A instabilidade em torno da guerra poderá ter efeitos indiretos na indústria portuguesa de moldes. O aumento do custo das matérias-primas e um possível abrandamento no lançamento de novos produtos em setores como o automóvel ou a eletrónica podem reduzir novas encomendas.
in O Jornal Económico, por Teresa Cotrim, 09-03-2026
O setor português dos moldes, fortemente orientado para a exportação, poderá sentir impactos indiretos decorrentes da instabilidade geopolítica associada ao conflito envolvendo o Irão. Embora a indústria dependa sobretudo de eletricidade — e, portanto, esteja menos exposta às oscilações imediatas do preço dos combustíveis fósseis — há efeitos colaterais que já começam a preocupar o setor.
Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol, associação que representa a indústria portuguesa de moldes para plásticos acompanha com atenção a evolução do contexto internacional, explica que a dependência energética das empresas do setor está maioritariamente ligada à eletricidade, o que atenua parcialmente os impactos diretos das flutuações no preço do gás e do petróleo.
Ainda assim, a cadeia de valor não fica imune. Uma parte significativa das empresas está concentrada na região da Marinha Grande e Oliveira de Azeméis, onde muitas unidades industriais têm investido em sistemas de autoconsumo com painéis solares para reduzir custos energéticos. No entanto, uma tempestade recente provocou danos em algumas dessas instalações fotovoltaicas, destruindo painéis e afetando temporariamente a capacidade de produção de energia própria em várias fábricas.
Mais preocupante, porém, é o efeito indireto da instabilidade no mercado das matérias-primas. O aumento do preço do petróleo tem reflexos imediatos no custo dos plásticos, um material essencial para a atividade do setor, uma vez que muitos polímeros são derivados petroquímicos. Esta pressão sobre os custos pode reduzir margens e tornar mais cauteloso o investimento por parte dos clientes finais.
O impacto pode também fazer-se sentir do lado da procura. A indústria de moldes posiciona-se no início da cadeia produtiva: fabrica as ferramentas que permitem produzir peças plásticas utilizadas numa vasta gama de setores. “Caso se verifique um abrandamento no lançamento de novos produtos — cenário possível em contextos de incerteza económica — as encomendas de novos moldes tendem igualmente a diminuir”, vaticina o secretário-geral da Cefamol.
Entre os setores potencialmente mais afetados estão o automóvel, os dispositivos médicos, as embalagens e a eletrónica, áreas que dependem fortemente da inovação de produto e do lançamento frequente de novas referências no mercado.
Com forte exposição ao exterior e clientes espalhados por vários continentes, a indústria portuguesa de moldes está particularmente sensível às oscilações da economia global. Qualquer travagem no investimento industrial ou no desenvolvimento de novos produtos nos principais mercados internacionais poderá refletir-se rapidamente nas carteiras de encomendas das empresas nacionais. Para já, o setor acompanha a evolução do cenário geopolítico, consciente de que, mesmo sem impacto energético direto significativo, os efeitos indiretos podem chegar rapidamente a uma indústria que vive, sobretudo, do dinamismo dos mercados globais.






