No distrito de Viseu, a fábrica da Stellantis é a estrela de um cluster automóvel composto por 14 empresas, mas não brilha sozinha
No meio de uma nave enorme, com cheiro a verniz, uma fila de carroçarias avança devagar, suspensa. Robôs deslizam com precisão cirúrgica, soldando, aparafusando, montando. Os humanos estão lá, mas são poucos. Estamos em Mangualde, a 300 metros da rotunda onde uma escultura do Citroën Dois Cavalos (2CV) recorda o princípio de tudo.
A fábrica da Stellantis completa 64 anos. Começou como Citroën em 1962, fabricou o mítico 2CV até 1990 e tornou-se uma das mais eficientes das 52 unidades de produção da Stellantis em todo o mundo. No grupo, Mangualde está no top 3 dos indicadores de custo, qualidade e desempenho. “Somos benchmark para o mundo todo”, afirma Múcio Brasileiro, o diretor-geral da fábrica, ao Expresso.
A unidade do distrito de Viseu ocupa 10 hectares, tem 900 trabalhadores diretos e 1500 indiretos e produz hoje 370 veículos por dia, o mesmo número que produzia num ano inteiro em 1964. Em 2025 atingiu um volume de negócios de €1000 milhões e este ano deverá chegar ao marco histórico de dois milhões de veículos fabricados. O primeiro milhão demorou 50 anos a chegar. O segundo levou apenas 14.
Em 2024, Mangualde tornou-se a primeira fábrica em Portugal a produzir veículos 100% elétricos em larga escala, após um investimento de €30 milhões. Tem capacidade para produzir 12 veículos elétricos por hora, mas o mercado, no entanto, ainda não acompanhou o ritmo previsto. “O consumidor precisa de tempo”, reconhece Múcio.
Certo é que a unidade da Stellantis transformou a região. Foi fundada por iniciativa de um industrial de São João da Madeira radicado em Mangualde, José Coelho dos Santos, que foi porta a porta pedir aos vizinhos que se tornassem sócios do projeto. Quando a Citroën chegou, o tecido industrial da região era quase inexistente. Hoje, o cluster automóvel de Viseu Dão Lafões é um dos mais densos do interior de Portugal e emprega cerca de 2000 pessoas só nos fornecedores de componentes. A Stellantis representa 27% da produção automóvel nacional e 0,34% do Produto Interno Bruto (PIB) português. Nas exportações da região de Viseu Dão Lafões, que atingiram €1,5 mil milhões por ano, o sector automóvel domina.
Em Tondela, a 20 km de Mangualde, o cluster automóvel tem outra origem. Foi a Huf Portuguesa que em 1991 se instalou na zona industrial que estava a nascer. Foi a primeira grande multinacional ali implantada. É uma empresa do grupo familiar alemão Huf especializado em sistemas de fecho e acesso para automóveis. Hoje a fábrica de Tondela emprega 340 pessoas e fatura €83 milhões anuais.
“Quando arrancámos, passámos a ser a primeira grande multinacional aqui em Tondela”, recorda o seu diretor, Pedro Pêga. “Houve concelhos que não mostraram interesse. Tondela abriu as portas de par em par.”
A Huf trouxe consigo, por influência do grupo alemão, a Bomoro, mais tarde vendida à Bosch e depois à Brose, hoje também instalada em Tondela. A Eberspächer, um dos líderes mundiais de sistemas de escape, chegou a seguir. A sueca Borgstena, de têxteis para automóveis, instalou-se em Nelas. E assim nasceu um cluster automóvel com expressão europeia.
A própria Huf passou, nos últimos cinco anos, por uma transformação. As chaves mecânicas deram lugar a cartões e sistemas biométricos. “Dois anos depois de um cliente nos dizer que não tínhamos condições para produzir eletrónica, estávamos a produzi-la. Um ano depois, esse cliente voltou e disse que era extraordinário”, conta Pedro Pêga. A partir de 2027 a empresa prevê passar os €120 milhões de faturação.
Este cluster automóvel está longe dos portos, mas isso não impediu as multinacionais de se instalarem na região. A Stellantis envia 50 camiões por dia com os seus carros com destino aos portos de Leixões e Vigo. No total, a Comunidade Intermunicipal de Viseu Dão Lafões soma 14 empresas do sector automóvel, tantas quantos os municípios que alberga.
in Expresso, por Gonçalo Almeida, 21-05-2026





