Expectativa. Este é o sentimento dominante na fileira automóvel nacional em relação à guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão no passado fim de semana. As maiores dificuldades deverão ser sentidas pela indústria de componentes.
in Jornal de Negócios, por Pedro Curvelo, 06-03-2026
A guerra no Médio Oriente e o condicionamento do estreito de Ormuz, estratégico para os fluxos principalmente de petróleo e gás natural, ameaça abalar os setores económicos de forma transversal, uma vez que os custos energéticos deverão aumentar, pressionando igualmente todas as operações de transporte e logística. Em Portugal, a fileira automóvel – quer os construtores de veículos quer os fabricantes de componentes – indica que o impacto direto não se está a fazer sentir.
“Em termos de produção ou abastecimento de componentes não estamos a sentir qualquer efeito”, diz ao Negócios fonte oficial da Volkswagen Autoeuropa, a maior fábrica automóvel em Portugal. Ainda assim, “tal como todos os setores”, a unidade de Palmela poderá sofrer com o aumento dos custos energéticos, sendo que no caso do gás o impacto é mais direto, uma vez que é utilizado na unidade de pintura. De resto, os custos logísticos mais elevados, por via dos combustíveis mais caros e aumento dos preços dos fretes, são outro fator a considerar.
A Stellantis de Mangualde, a segunda maior fabricante em solo nacional, afina pelo mesmo diapasão. “Impacto direto não sentimos, de todo”, diz ao Negócios fonte oficial da fábrica beirã. Já quanto a uma pressão pelos combustíveis mais caros e, consequentemente, em toda a logística e transporte, a fábrica de Mangualde antecipa que serão sentidos. “Será algo a que nenhum setor conseguirá escapar”, refere a mesma fonte.
“Algumas das empresas de componentes utilizam o gás natural na sua produção. JOSÉ COUTO Presidente da AFIA.
Fabricantes de componentes veem margens sob ameaça
Sob maior pressão está a indústria de componentes para o setor automóvel, que já passou por uma situação semelhante devido à escalada nos preços da energia em 2022, devido à invasão da Ucrânia, que deixou as empresas do setor com as margens “esmagadas”.
“Os nossos associados não conseguem passar, no curto prazo, o aumento dos custos para os preços aos clientes finais. A única opção é absorver os maiores custos com combustíveis e logística”, assinala ao Negócios o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), José Couto.
A principal ameaça, tal como para as construtoras automóveis, vem dos combustíveis mais caros, embora o responsável ressalve que “algumas das empresas de componentes utilizam, por exemplo, o gás natural na sua produção”.
Lembrando que as empresas localizadas nas regiões de Coimbra e Leiria já tinham sofrido com o comboio de tempestades que atingiu o país no mês passado, José Couto diz esperar que o Governo adote medidas que permitam mitigar o impacto do aumento do preço dos combustíveis para o setor, até porque as empresas portuguesas exportam grande parte da sua produção, principalmente para a Europa, utilizando, em bastantes casos, o transporte rodoviário.
Sem se aventurar em “futurologia”, José Couto espera que os especialistas – que apontam para que o conflito seja relativamente curto e que o impacto nos preços do petróleo e gás natural seja limitado – estejam certos.






