Exportações portuguesas para os Estados Unidos em queda: “A primeira barreira é a da incerteza”
As exportações portuguesas para os EUA estão a cair em alguns sectores. “Make Recession Great Again” pode ter de ser o novo slogan de Trump, diz o economista e ex-ministro da Economia Manuel Caldeira Cabral
in Expresso, por Margarida Cardoso, Sónia M. Lourenço, Carlos Esteves, 18-03-2025
O contexto internacional é de grande incerteza, dominado pela guerra comercial em marcha, espoletada pela política aduaneira protecionista dos EUA, com a administração Trump a impor sucessivas tarifas alfandegárias sobre vários tipos de produtos e diferentes países. Para Portugal o arranque deste ano no que toca às exportações de bens foi em força, com nota positiva geral, mas com uma quebra nas vendas para os EUA, o quarto maior cliente do país.
Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que em janeiro as vendas portuguesas de bens ao exterior cresceram 11,7% em termos homólogos, ou seja, por comparação com o mesmo mês do ano passado, atingindo 7,1 mil milhões de euros.
A evolução das exportações lusas de bens para os EUA foi, contudo, negativa. Em janeiro, ainda antes de serem impostas novas tarifas sobre produtos oriundos da União Europeia (UE) (as primeiras entraram em vigor só a 12 de março, com uma penalização de 25% à importação de metais, independentemente do país de origem e desencadearam o anúncio de medidas de retaliação por parte da UE), as exportações portuguesas de bens para os Estados Unidos caíram 13,4%, para 329,6 milhões de euros.
Vários tipos de produtos mostram grande assimetria nas vendas para os Estados Unidos em Janeiro
Peso no total das principais exportações portuguesas para os EUA em janeiro de 2025, e variação homóloga, em percentagem
“A primeira barreira em vigor é a barreira da incerteza”, comenta o antigo ministro da Economia Manuel Caldeira Cabral, certo de que “o ambiente de instabilidade e incerteza leva as empresas a adiar encomendas, a estudar em pormenor as cadeias de fornecimento internacional, porque as tarifas vão ter impacto nas margens porque implicam grandes diferenças nos custos”.
“O uso de instrumentos de política comercial externa de forma arbitrária tem riscos elevados e, neste caso, o jogo começa logo em patamares muito altos, com taxas de 25%. Estamos a ver que mesmo sem tarifas começou a vigorar a incerteza ditada pela possibilidade de haver tarifas”, comenta o economista e professor da Universidade do Minho.
Na sua opinião, as tarifas ou a ameaça de tarifas têm impacto direto nas exportações lusas, mas também um impacto indireto, por via dos clientes europeus que exportam para os EUA e, também, das vendas para clientes de outros países visados por Donald Trump, como o México, no caso do sector automóvel.
E, no final, “temos retração no investimento nos EUA, perda de confiança dos consumidores e uma consequente retração do consumo, recessão”, sumariza Caldeira Cabral.
Cada sector com o seu desempenho
“O slogan Make America Great Again pode bem transformar-se em Make Recession Great Again”, diz Caldeira Cabral, sublinhando que o investimento adiado significa, automaticamente, encomendas adiadas, designadamente “encomendas de máquinas e equipamentos”, um dos produtos que Portugal exporta para os EUA. E a análise dos dados do INE mostra uma queda de 43,7% na venda de máquinas e aparelhos para os EUA em janeiro, um segmento que corresponde atualmente a 11,1% das exportações portuguesas para o país.
Por trás dos números relativos aos EUA estão comportamentos muito diferenciados entre sectores, com registo de subidas e descidas acentuadas. Em janeiro, o primeiro lugar no ranking das exportações de Portugal para os EUA foi ocupado pelos produtos da indústria química e indústrias conexas – onde se destaca a indústria farmacêutica – com 21,3% do total das vendas de Portugal para o país e um crescimento de 195,4% face a janeiro de 2024.
Entre os produtos com maior peso nas vendas para terras do tio Sam no arranque do ano destaca-se o crescimento de 4,1% do plástico, borracha e suas obras, que representaram 11,5% do total das exportações lusas para os EUA em janeiro.
Os têxteis (10,3% do total) deram um salto de 7,7%. E nos metais comuns e suas obras, com uma quota de 5% nas exportações para o país, a subida foi de 11,5%, puxada pelo segmento do ferro fundido, ferro e aço (+119,5%) que abrange um dos alvos das novas tarifas de 25% em vigor desde 12 de março sobre os materiais, mas também sobre alguns produtos acabados, designadamente estruturas metálicas e trefilaria.
Na fileira metalúrgica e metalomecânica, o material de transporte teve um incremento das exportações de 16,9%, valendo 1,1% do total, enquanto as máquinas e aparelhos registaram uma queda de 43,7%, vendo a sua fatia corresponder a 11,1% do total. Mas do lado das descidas o destaque negativo vai para os produtos minerais – onde se incluem os produtos petrolíferos, como os combustíveis – com um recuo de 57,6%, e valendo, ainda assim, 15% do total das vendas lusas de bens para os EUA em janeiro.
A procura das marcas americanas está a crescer
E qual o efeito das tarifas e da política protecionista de Trump nestes números? Cada sector faz uma análise diferente do quadro atual, em função das suas especificidades, mas, no caso dos têxteis, Mário Jorge Machado, presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, é claro: “No crescimento das nossas exportações de janeiro não há ainda qualquer impacto do Sr. Trump. Estamos a falar de encomendas que foram feitas em março ou abril do ano passado, quando ainda não sabíamos quem ia ser o presidente dos EUA”, sustenta.
No seu sector, diz, “tem sido visível uma procura crescente pelo made in Portugal por parte das marcas americanas. Há uma relação que está a consolidar-se para lá dos têxteis-lar, com uma ligação histórica aos Estados Unidos, e abrange agora, também, o segmento dos tecidos, das malhas, do vestuário”.
Isto acontece, explica, por um trabalho feito dos dois lados do Atlântico, com as marcas americanas a procurarem “alternativas à Ásia, com design, qualidade e sustentabilidade” e “as empresas lusas a colocarem os seus comerciais a trabalhar mais o país para aproveitar a conjuntura favorável, até porque a economia americana estava a crescer e a Europa a estagnar”, refere. “E nesta aproximação, há ainda o efeito da resposta à disrupção das cadeias logísticas devido à Covid-19″, nota.
“No ano passado, nos 10 maiores mercados do sector, os EUA foram o único a crescer”, sublinha, antes de admitir que a política económica de Trump pode “provocar alguns soluços nesta tendência positiva, desde logo porque a retaliação da Europa envolve taxas sobre as importações de jeans dos EUA e isso pode levar Trump a retaliar com tarifas sobre produtos têxteis europeus”.
Um mês atípico
Já no sector automóvel, José Couto, presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, sublinha que a regra é “trabalhar com prazos muito curtos e só quando caírem as taxas será possível medir os efeitos”. Janeiro foi um mês positivo no que respeita aos EUA, o quinto cliente das empresas portuguesas da fileira e, na sua análise, “as encomendas seguem o ritmo normal, embora possa surgir um travão a qualquer momento, em função do que vier a acontecer efetivamente com as tarifas”.
Já a metalurgia, campeã das exportações portuguesas, com segmentos a crescer nos EUA e outros a cair, em janeiro, considera que “não existe uma tendência evidente e muito menos a refletir as alterações das tarifas alfandegárias” até porque “janeiro, tal como agosto, é um mês muito atípico”, refere o vice-presidente da associação sectorial AIMMAP, Rafael Campos Pereira.
“As taxas já implementadas por Trump acabam de entrar em vigor a 12 de março, pelo que acredito que o comportamento das exportações no mês de janeiro não está diretamente indexado à política americana”, diz.
“O que nos preocupa efetivamente é a política europeia. As taxas que estão a ser aplicadas às matérias-primas importadas estão a afetar tremendamente a competitividade da indústria europeia, e isso pode começar a explicar alguma tendência decrescente nas exportações, registada aliás transversalmente em quase todas as economias europeias. Não podemos obviamente esquecer a conjuntura geopolítica e a crise política e económica em alguns dos nossos principais destinos de exportação”, afirma.
Acertos nas cadeias de abastecimento
No caso dos produtos farmacêuticos, com uma subida acentuada em janeiro, o diretor-executivo do Health Cluster Portugal, Joaquim Cunha, nota que as exportações para os EUA em 2024 caíram 100 milhões de euros, para os 1,1 mil milhões, “mas a relação e a confiança estão consolidadas e pode haver neste momento algum movimento por parte de empresas multinacionais dentro das suas cadeias de abastecimento, para garantirem benefícios fiscais, até porque temos empresas americanas a subcontratar laboratórios portugueses”.
“É preciso não esquecer que os EUA valem quase tanto como o resto do mundo no sector da saúde e se há 30 anos o top 10 das grandes farmacêuticas era maioritariamente europeu, neste momento é dominado por empresas norte-americanas”, diz, para vincar a “atenção redobrada a tudo o que acontece nos Estados Unidos e a grande expetativa relativamente ao que Donald Trump vai fazer nesta área, uma vez que terá sempre grande impacto e o sector dos produtos farmacêuticos já foi envolvido nas conversas dele sobre tarifas”.
Quanto à evolução dos números das exportações nos próximos meses, todos evitam previsões. A questão, admitem os dirigentes associativos, é muito importante para Portugal, com os dados do INE a colocarem os EUA, o quarto mercado do país em 2024, como um dos mais dinâmicos destinos das vendas portuguesas e bens ao exterior, líder em sectores como o do vinho, e no top 5 de muitas fileiras.
Efeitos colaterais
Mas também há efeitos colaterais, com alguns sectores, como a cerâmica e o têxtil, a reportarem o aumento de contactos que podem significar mais encomendas num futuro próximo e uma deslocalização da procura dos EUA da Ásia para o sul da Europa.
“Até no automóvel temos reações colaterais”, nota Manuel Caldeira Cabral, numa referência “à quebra de vendas de 50% a 60% da Tesla na Europa, e crescimento da procura de marcas europeias e também chinesas acima do que seria de esperar”.
A verdade é que “as exportações portuguesas estavam a ter uma boa dinâmica nos EUA, uma alternativa atrativa face a uma Europa que crescia menos, estavam a recolher o resultado do trabalho feito e a beneficiar do momento positivo da economia norte-america e com esta questão das tarifas tudo pode correr menos bem e não só no imediato. Estamos a falar de impactos no próximo trimestre e até no próximo ano desde logo pelo ambiente de incerteza e instabilidade criados”, remata Caldeira Cabral.






