Muitos dos empresários do sector já equacionam começar a produzir para outras áreas, nomeadamente para as indústrias da defesa e “outros mercados adjacentes”
in Expresso, por Vítor Andrade | Coordenador de Economia, 23-03-2026
Um em cada quatro fornecedores de componentes da indústria automóvel prepara-se para um ano de 2026 com prejuízos. Esta é uma das principais conclusões da edição de primavera do inquérito Pulse Check da Associação Europeia de Fornecedores Automóveis (CLEPA, no acrónimo em inglês).
Com a perspetiva de um ano de perdas pela frente, 40% dos fornecedores de componentes referem, no inquérito divulgado esta segunda-feira, aumentar a sua exposição a sectores não automóveis, incluindo indústrias como a defesa e “outros mercados adjacentes”, como medida temporária para manterem a respetiva capacidade industrial “durante um dos períodos mais voláteis da história do sector”.
No geral, as expectativas de rentabilidade para 2026 “continuam fracas”, segundo a CLEPA, que avança que 76% dos fornecedores automóveis esperam uma rentabilidade abaixo dos 5%, considerado “o nível mínimo necessário para sustentar investimentos a longo prazo em inovação e capacidade industrial”.
Isto, de acordo com a mesma associação, “representa uma ligeira deterioração em comparação com o inquérito Pulse Check do outono de 2025, no qual 70% dos fornecedores reportaram expectativas semelhantes”.
“Crise de rentabilidade”
“Os fornecedores automóveis na Europa estão a enfrentar uma crise de rentabilidade que exige uma ação imediata e pragmática”, afirma Benjamin Krieger, secretário-geral da CLEPA.
O responsável explica ainda que “esta volatilidade económica obrigou a uma mudança de rumo de emergência”, por parte dos empresários do sector.
Razão pela qual, e ainda segundo Benjamin Krieger, “a diversificação para sectores adjacentes deve ser uma medida tática e temporária para proteger a nossa força de trabalho e a nossa presença industrial. A implementação da Lei do Acelerador Industrial [pela Comissão Europeia] é mais crucial do que nunca”. E conclui que, no atual contexto geopolítico, “a autonomia estratégica deve deixar de ser um marco distante e passar a ser uma prioridade política e industrial imediata”.
Indústria exige ação nas políticas industriais europeias
O dirigente da CLEPA considera que o Parlamento Europeu e o Conselho devem instar a Comissão a “ir além de uma postura comercial passiva”. Em vez disso, “exigimos uma avaliação rigorosa dos riscos dos parceiros comerciais com base em critérios objetivos e uma aplicação robusta” da estratégia definida para o sector.
A associação considera que “esta é a única forma de manter as cadeias de abastecimento interligadas, ao mesmo tempo que se fecham as brechas comerciais e se garante que a indústria europeia tem um ambiente justo para competir”.
A CLEPA representa mais de 3000 empresas, desde multinacionais a pequenas e médias empresas, que investem anualmente mais de 30 mil milhões de euros em investigação e desenvolvimento. Este sector emprega de forma direta 1,7 milhões de pessoas na União Europeia.
Portugal regista quebras no sector
Em Portugal, a Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (que integra a CLEPA), reportou, em janeiro, 1001 milhões de euros de exportações, o que representa uma variação homóloga de -6,9%.
Os dados de 2025, ainda provisórios, revelam que a atividade industrial de produção de componentes para o automóvel em Portugal teve uma quebra de 4,8%.
A indústria de componentes para automóveis em Portugal agrega cerca de 360 empresas e emprega diretamente 63.000 pessoas. Fatura 14,3 mil milhões de euros (ano de 2024), com uma quota de exportação direta na ordem dos 85%.
Em termos de importância na economia nacional, representa 5% do PIB e 8,8% do emprego da indústria transformadora.






