Comentário do Presidente da AFIA ao Expresso sobre as Exportações

Empresas portuguesas reforçam exportações para a Alemanha e redescobrem Angola

in Expresso, por Margarida Cardoso e Sónia M. Lourenço, 12-02-2026


As exportações portuguesas de bens sobreviveram às tensões geopolíticas e ao novo mundo das tarifas adua­neiras, espoletado pela Administração Trump nos Estados Unidos da América (EUA), uma vez que tiveram um ligeiro crescimento de 0,5% em 2025 face a 2024, atingindo os €79,3 mil milhões, um valor recorde em termos nominais (sem descontar o impacto da inflação). Ainda assim, o défice comercial agravou-se para €32,1 mil milhões. Mas uma análise detalhada dos números publicados esta semana pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) mostra comportamentos diferenciados ao nível de mercados e de produtos.

O destaque negativo vai para os EUA, com um recuo de 13,4% nas exportações devido não só à política protecionista do seu Presidente, Donald Trump, mas também à paragem de operações da refinaria de Sines, que levou a forte quebra nas vendas de produtos petrolíferos. Depois, já muito associado ao aumento das tarifas aduaneiras, há quebras nas vendas de instrumentos e aparelhos, bem como de metais comuns e suas obras. Os EUA mantiveram-se como quarto destino das exportações lusas de bens ao exterior, mas perderam relevância: 5,8% do total em 2025, face a 6,7% em 2024.

Em sentido contrário, o protagonismo é da Alemanha, a reforçar o papel de segundo maior mercado das exportações portuguesas de bens — atrás de Espanha —, valendo quase 14% do total. Apesar da falta de dinamismo da economia germânica, as exportações portuguesas cresceram 14,5% em 2025, puxadas pelos produtos das indústrias químicas e conexas, designadamente a farmacêutica, que quase duplicaram, para €2,5 mil milhões. Nota ainda para o crescimento das exportações de máquinas e aparelhos.

No caso da metalurgia, que fecha o ano com um recorde de €24,2 mil milhões e quatro meses nos dez melhores de sempre, o vice-presidente da associação sectorial AIMMAP, Rafael Campos Pereira, salienta precisamente o caso alemão: “Estamos a impor-nos como parceiros fiáveis e, apesar de a Alemanha estar a comprar menos em termos gerais, está a comprar mais aos portugueses. Isso diz muito do que estamos a conseguir fazer.”

Destaque ainda para Angola. Depois de uma ‘travessia do deserto’, o país foi ‘redescoberto’ pelas empresas exportadoras lusas e regressou ao top 10 dos principais mercados, com as exportações a crescerem 6,1% sob o impulso de sectores como a metalomecânica ou a indústria alimentar e bebidas, designadamente o vinho, que vai juntar o país ao seu programa de promoção internacional (ver texto ao lado).

O impulso dos medicamentos

“O essencial é continuar a trabalhar sem esmorecer”, assume Deolinda Silva, diretora-executiva da PortugalFoods, onde a aposta é procurar novos mercados sem descurar alvos com os EUA, “onde as empresas continuam a acreditar”, o Brasil, “agora com interesse acrescido devido ao acordo do Mercosul”, ou a Alemanha, com “um cabaz alimentar contido, mas oportunidades interessantes no segmento premium”. E, a par do azeite, do vinho, das frutas e legumes ou do peixe, “Portugal está a ganhar quota na padaria e pastelaria, que já é muito mais do que o pastel de nata”, refere.

Numa análise por tipos de bens, a liderança em 2025 continua a pertencer às máquinas e aparelhos, com um crescimento de 5,9% e uma quota de 15,6%. Mas o grande destaque vai para as indústrias químicas, medicamentos incluídos, que viram as exportações crescer quase 25% e subirem do quinto para o terceiro lugar no ranking nacional.

“A preocupação da Europa em garantir produtos farmacêuticos a mais baixo custo abriu oportunidades”, explica Augusto Mateus, economista e antigo ministro da Economia. Mas também “há um trabalho de consolidação de relações de confiança”, sublinha Joaquim Cunha, diretor-executivo do Health Cluster Portugal. “Há alguma volatilidade nestes circuitos, mas a Alemanha tem vindo a crescer e já ultrapassou os EUA como maior mercado da indústria farmacêutica no terceiro trimestre”, depois de mais um exercício recorde.

A metalurgia fecha 2025 com um recorde de €24,2 mil milhões nas exportações e quatro meses nos dez melhores de sempre

Pela negativa, as exportações de produtos minerais — com grande fatia dos produtos petrolíferos — recuaram 21,6%, o que fez o sector cair da terceira para a oitava posição entre os principais produtos vendidos ao exterior. A situação pode ser conjuntural, associada à paragem de operações na refinaria de Sines, mas é acompanhada por quebra noutros sectores, como as pastas de madeira ou papel (-6,5%) ou, em menor escala, os têxteis, que caíram 0,8%, para €5,49 mil milhões, e assumem, mais do que nunca, a diversificação como palavra de ordem.

“Sentimos muito a incerteza em alguns mercados, em especial nos EUA, onde perdemos 20% do negócio”, diz ao Expresso Xavier Leite, presidente executivo da Têxteis Penedo, uma empresa de Guimarães especializada em têxteis-lar que viu as vendas caírem 15% em 2025, para os €10 milhões, mas continua a lutar para ter nas exportações 99% do volume de negócios.

“Fica cada vez mais claro que temos de diversificar mercados. Fomos pela primeira vez fazer uma feira na Coreia do Sul e reforçámos contactos no Japão e já estamos a colher encomendas”, conta o empresário, também a avançar na China, no Vietname e na Índia, confian­te na sua “oferta diferenciada de gama alta”. “Sabemos que não vale a pena ir vender frigoríficos ao Polo Norte, mas acreditamos que ainda há muito mundo para explorar.”

Augusto Mateus argumenta que “persistem problemas estruturais no comércio internacional de bens de Portugal”, levando a “um grande défice”, já que o valor das importações supera largamente o das exportações. Até porque “muitos sectores industriais que mais se desenvolveram na exportação têm forte conteúdo importado, o que penaliza o saldo”. E aponta os casos do automóvel, da eletrónica e de partes das indústrias química e metalúrgica.

Recentrar as exportações

A reconfiguração das cadeias de valor globais aumenta os desafios para a exportação. Por exemplo, a indústria automóvel e de componentes tem grande peso nas vendas lusas, mas tem como principal destino a Europa, onde “o sector automóvel enfrenta grandes problemas, com a China a assumir a liderança no segmento mais dinâmico, que é o dos veículos elétricos”, frisa Augusto Mateus. “A produção europeia cai e as importações da China aumentam”, concorda José Couto, presidente da AFIA, a associação da indústria de componentes automóveis, depois de um ano em que viu as exportações caírem 4,8%, para €12,6 mil milhões, apesar de crescimentos a dois dígitos na Roménia, Marrocos e Turquia.

No que respeita a mercados, “há cada vez menos regras iguais para todos e mais regras bilaterais, o que significa maior fragmentação do comércio e dá vantagem às economias de maior dimensão”, alerta Augusto Mateus, notando que as oscilações cambiais ajudam a explicar o reforço do peso da União Europeia, apesar de as economias europeias serem pouco dinâmicas, o que limita o potencial de crescimento das exportações.

Por fim, “temos um modelo exportador excessivamente centrado na fábrica. Devia estar mais focado em design, marcas, serviços associados às vendas, lojas físicas e digitais, para chegar a uma procura mais sofisticada com mais valor acrescentado”. Mas para isso, remata, “precisamos de reformas e incentivos muito mais direcionados”.


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