Crise no setor automóvel ameaça mais de mil empregos

Recuo da produção na Alemanha e Espanha põe em risco as fábricas nacionais, dependentes dos dois mercados, que absorvem quase metade das exportações.

A crise que está a engolir a indústria automóvel europeia já ameaça chegar com força a Portugal. As em presas nacionais de componentes poderão perder mais de mil postos de trabalho nos próximos três anos, à medida que a quebra da produção dos grandes fabricantes europeus se repercute em toda a cadeia de fornecedores. A previsão é de José Couto, presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), que admite que, se as encomendas continuarem a cair para níveis insustentáveis, haverá pouco a fazer para evitar a redução das equipas. “As nossas projeções mostram uma queda do número de trabalhadores para os próximos três anos”, revela José Couto, embora ressalve que a redução não resulta apenas da contração do mercado. “Não só porque o mercado encolheu, mas também porque há investimento na intensidade tecnológica”, explica. O alerta surge num momento em que os gigantes da indústria automóvel europeia estão a emagrecer brutalmente. A BMW prepara propostas de saída voluntária para cerca de 40 mil trabalhadores na Alemanha, quase metade dos 85 mil funcionários que em prega naquele país, enquanto a Volkswagen admite que os cortes poderão atingir 100 mil postos de trabalho. Mercedes e Stellantis estão igualmente a avançar com medidas para reduzir custos e ajustara capa cidade produtiva.

Para José Couto, não há como Portugal escapar às consequências. “Os construtores de automóveis europeus têm sobrecapacidade instalada de produção face ao nível de consumo”, afirma, explicando que o excesso de capacidade obriga os fabricantes a redimensionar as estruturas. E esse ajustamento “terá efeitos claros na cadeia de produção”.

“Se os clientes diminuírem o número de automóveis, logo de componentes, não podemos manter uma sobrecapacidade de produção”, sublinha o presidente da AFIA. A indústria portuguesa está, por isso, obrigada a acompanhar a transformação dos seus principais clientes. “Uma diminuição da capacidade de produção de veículos automóveis na Europa, o nosso principal cliente, exigirá uma reação capacitada das nossas empresas. Porém, sem perderem competitividade”.

O problema ganha dimensão quando se olha para a dependência externa dos fabricantes portugueses de países como a Espanha e a Alemanha os dois maiores produtores de automóveis da EU. “Como Espanha e Alemanha são os dois principais destinos dos componentes fabricados e Portugal, representam quase 50% das exportações, haverá consequências com a queda”, alerta Couto.

142 EMPREGOS POR DIA

A dimensão do problema ainda mais preocupante quando se olha para toda a Europa. Um estudo da Associação Europeia de Fornecedores da Indústria Automóvel, da qual a AFIA faz parte, elaborado pela Roland Berger, concluiu que o setor já perdeu 104 mil postos de trabalho desde 2024, equivalente a cerca de 142 empregos por dia.

E o pior poderá estar para vir. Segundo o mesmo estudo, estão em risco pelo menos 350 mil empregos europeus até 2030 apenas entre os fornecedores da indústria automóvel. “Resulta um número preocupante quando somado ao resto da indústria automóvel”, considera José Couto. Em Portugal, admite, “talvez possamos estar a falar acima de um milhar” de empregos perdidos.
As empresas portuguesas estão, contudo, a tentar antecipar o choque. “Desde logo as empresas têm procurado alternativas, seja noutras geografias, como em novos mercados/setores para contornar esta situação”, revela o presidente da AFIA. A diversificação poderá ser uma das poucas formas de reduzir a dependência dos construtores europeus.

Europa subavaliou o potencial dos concorrentes

Polícias comunitárias não previram evolução de mercados, como é o caso do chinês

Por trás desta crise está também uma perda de competitividade que José Couto atribui, em parte, às próprias escolhas europeias. “A Europa nada fez para enfrentar os desafios e subavaliou o potencial dos seus concorrentes”, acusa. “Houve um erro de avaliação e gerou-se uma letargia que nos empurrou para um posicionamento dramático – perda de dimensão competitiva”.

Os fornecedores europeus enfrentam, acrescenta, concorrência de regiões com custos mais baixos, menos regulamentação, tarifas, dumping (prática comercial desleal em que uma empresa exporta produtos para outro país a um preço inferior ao valor de mercado) e subsídios. A China é o caso mais evidente, mas não o único problema. “Chegámos aqui por uma atitude e práticas erradas da UE. Há efetivamente uma perda de competitividade que nos vai custar a recuperar”.

A transição para o automóvel elétrico também é colocada em causa, “Olhando para trás, percebem-se erros”, afirma Couto, defendendo que as políticas europeias não tiveram suficientemente em conta a evolução dos concorrentes. “Houve uma clara subavaliação do potencial da concorrência e permitimos que dominassem em várias dimensões”.

A Europa terá agora de correr contra o tempo. “Há que correr atrás da construção de um quadro de reindustrialização – o que tem de ser rápido e sem hesitações”, defende o presidente da AFIA.
Chineses avançam para fabricas em Espanha

Após ter invadido a Europa em força através da comercialização de veículos, sobretudo elétricos, o setor automóvel chinês começa a estabelecer uma base industrial no Velho Continente, com o objetivo de contornar o objetivo de Bruxelas de taxar a importação de carros “Made in China”. Segundo o jornal “Negócios”, já há cinco construtoras de automóveis chineses instaladas ou com projeto de fábricas para produção em Espanha.

 

in Jornal de Notícias, por António José Gouveia, 18-08-2026

 

 

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