Declarações do Presidente da AFIA ao Expresso sobre o ritmo das exportações para os EUA

Como Trump está a mexer com as exportações portuguesas

Da metalurgia ao calçado, todos os sectores estão a sofrer e a procurar alternativas ao mercado norte-americano. Mas a aposta nos EUA é para continuar

in Expresso, por Margarida Cardoso, 10-07-2025


Quando Donald Trump ganhou as eleições presidenciais norte-americanas, no final do ano passado, as exportações portuguesas de mobiliário para os Estados Unidos da América (EUA) estavam a crescer 15%. “Era o nosso mercado com maior potencial, mas agora está a cair quase 15%, a refletir a instabilidade e o adiamento de decisões de compra decorrentes da política protecionista da Casa Branca”, afirma Gualter Morgado, diretor executivo da APIMA — Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins.

Numa fileira que exporta mais de €2 mil milhões por ano, a tendência geral das vendas ao exterior é de abrandamento, na ordem dos 2%, mas “o dia a dia está bem mais complicado para as empresas, obrigadas a ir à luta, a atirar a tudo o que podem agarrar, a ser ainda mais flexíveis, a trabalhar cada vez na área de projetos, com um serviço de alfaiataria, à medida”, resume.

As exportações de mobiliário para os EUA estavam a crescer 15%. Agora a queda é de 15%

As vendas em loja “caíram abruptamente e a dispersão de mercados está a aumentar. Ainda esta semana visitei uma empresa que está a começar a vender na África do Sul, no Kuwait, na Venezuela, no Cazaquistão. Mas sabemos que a conquista de qualquer mercado é uma relação de longo de prazo. Demora tempo. E sabemos que o Médio Oriente, a grande alternativa para a nossa oferta de elevado valor, também vive um momento de grande instabilidade”, diz Gualter Morgado.

Mesmo assim, nota, vai havendo boas notícias, como o reforço das encomendas da Alemanha, que “já não consegue comprar em grande quantidade na Ásia e está a voltar-se para fornecedores de proximidade que trabalham com pequenas séries, como Portugal”.

Aposta na defesa

Uma ronda do Expresso por diferentes sectores mostra que o momento é de retração nas exportações lusas. Da metalurgia ao calçado, todos dizem que a exigência de flexibilidade é maior. “É preciso encontrar novos caminhos para continuar a crescer”, afirma Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP. A associação da fileira metalúrgica, que nos primeiros meses do ano registou uma quebra de 16% nas exportações diretas para os EUA, refere “o congelamento de muitas encomendas, a aguardar a decisão de Donald Trump sobre as tarifas impostas à entrada no pais”, adiadas para 1 de agosto.

No conjunto dos mercados do sector, a quebra tem estado mais controlada, ainda abaixo dos 3%. “É uma performance relativamente normal, tendo em conta a atual conjuntura global”, comenta a AIMMAP, já a acompanhar “o esforço das empresas para reajustarem a oferta em novas áreas como a defesa e a segurança. Mas este é um sector muito regulamentado em que demora a entrar. Nada aqui tem resultados imediatos”, sublinha Rafael Campos Pereira.

Vendas em loja caíram e a dispersão de mercados está a aumentar, diz a associação APIMA

Nos componentes automóveis, as vendas ao exterior também estão a cair mais de 2% (7,6% em abril) e entre os cinco maiores mercados apenas Espanha cresce (+1,6%). “Temos de aguardar pelos próximos meses para avaliar o ano porque temos sinais contraditórios dos diferentes fornecedores”, diz José Couto, presidente da associação sectorial AFIA, consciente de que “as compras de automóveis na Europa até têm sido interessantes, mas a opção do consumidor por marcas asiáticas está a aumentar”.

“Sem uma pauta aduaneira definida, a navegar numa amálgama contraditória de informação, entre variáveis em constante alteração, a queda nos EUA passa os 10%, mas há mercados a crescer, como a Turquia (+22%), que recebe investimentos europeus e encomendas de novos modelos, e Marrocos (+38,8%), estratégico por ter um acordo comercial com os EUA e não ser alvo das tarifas norte-americanas”, indica.

EUA ainda atraem

Embora tenha as exportações globais a crescer 8% até abril, o calçado português está a vender menos 8,7% nos EUA. Em contraciclo com a tendência geral de quebra das vendas ao exterior, a fileira está a ganhar quota na generalidade dos mercados e tem visto as suas empresas estudarem opções como aumentar a flexibilidade da resposta a encomendas ou abrir sucursais nos EUA, que são o maior importador mundial de sapatos e continuam a ser um alvo prioritário do investimento promocional”, indica Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da APICCAPS.

Já nos têxteis, onde as exportações estão estáveis, as maiores preocupações são a incerteza sobre o que vão fazer os EUA e o crescimento das importações da China, “a voltar-se cada vez mais para a Europa”, nota Mário Jorge Machado, presidente da ATP — Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, a lutar com as congéneres europeias pelo fim dos “incentivos fiscais às importações da Ásia”, isentas de taxas aduaneiras nas encomendas até €150.

No segmento alimentar, “os EUA continuam a ser atrativos, apesar de todo o rebuliço”, adianta Deolinda Silva, diretora executiva da PortugalFoods, dizendo que o sector “parece estar a aguentar-se no patamar exportador do ano passado”. Já no vinho, onde as exportações até abril caíram 1,6%, os EUA, até agora a lutar com a França pelo título de maior mercado, estão a cair 7% e, admite o presidente da Viniportugal, Frederico Falcão, “são uma preocupação”, até pela valorização do euro face ao dólar e a outras moedas, e pela retração no consumo de álcool.

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