Num cenário em que o conflito no Irão se prolongue, as fabricantes automóveis poderão sofrer um novo golpe. O aviso é da canadiana DBRS e surge no mesmo dia em que o Grupo Volkswagen anunciou 50 mil despedimentos e a Renault apresentou uma nova estratégia.
in Jornal de negócios, por Pedro Curvelo, 10-03-2026
O setor automóvel pode sofrer um novo golpe caso o conflito no Irão se prolongue, adverte a agência de notação financeira Morningstar DBRS numa nota de “research” a que o Negócios teve acesso. A agência canadiana sublinha que os riscos de curto prazo são de aumento dos custos logísticos, disrupções na cadeia de abastecimento, maiores custos energéticos e de matérias-primas.
A guerra no Médio Oriente é um novo escolho numa indústria que tem navegado por águas revoltas nos últimos anos. A pandemia da covid-19, a escassez de “chips”, a guerra na Ucrânia e a consequente subida dos preços da energia, as tarifas impostas por Donald Trump e a crescente concorrência das construtoras automóveis chinesas têm castigado as fabricantes ocidentais e japonesas, com as margens a deteriorarem-se.
A DBRS recorda que este é um setor já debilitado e que em termos de avaliação da qualidade da dívida as perspetivas são negativas para muitos dos principais “players”: a Stellantis tem um rating de BBB (apenas um degrau acima de “lixo”) com perspetiva negativa; o Grupo Volkswagen é classificado em A (baixo) e igualmente com um “outlook” negativo; a Mercedes-Benz é avaliada com rating A e perspetiva negativa, enquanto o Grupo BMW tem uma notação de A (alto) mas igualmente com “outlook” negativo. A agência canadiana nota ainda que não são apenas as construtoras do Velho Continente nesta situação, com as japonesas Honda e Nissan a terem também uma perspetiva pessimista.
A DBRS tem a maioria dos fabricantes automóveis com uma perspetiva negativa.
No “research”, a DBRS lembra que em 2023 e 2024 a alteração das rotas do mar Vermelho e do Canal do Suez, com os navios a terem de contornar o continente africano pelo cabo da Boa Esperança, levou a que as viagens demorassem, em média, mais 12 dias e que em algumas rotas os custos dos fretes mais do que duplicassem. Situações deste género, assinala ainda, aumentam os riscos de paragens de produção e de faltas de inventário para as fabricantes automóveis.
Já a questão das matérias-primas mais caras, apesar de alguma proteção com contratos de longo prazo, num cenário em que o conflito se prolongue e as empresas tenham de acumular “stocks” de materiais e componentes-chave, poderá custar a qualquer um dos fabricantes automóveis que a DBRS avalia “cerca de mil milhões de euros em fundo de maneio, dependendo da escala das suas operações”. No longo prazo, o impacto poderá ser ainda mais pronunciado, tendo em conta que as matérias-primas representam cerca de metade dos custos de produção de um veículo.
Renault aponta baterias à Índia
Esta terça-feira, o Grupo Renault apresentou o seu plano estratégico até 2030, em que indica uma clara aposta em mercados emergentes, em particular a Índia, em detrimento da Europa, onde a concorrência chinesa tem vindo a fazer estragos.
A “marca do losango” prevê igualmente lançar 36 novos modelos até 2030, numa “segunda ofensiva de produto”, sendo que 14 modelos serão para mercados fora da Europa. É o caso da Índia, onde a marca pretende lançar quatro modelos pensados para aquele mercado especificamente.
O objetivo do grupo é que as geografias não europeias representem metade das vendas da Renault em 2030, antecipando um crescimento nas vendas neste período na ordem dos 23%, para dois milhões de veículos vendidos anualmente dentro de cinco anos.
Volkswagen afunda lucros e anuncia 50 mil despedimentos
Também esta terça-feira, o Grupo Volkswagen apresentou os resultados de 2025, com os lucros operacionais a afundarem 53%, para 8,9 mil milhões de euros. O grupo alemão anunciou que irá suprimir 50 mil empregos na Alemanha até 2030. As previsões de margem para este ano também ficaram abaixo do esperado pelos analistas.
O CEO do grupo, Oliver Blume, alertou ainda para o impacto do conflito nas vendas dos veículos “premium”, sendo o caso das marcas Porsche (da qual Blume também é CEO), Audi e Lamborghini.
50 mil
Empregos
O Grupo Volkswagen anunciou a supressão de 50 mil empregos na Alemanha até 2030.
Já quanto à possibilidade de um impacto pelos custos energéticos, o CFO do grupo germânico, Arno Antlitz, frisou que o grupo tem contratos de longo prazo, mas admitiu que os preços mais elevados poderão repercutir-se num cenário de um conflito mais prolongado e com efeitos nos custos do petróleo e gás.
A japonesa Toyota, que no ano passado vendeu 680 mil veículos no Médio Oriente, já cortou a produção para aqueles mercados em 20 mil unidades em março.






