Setor dos componentes automóveis teme efeitos secundários das tarifas de Trump
No ano passado, os Estados Unidos foram o quarto principal mercado das exportações portuguesas de componentes automóveis, representando cerca de 577 milhões de euros.
in Jornal de Negócios, por Pedro Curvelo, 27-03-2025
As tarifas anunciadas pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, sobre as importações no setor automóvel têm reduzido impacto em Portugal no que respeita à exportação de veículos, com os Estados Unidos a serem um mercado residual. Já na fileira dos componentes para automóveis, a maior economia mundial era, no ano passado, o quarto principal cliente, representando 4,9% das vendas ao exterior.
O valor das exportações de componentes para os EUA ascenderam em 2024 a cerca de 577 milhões de euros. No entanto, o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), José Couto, diz ao Negócios que o impacto das tarifas poderá ser bem mais alargado.
José Couto lembra que existe um “efeito secundário ou indireto”, uma vez que uma fatia das exportações das fabricantes nacionais de componentes para países europeus é depois acoplada a outros componentes ou incorporada em veículos que têm como destino os EUA, assinala.
“Esses componentes poderão sofrer efeitos de uma redução da procura devido ao impacto das tarifas dos EUA”, adverte José Couto.
Donald Trump anunciou a imposição de tarifas de 25% na importação de veículos a partir de 2 de abril e sobre componentes importados que sejam incorporados nos veículos a partir de maio.
As tarifas anunciadas pelo Presidente dos EUA já fizeram soar os alarmes junto de várias empresas do setor. E também junto dos investidores, que levaram o setor europeu a recuar mais de 1%, com a Stellantis a perder 4,14% em bolsa, enquanto a BMW e a Mercedes cederam 2,5% e 2,84%, respetivamente.
Entre as fabricantes, a Ferrari até valorizou (1,51%) perante o anúncio de que deverá aumentar em até 10% o preço de vários dos seus modelos no mercado norte-americano para fazer face às tarifas. A icónica marca do “cavallino rampante” produz todos os seus veículos em Maranello, Itália, e os EUA são o seu maior cliente, representando cerca de um quarto das vendas. No ano passado, a marca italiana entregou 3.452 automóveis no mercado norte-americano.
Aposta reforçada na Europa
Para já, diz o presidente da AFIA, a maioria das fabricantes nacionais estão “muito concentradas em ganhar mercado na Europa”, reforçando as vendas para alguns atuais clientes e tentando conquistar novos. Em 2024 a Europa absorveu 88,5% das exportações da fileira nacional, o que corresponde sensivelmente a 10,43 mil milhões de euros.
José Couto diz que a expectativa, neste momento, é a de que o mercado automóvel europeu tenha um desempenho semelhante ao do ano passado, embora reconheça que o impacto das tarifas dos EUA para o setor é uma incógnita.
O sentimento é de apreensão “mas a nível europeu”, refere ainda José Couto. “O setor na Europa encontra-se numa situação de grande fragilidade e enfrenta riscos de perda de capacidade de produção e a consequente diminuição de emprego”, afirma.
“Na Europa existe um atraso em termos de produtividade face, por exemplo, aos EUA. Há uma necessidade de reforçar substancialmente a automação e digitalização no modelo de produção”, acrescenta o responsável.





