custo. Mas sem preço não conseguem concorrer. E a concorrência forte nesse mercado norte-americano vem de países como o Chile, Argentina e Austrália que foram “agraciados” com tarifas inferiores, de 10%.

“Há um risco grande”, assume, mostrando já a queda, em valor, de 9,3% nas vendas de vinho para os Estados Unidos até junho, também impactadas por fatores cambiais. Mas a queda foi também sentida no volume. São seis meses de instabilidade.

Ainda que a União Europeia se bata por baixar os direitos aduaneiros sobre o vinho europeu que entra nos Estados Unidos — ou mesmo isentá-los –, as negociações continuam pelo que, desde esta quinta-feira, 7 de agosto, ao preço vendido pela empresa europeia será acrescida a taxa de 15%.

Apesar disso, Alexandre Relvas Junior, presidente da Casa Relvas, diz que está mais preocupado com os impostos que estão a ser aplicados às bebidas alcoólicas no Reino Unido, Irlanda, Finlândia. O gestor da Casa Relvas — para a qual os Estados Unidos pesam cerca de 7% — admite que possa haver pressão sobre as margens, especialmente nos vinhos de gama mais baixa, mas critica acima de tudo a atenção dada e o nevoeiro em torno do assunto que suscita retração no consumo e, com isso, menos importações.

Losménio Goulart, presidente da cooperativa Picowines, garante que houve um boom de vendas para os Estados Unidos nos primeiros três meses do ano e até ao momento já vendeu tanto para esse mercado como em todo o ano de 2024. Houve, diz ao Observador, uma antecipação de comprar em particular no primeiro trimestre. A Picowines ainda tem um volume baixo nas vendas para os Estados Unidos, mas há três anos era inexistente e a “expectativa era aumentarmos” o negócio com o país que está mesmo ao lado dos Açores. Por isso, a cooperativa participou em vários eventos do seu distribuidor norte-americano. “O que vamos ter de fazer é, perante a incerteza, direcionar mercados e públicos-alvo”, diz, mas assume que a produção também não é elevada e tem tido uma sequência de maus anos desde 2019 por diversos fatores, desde o impacto de situações climatéricas até doença das vinhas, e fala agora — o que vai ter impacto na vindima deste ano — de um excesso de população de aves (rolas turcas, melro preto, pombo torcaz e estorninho) que comem a uva.

“O Governo acompanhará de perto os desenvolvimentos do acordo dos EUA com a União Europeia, antecipando os problemas e ajustando soluções, sempre em diálogo com os empresários e as suas associações representativas.”

Comunicado do Ministério da Economia

Ordem para os automóveis ainda não foi assinada

Os automóveis e seus componentes têm a pender sobre o setor uma tarifa acima de 25%, com a promessa de descer para os 15%. Mas a ordem que corta esse direito ainda não foi assinada. E até que isso aconteça mantêm-se as tarifas anteriores.

A Reuters noticiava esta quarta-feira que a União Europeia ainda teria de esperar alguns dias até que a ordem fosse assinada.

José Couto, presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), explica ao Observador que há cerca de 5% de exportações diretas de componentes para os Estados Unidos, principalmente ligados à borracha, como pneus. Mas o impacto maior não deverá advir daí, mas das exportações europeias para os Estados Unidos com incorporação nacional. Esse volume a AFIA não conhece a dimensão, mas está a promover uma avaliação. Certo é que, como diz José Couto, todos os carros construídos na Europa têm um ou mais componentes portugueses. O que deixa antecipar algum impacto.

Ainda que o setor possa vir a ter uma tarifa mais baixa do que a praticada até agora, José Couto critica o conformismo que tem apontado para os 15% como menos mau. “Quem vai pagar são as empresas europeias que terão de diminuir os preços, as margens ou aumentar a produtividade, o que não se consegue de um dia para o outro”. Para o responsável da AFIA, “não há margem para absorver os 15%”.

Governo acompanha setores expostos

O Governo reuniu novamente esta quinta-feira com cerca de 30 associações representativas dos setores automóvel, elétrico e eletrónico, cerâmica, mármores, granitos, cortiça, farmacêutica, bioindústria, metalomecânica, fileira florestal, químicos, plásticos, têxtil, vestuário, calçado e confederações. Ao Observador, a APCOR (Associação da Cortiça) recusou comentar o tema por aguardar informação mais detalhada, nomeadamente o que vai acontecer ao setor da cortiça que espera taxa zero. Ao Expresso, admitiu que a situação parece bem encaminhada. Até esta quinta-feira, quando os 15% entraram em vigor, não havia qualquer exceção para a cortiça.

No comunicado das contas semestrais, a Corticeira Amorim — que também não quis falar ao Observador — indicou já algum impacto pelas tarifas. “A atividade da Corticeira Amorim em 2025 continuou a ser condicionada por um contexto de mercado desafiante, marcado por elevada incerteza, decorrente de tensões geopolíticas e de profundas alterações ao nível do comércio internacional”, indicou, então, acrescentando estar a assistir a uma “política de compras mais cautelosa por parte dos nossos clientes”.

Outro setor exposto é o farmacêutico, que exporta mais de mil milhões de euros para os Estados Unidos. Mas Joaquim Cunha, da Health Cluster Portugal, admite que este é um segmento com especificidades, até porque, se para alguns setores poder-se-á tentar alternativas, na “saúde não é fácil”. E por isso admite-se algumas isenções que não são, neste momento, conhecidas. Nomeadamente ao nível dos medicamentos as alternativas podem, até, não existir.

Em comunicado, o Ministério da Economia garante que “todas as medidas que foram anunciadas estão a ser executadas e algumas até foram antecipadas, como o calendário de avisos para ações coletivas de internacionalização, com abertura a 31 de julho”. “Estamos a ajudar as empresas a diversificarem os mercados para os quais exportam”, diz-se no comunicado, atribuindo a citação a Manuel Castro Almeida. O Governo, indica ainda, “acompanhará de perto os desenvolvimentos do acordo dos EUA com a União Europeia, antecipando os problemas e ajustando soluções, sempre em diálogo com os empresários e as suas associações representativas”.

Mas os empresários são os primeiros a lembrar que as negociações são com a Comissão Europeia, havendo pouca margem para o Governo, que só tem margem para eventualmente avançar com apoios às empresas em caso de necessidade. E é isso que o Executivo garante estar a ser feito.

Diversificação está nos planos

“Estamos a ajudar as empresas a diversificarem os mercados para os quais exportam”. É a garantia do Governo. As chamadas de atenção não são de hoje e o trabalho por parte das empresas também não. “A diversificação de mercados, que já estava em curso, será sem dúvida uma das estratégias a adotar para contornar o impacto das novas tarifas. Porém, as empresas aguardam por um período de maior previsibilidade para atuarem noutros mercados, quer pela via da exportação quer do investimento. Neste âmbito, é importante que as políticas públicas possam garantir uma envolvente favorável ao financiamento do investimento empresarial privado, onde os fundos europeus desempenham também um papel importante”, assume o presidente da AEP, garantindo que a associação “mantém um forte compromisso em apoiar as empresas nesse processo. Através do seu projeto de apoio à internacionalização – Business on Way (BOW) –, a AEP encontra-se a promover várias ações de abordagem a uma diversidade de mercados não tradicionais e com um elevado potencial”.

Quem tem também alertado para a necessidade de diversificação é a Ordem dos Despachantes Oficiais. O seu bastonário, Mário Jorge, volta a reforçar essa ideia em declarações ao Observador, mas admite que esses movimentos demoram tempo. Uma das regiões que podiam funcionar com alternativa era a abrangida pelo Mercosul que, no entanto, também não tem conseguido as aprovações necessárias, com alguns países, como a França, a levantarem entraves. Mas de um modo geral, Mário Jorge admite haver já alguns movimentos para mercados alternativos.

“Existem muitos contactos, existe muita recetividade nos nossos produtos e até em países como a Índia, com quem se está a negociar um acordo, e com outros países, temos com a Austrália, com a Nova Zelândia, não têm a dimensão dos Estados Unidos, mas juntando as pequenas capacidades e dimensões dos países podemos, não é hoje, não é amanhã, pode demorar anos, mas podemos substituir os Estados Unidos por outros mercados. E isso irá provocar, provavelmente, que os Estados Unidos regridam nessas medidas protecionistas”, aponta Mário Jorge, que assumiu o cargo de bastonário, no primeiro mandato, em 2020, “um ano para esquecer”, devido ao impacto da Covid-19.

Esses novos mercados não podem ser para contornar as tarifas, de forma a passar os produtos por outros países antes de chegarem ao mesmo destino final – os Estados Unidos. É que na ordem presidencial Donald Trump estabeleceu que contornar essa tarifa levará a um penalização sobre o produto de 40%. Uma alínea do decreto ainda pouco falada.

Como é o processo?

Mário Jorge explica que as tarifas alfandegárias dos Estados Unidos não trazem procedimentos diferentes. É uma exportação como para qualquer outro país terceiro. “Simples, faz-se, ponto final”. Se União Europeia contra-atacar, também para esta atividade não haverá novidade.

Em termos processuais, explica o bastonário da Ordem dos Despachantes Oficiais, não há atrasos, porque as tarifas constam das bases de dados das entidades alfandegárias. E desde que se pague, o produto entra. “A aplicação das taxas é determinada, em princípio, pelo dia em que entregue a declaração de importação na Agência de Proteção de Fronteiras e Alfândega”.

Não há mercadoria a ficar retida nem atrasos, indica, ainda com a ressalva de que tudo isto é muito recente para se avaliar o verdadeiro impacto. Este será, no entanto, um tema a ser abordado na próxima Reunião Mundial de Direito Aduaneiro, que a Ordem coorganiza com a Academia Internacional de Direito Aduaneiro (ICLA), e que está marcada para os dias 3 a 5 de setembro, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto.

Do lado das empresas, segundo a AEP, também é referido que “até ao momento não temos informação que nos permita afirmar que a carga burocrática irá aumentar como resultado das novas tarifas aplicadas pelos EUA às importações provenientes da Europa. Contudo, esperemos que tal não venha a acontecer, pois a carga burocrática atualmente em vigor já é um grande entrave à atividade económica no país”.

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