Na fábrica de Palmela paira um otimismo silencioso e já se trabalha no futuro Volkswagen ID.1, que será 100% elétrico. Na Alemanha, discute-se o possível despedimento de 100 mil pessoas em todo o grupo
Enquanto em Wolfsburg, na Alemanha, se discute o futuro do grupo Volkswagen, com um plano de cortes de 100 mil postos de trabalho em cima da mesa — o maior murro no estômago de sempre na indústria automóvel europeia, que pode passar pelo encerramento de quatro fábricas em solo alemão, algo nunca visto na história da marca —, na unidade da Autoeuropa, em Palmela, reina uma espécie de otimismo silencioso, ancorado no sucesso comercial do modelo ali produzido: o Volkswagen T-Roc, agora com motorizações híbridas.
Para já, na Autoeuropa mantêm-se todos os prazos calendarizados tanto para o VW T-Roc híbrido, que deverá começar a entrar no mercado a partir de agora — primeiro na Alemanha e noutras geografias europeias e só mais tarde em Portugal —, como para o futuro 100% elétrico que ali vai ser produzido a partir do próximo ano.
E é precisamente por isso que já está a ser preparada, em simultâneo, a nova linha de montagem do futuro ‘carro elétrico do povo’ da Volkswagen, o pequeno ID.1, na casa dos €20 mil, prevendo-se que as primeiras saídas para o mercado comecem a acontecer em final de 2027 ou princípio de 2028.
Aliás, uma das prioridades da estratégia de Oliver Blume, presidente executivo do grupo Volkswagen, passa precisamente pela aceleração do desenvolvimento de novos produtos e pela prioridade aos carros elétricos mais baratos e colocados tão rápido quanto possível no mercado.
A Autoeuropa está, por isso mesmo, “totalmente em linha” com essa estratégia, segundo uma fonte do sector contactada pelo Expresso, o que deixa antever alguma tranquilidade para os próximos anos.
“Mas os trabalhadores da VW Autoeuropa sabem o que se está a passar no grupo em geral, todos os dias veem as notícias que saem sobre a crise que está a atravessar e, apesar de dominar o sentimento de confiança, sabe-se que, no mundo atribulado da gestão, todos os cenários podem estar em aberto”, comenta a mesma fonte, que solicita anonimato.
Este ano, a produção na Autoeuropa deverá ficar abaixo dos 240 mil carros que saíram da fábrica de Palmela em 2025, porque a fábrica esteve parada quase sete semanas, para preparação da nova linha de montagem do VW ID.1, estimando-se que fique pelas 220 mil unidades.
A Autoeuropa está “totalmente em linha” com a estratégia defendida pela gestão do grupo VW
Em suma, e ao contrário do que se passa na generalidade do grupo Volkswagen, na fábrica de Palmela ainda vai reinando o otimismo e uma certa tranquilidade.
Na verdade, segundo um dos responsáveis da fábrica, não só não estão previstos despedimentos como têm estado a entrar para os quadros da empresa alguns dos trabalhadores que laboravam em regime temporário.
A tempestade que assola o gigante alemão Volkswagen já não é apenas um problema de Wolfsburg, mas acabou por se transformar no símbolo maior de uma crise estrutural que ameaça desmantelar o modelo económico alemão e, por arrastamento, toda a indústria automóvel europeia.
É que a Volkswagen funciona como uma espécie de âncora para milhares de fornecedores, subfornecedores, empresas de engenharia, logística e serviços.
Se a VW reduzir significativamente a produção na Alemanha, o impacto não ficará confinado aos trabalhadores da Volkswagen e poderá atingir fabricantes de componentes; empresas de engenharia; logística e transporte; fabricantes de máquinas industriais; química e materiais; eletrónica; empresas de software; e ainda restauração, comércio e serviços nas regiões industriais.
De acordo com a Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) a atividade industrial no sector, na Europa, regista hoje níveis inferiores aos do ano de 2025, fazendo sentir uma onda de choque que atravessa fronteiras e atinge diretamente a cadeia de abastecimento nacional.
“Nos dois países mais importantes para as empresas produtoras de componentes, Espanha e Alemanha, o nosso melhor cliente, a Espanha, teve uma quebra de 6%, em junho e, no primeiro semestre, de 3%.”
A mesma associação adianta ainda que, no caso da Alemanha, segundo cliente para as empresas portuguesas produtoras de componentes, registou-se uma queda de 5% na produção, em junho, e uma queda semestral de 2%. “Portanto, quando os nossos clientes diminuem a atividade, os fornecedores nacionais ressentem-se. No primeiro semestre viram a sua atividade cair 3%”, informa a AFIA.
Embora várias empresas portuguesas estejam já a ser afetadas por uma redução “substancial” na carteira de encomendas, os efeitos totais continuam, para já, difíceis de quantificar com precisão, ainda segundo a mesma fonte.
Quando um dos maiores grupos mundiais da indústria automóvel, como a Volkswagen, reduz a sua produção, a pressão transfere-se imediatamente para os fornecedores de primeiro e segundo nível, “obrigando a ajustes severos cujo reflexo mais visível é a supressão de postos de trabalho”, explica a AFIA.
A gravidade do momento reside no “fortíssimo efeito de tração” que o sector automóvel exerce sobre o resto da economia, um papel estratégico reconhecido, aliás, pela Comissão Europeia e consagrado no projeto do Industrial Accelerator Act (IAA).
A AFIA nota ainda que o tal ‘efeito de tração’ “não será sentido só ao nível do emprego na indústria, de forma direta e indireta”, mas é também impactante ao nível dos serviços complementares “e na área da investigação e desenvolvimento”.
“O rácio depende dos países, contudo, mesmo que seja mais baixo, como é o caso do nosso país, terá sempre um efeito altamente prejudicial sobre a atividade económica.”
Ainda sobre a crise que se vive na Volkswagen, os responsáveis da AFIA dizem que talvez ainda seja cedo para falar em colapso, “mas é algo muito disruptivo e porá em causa muitos dos postulados que hoje temos como certos, pondo em causa também o que hoje conhecemos como estabilidade económica e social, qualidade de vida e segurança”.
É que, segundo a mesma associação, o que se está a passar irá afetar “o que conhecemos como paradigma das economias dos estados ocidentais”. E recorda que, neste caso, estamos a falar de 13 milhões de trabalhadores afetos às empresas produtoras de componentes e, se houver uma diminuição de 10% até 2030 — como se estima a nível europeu — “os estados têm que se preparar para este choque”. Mas, e de forma mais otimista, a AFIA nota que “não podemos esquecer a velocidade de transformação que hoje temos comparativamente ao século XX e um processo de regeneração que vai criar novas atividades, novos produtos e soluções”.
No entanto, alerta que “a Europa terá de andar depressa para recuperar o atraso da competitividade e terá de ter uma posição mais ativa no âmbito da geopolítica económica”.
in Expresso, por Vítor Andrade | Coordenador de Economia , 03-09-2026







