Bloqueio no Estreito de Ormuz ameaça paralisar a indústria automóvel pela falta de matérias-primas, colocando fábricas em risco de paragem.
in Razão Automóvel, por Mariana Teles, 03-03-2026
No passado dia 28 de fevereiro, os EUA e Israel desencadearam uma ofensiva militar contra o Irão, tendo como alvos declarados os principais líderes do regime e infraestruturas estratégicas. Desde então, Teerão respondeu com ataques não apenas contra o território israelita, mas também contra bases norte-americanas localizadas em países vizinhos do Golfo.
O ponto crítico do conflito ocorreu com o anúncio iraniano do encerramento do Estreito de Ormuz, acompanhado de ameaças diretas a qualquer embarcação que tente atravessar a região. Embora Washington tenha desmentido oficialmente a eficácia do bloqueio, a realidade no terreno é de paralisia: o tráfego marítimo naquela que é a artéria mais vital do comércio energético mundial encontra-se, na prática, interrompido.
Embora o conflito tenha menos de uma semana, já se sentem os seus efeitos nas cadeias de fornecimento, especialmente no que respeita ao petróleo. A indústria automóvel já se prepara para o pior.
Impacto do bloqueio do Estreito de Ormuz
O Estreito de Ormuz é o canal principal por onde passa o petróleo oriundo do Golfo Pérsico — é o ponto de passagem para cerca de 20% do petróleo mundial. De acordo com a Alixpartners, passam por este estreito mais de 20 milhões de barris de petróleo diariamente.
No entanto, a sua importância estende-se a outros setores críticos. Para além do crude, esta rota é o principal ponto de saída para Gás Natural Liquefeito (GNL), alumínio, insumos para a siderurgia e polímeros essenciais (como etileno, polietileno e polipropileno).
No ano passado, no início do verão, o Estreito já tinha vivido um dos seus momentos de maior tensão geopolítica dos últimos anos. Embora não tivesse fechado de forma permanente, a região tornou-se o palco de uma escalada militar sem precedentes após ataques cirúrgicos a infraestruturas nucleares iranianas.
Desta vez, o cenário tornou-se mais alarmante. Esta terça-feira de manhã, 3 de março, o preço do barril já tinha ultrapassado os 81 dólares — um crescimento de 4,3% —, o preço mais elevado no último ano. Especialistas admitem que a cotação pode chegar rapidamente aos 100 dólares, considerando que antes da ofensiva o valor rondava os 72 dólares.
Na Europa, a situação é ainda mais dramática no setor do gás natural, com os preços a dispararem mais de 50% devido ao receio de uma interrupção total no fornecimento de GNL, essencial para a produção de eletricidade e aquecimento.
Impacto na indústria automóvel
A indústria automóvel, que nos últimos anos tem lutado para estabilizar as suas cadeias logísticas, enfrenta agora um novo cenário de rutura devido ao conflito no Irão. O impacto vai muito além do custo dos combustíveis: Ormuz é a fonte de matérias-primas fundamentais para a produção de veículos.
Materiais como os polímeros são essenciais para a produção de componentes automóveis: painéis, isolamentos térmicos e para-choques. Com o fluxo de fornecimento interrompido, os construtores prevêem uma escassez de matérias-primas que pode levar a paragens forçadas em linhas de montagem na Europa e na Ásia já nas próximas semanas.
Por sua vez, o disparo do preço do GNL na Europa e a ameaça ao fornecimento de alumínio aumentam drasticamente os custos de fabrico, que já estão sobre pressão devido a custos tarifários. Os custos de transporte também correm o risco de aumentar. Com o tráfego marítimo no Estreito reduzido em quase 70% nesta semana, as refinarias na Ásia já começam a procurar alternativas, mas que vão encarecer o transporte marítimo em todo o mundo.
O mercado financeiro já reflete este pessimismo: as ações do setor automóvel são as que estavam a perder mais valor ontem, com quedas superiores a 4%. Sem uma previsão próxima de cessar-fogo e com o presidente dos EUA, Donald Trump, a declarar que a ofensiva continuará “o tempo que for necessário” — projetando-se um conflito de, pelo menos, quatro a cinco semanas — a indústria prepara-se para um dos trimestres mais difíceis desta década.





