No dia em que se soube que a BMW tem planos para reduzir quase em metade o número de trabalhadores, o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), José Couto, afirma que redução da escala desta indústria na Europa pode levar a despedimentos dos produtores de peças em Portugal. Espanha e Alemanha são os principais mercados.
A profunda crise que a indústria automóvel na Europa está a viver já está a ter como consequência um choque brutal em termos de emprego que pode chegar também a Portugal. É o que pensa o presidente da associação de fabricantes para a indústria automóvel, a AFIA, José Couto, que estima que a curto prazo possa também haver despedimentos no país.
“Sabemos que as encomendas estão a diminuir, que há um ambiente propício para encolher a atividade produtiva em Portugal e é o resultado dos seus clientes estarem a diminuir a atividade. Portanto, vamos ter seguramente uma diminuição do número de trabalhadores neste setor dos fabricantes da indústria automóvel”, afirma José Couto à Renascença.
O presidente da AFIA recorda que os fabricantes de componentes nacionais estão muito dependentes com o mercado europeu. “Espanha e Alemanha são os dois principais mercados, representam quase 50% do mercado e uma queda nos principais clientes terá um efeito negativo sobre a economia nacional e sobre a atividade destas empresas”, explica.
Esta quarta-feira, soube-se que a BMW vai propor a saída voluntária de metade da força laboral. Este mês a Volkswagen também já tinha anunciado a saída de milhares de trabalhadores.
Crise pode levar a até um milhão de despedimentos na Europa
Só nestes dois fabricantes podem estar em causa 140 mil postos de trabalho. “Esta diminuição da atividade da BMW e de outras empresas significará um revés importante para a indústria automóvel europeia”, afirma Couto, que estima que dos 13 milhões de trabalhadores do setor a nível europeu entre 750 mil e um milhão possam perder o trabalho nos próximos anos.
Notícias recentes mostram que também a Mercedes e o grupo Stellantis (Peugeot e Citröen) não ficam de fora deste emagrecimento da indústria automóvel europeia.
As quebras de vendas generalizadas no mercado chinês, importante para estas marcas europeias, e onde a competição se tornou férrea, ajudam a explicar este cenário de queda. Couto refere a China como um travão para a indústria europeia.
“O crescimento do mercado chinês obviamente que tem um efeito sobre este efeito sobre a queda no mercado europeu, sobretudo porque há uma perda de quota para os construtores nacionais na China e também há o crescimento da procura de veículos chineses na Europa”, acrescenta o presidente da associação de fabricantes.
“Não nos podemos esquecer que a quota de mercado de veículos chineses neste momento já está acima de 10% na Europa e, portanto, tem efeitos muito perversos sobre a atividade automóvel na Europa”, concretiza.
Indústria em transformação e ebulição
Já o presidente da ACAP, Associação Automóvel de Portugal, Hélder Barata Pedro, em declarações à Renascença, começa por dizer que a indústria automóvel europeia está, como é conhecido, a passar por um progresso de grande transformação. Uma situação que se arrasta devido a vários fatores: a pandemia e a crise dos semicondutores, na altura, com a rutura das cadeias de abastecimento.
“Viu-se a dependência que a indústria europeia tem, e concretamente a indústria automóvel, das cadeias de valor que estão ao Oriente, sobretudo na Ásia, incluindo o Sudeste Asiático”, reflete, concluindo que essa crise, está a repercutir-se, neste momento, “com grandes reestruturações ao nível de alguns grupos da indústria automóvel, que estão a reposicionar a sua produção”.
Para Barata Pedro, há ainda outros fatores a pressionar negativamente esta indústria como a presidência americana e a política de tarifas “que tem criado uma grande instabilidade”.
“Os Estados Unidos eram um grande mercado exportador da indústria automóvel da União Europeia, e essa política tarifária, que tem tido altos e baixos, digamos assim, criou também bastante instabilidade nos construtores europeus”, acrescenta.
José Couto sublinha ainda que as quebras de produção automóvel na Europa, “pela transversalidade com outros setores”, tem “grandes efeitos de arrasto a montante e a jusante”, o que significará um problema “para a indústria europeia e para Portugal”.
E os reflexos são já notórios com a BMW prepara-se para propor a saída voluntária a 40 mil trabalhadores na Alemanha, ou seja, quase metade do total. Até ao próximo ano, o construtor bávaro quer eliminar cerca de 8 mil postos de trabalho.
Fonte do grupo alemão revelou à agência de notícias AFP que cerca de 40 mil dos 85 mil funcionários da BMW na Alemanha receberão essas propostas a partir de outubro.
No início do mês, foi revelado que a BMW vendeu 1.156.742 veículos das marcas BMW, Mini e Rolls-Royce no primeiro semestre, menos 4,2% do que no mesmo período do ano anterior, penalizado pela quebra das vendas no mercado chinês.
A Volkswagen soube-se também a meio deste mês que aumentará o número de trabalhadores que serão dispensados. A Reuters avançou que além dos 50 mil postos de trabalho já conhecidos, que deverão ser cortados, outros 50 mil estarão a ser equacionados – devido a custos de competitividade calculados pela empresa, a rondar os 20%, num documento interno a que a agência noticiosa teve acesso.
Perante esse cenário, o presidente executivo, Oliver Blume refere que uma avaliação teórica aponta para a necessidade de eliminar mais 50 mil postos de trabalho, que se juntariam aos 50 mil cortes já acordados no grupo, incluindo nas marcas Volkswagen, Audi e Porsche.
“Estamos a avaliar, em todas as marcas, empresas e regiões, quantos ajustamentos são realmente necessários e viáveis”, afirma o responsável no documento.
Mercedes e Stellantis também em dificuldade
Mas também a Mercedes, segundo a agência Bloomberg, está a estudar como pode reduzir os custos para permanecer saudável e competitiva.
E, segundo, vai discutir estes cortes com representantes dos trabalhadores, para negociar medidas adicionais – a juntar aos acordos vigentes até 2034. Fora de equação está a possibilidade de fazer despedimentos obrigatórios na Alemanha – onde os funcionários estão protegidos através de acordos. O que não significa que não possam existir saídas voluntárias ou ajuste dos quadros em função da rotatividade (não preenchendo vagas que fiquem em aberto).
Britta Seeger, diretora de recursos humanos do fabricante, falou à Bloomberg: “Precisamos de avaliar se fizemos tudo dentro da Mercedes, dentro da Alemanha, para sermos mais competitivos contra os nossos rivais. Precisamos de garantir que a Alemanha faz tudo para ser um país competitivo”.
A meio de junho também, a Stellantis disse que vai dispensar 175 trabalhadores da sua fábrica em Madrid, até ao final do ano, mas sindicatos disseram que o futuro da fábrica de Villaverde está “garantido”, avançou a Europa Press.
O corte de pessoal, entre despedimentos e “layoff”, tem lugar depois de a dona de marcas como a Citroën, Peugeot, Fiat e Opel ter revisto em baixa as previsões de produção e de ter considerado a diminuição esperada da carga de trabalho nos próximos anos, segundo confirmaram os sindicatos e a própria empresa à mesma publicação.
A Stellantis planeia abrir um programa de rescisões voluntárias ou negociadas com os trabalhadores, devendo os termos do processo ser apresentados a partir desta sexta-feira.
UE “não está parada”
O líder da ACAP diz que a UE não está parada a olhar para esta crise, e que a Comissão Europeia “em menos de seis meses” concretizou “dois projetos de regulamentação” que no final do ano passado deram origem ao “Pacote Automóvel Europeu”, que vem criar medidas para aquilo que é o retomar da soberania tecnológica da União Europeia.
“Recentemente também está em apreciação, irá ser votado no final de setembro no Parlamento Europeu e entrará em vigor presumivelmente no próximo ano, um novo regulamento cria o tal conceito do ‘Made in Europe’ entre os setores industriais, mas concretamente também na indústria automóvel”, acrescenta.
Em relação ao futuro, o presidente da AFIA, José Couto, diz que urge recuperar a competitividade da Europa para rapidamente “chegar ao nível dos nossos concorrentes”. Mas essa velocidade pode não ser tão rápida quanto seria desejável para a Europa.
“Em alguns casos, a queda da produtividade é tão grande comparativamente com os nossos concorrentes que poderá haver aqui um ‘delay’ entre aquilo que nós queremos e aquilo que temos hoje de quase de uma geração”.
E por isso termina a dizer que o plano de reindustrialização da Europa tem de ser entendido como um “verdadeiro designo para toda a economia”.
Só assim, poderá haver “uma supressão da dependência de todo o processo produtivo” da China em áreas como o automóvel, a indústria química ou a metalomecânica.
in Rádio Renascença, João Carlos Malta, 29-07-2026






