Conflito no Médio Oriente está a provocar uma escalada dos preços da energia, a atrasar encomendas e a aumentar os custos logísticos. Uma situação que está a deixar em alerta os empresários nacionais.
in ECO, por Patrícia Abreu, 20-03-2026
Com a guerra no Irão a bloquear quase na totalidade o transporte pelo Estreito de Ormuz, canal por onde passava antes do conflito cerca de 20% do petróleo consumido diariamente a nível global, além da escalada dos preços da energia, as empresas enfrentam agora custos logísticos mais elevados e atrasos na entrega de mercadorias. Constrangimentos operacionais que, caso se prolonguem, arriscam acentuar as dificuldades de algumas empresas, sobretudo de setores com margens mais reduzidas e de menor dimensão.
Depois de um primeiro impacto com maior expressão nos preços da energia — o petróleo chegou a escalar até valores próximos dos 120 dólares por barril — , o transporte marítimo de mercadorias, que já tinha sido fortemente afetado no final de 2023 e início de 2024 pelos ataques dos houthis no Mar Vermelho, volta a ser afetado e está a contribuir para agravar as dificuldades das empresas.Segundo avançou esta quarta-feira o Financial Times, as gigantes do transporte marítimo, como a CMA CGM, a Maersk, MSC ou a Hapag-Lloyd suspenderam encomendas e estão a redesenhar rotas, deixando os contentores nos portos disponíveis mais próximos, com os custos a serem suportados pelos clientes. Ao mesmo tempo, as taxas de transporte de contentores quadruplicaram em algumas rotas, devido aos custos do seguro contra riscos de guerra e às sobretaxas de combustível.
“A escalada já está a provocar perturbações assinaláveis, sobretudo pela instabilidade no Golfo e no Estreito de Ormuz”, reconhece Mário de Sousa, CEO da Portocargo. “Os armadores estão a aplicar sobretaxas de risco e emergência, somadas ao forte aumento do custo do fuel. O resultado é claro: os fretes marítimos estão a subir quase diariamente, com menor previsibilidade operacional e maior pressão sobre transit times“, explica. “As empresas estão a pagar mais para receber mais tarde, com impacto direto na gestão de supply chain, necessidade de maior stock de segurança e pressão sobre margens”, acrescenta o CEO da Portocargo.
Face aos constrangimentos na região, a Portocargo está “a atuar em três frentes: revisão de rotas e utilização de “gateways” alternativos, reforço do planeamento antecipado com clientes e fornecedores, e maior monitorização de custos e riscos”. Em paralelo, a operadora está “a recorrer a soluções multimodais sempre que viável e a ajustar estratégias de aprovisionamento para reduzir exposição a zonas críticas”.
Tal como aconteceu no Mar Vermelho, Mário de Sousa avisa que “uma guerra prolongada pode obrigar a desvios estruturais de rota”, com aumento significativo de prazos de entrega, custos operacionais e pressão sobre a disponibilidade de capacidade. “No caso do Golfo, o impacto pode ser ainda mais profundo devido ao peso estratégico da região na energia e nas matérias-primas”, destaca.
Mas, ao contrário do que aconteceu com os ataques dos houthis, o conflito no Médio Oriente está também a afetar o transporte aéreo. Segundo explica o mesmo responsável, “no transporte aéreo, a situação é particularmente sensível: a redução ou suspensão de operações de companhias do Médio Oriente, como a Emirates, Qatar Airways e Etihad, está a retirar capacidade crítica ao corredor Ásia–Europa. Como estas companhias têm um papel estruturante nesse eixo, a sua ausência está a provocar aumentos de custos muito significativos e a dificultar o reabastecimento da Europa, incluindo Portugal”.
“Em resumo, estamos perante um choque logístico com impacto transversal. O aumento dos custos de transporte marítimo e aéreo, combinado com a menor previsibilidade, está a pressionar as cadeias de abastecimento e a contribuir para uma subida generalizada dos preços, com impacto direto na inflação”, remata o CEO da Portocargo.
“Além dos efeitos mais imediatos associados ao aumento dos preços da energia, começam já a ser visíveis impactos ao nível logístico. Após duas semanas de conflito, as empresas enfrentam constrangimentos acrescidos“, lamenta Luís Miguel Ribeiro.
O presidente da AEP reconhece que “a instabilidade em rotas comerciais estratégicas, nomeadamente no Estreito de Ormuz, tem vindo a afetar o comércio internacional, contribuindo para o encarecimento dos fretes e para atrasos na entrega de mercadorias”. “Estes fatores traduzem-se em dificuldades operacionais adicionais para as empresas, que tenderão a intensificar-se à medida que o conflito se prolongar, agravando a incerteza e a pressão sobre a atividade económica”, avisa.
O responsável admite que, “caso este se prolongue e os efeitos sejam sentidos com mais intensidade, nomeadamente, nos custos de produção, é possível que as dificuldades de algumas empresas se acentuem, sobretudo em setores com margens mais reduzidas e entre as empresas de menor dimensão”.
Luís Miguel Ribeiro destaca que os setores mais afetados “tendem a ser os mais intensivos em energia e dependentes de cadeias de abastecimento internacionais, como a indústria transformadora, os transportes, entre outros”.
“Atendendo ao possível impacto deste conflito, o agravamento dos custos operacionais acabará, mais cedo ou mais tarde, por se refletir nos preços de venda, dependendo da capacidade de cada setor para absorver esses aumentos nas suas margens”, realça, pedindo ao Governo que “adote uma resposta ágil e eficaz, reforçando a resiliência do tecido empresarial face a choques exógenos desta natureza”.
Aurélio Caldeira, diretor-geral da ANIMEE – Associação Portuguesa das Empresas do Setor Elétrico e Eletrónico, destaca que “o agravamento do conflito no Médio Oriente introduziu uma nova camada de volatilidade e incerteza num panorama macroeconómico que já estava a braços com pressões tarifárias e inflacionistas e disrupções de supply chain”, notando que “desde a crise pandémica de 2020 que as empresas vivem num ciclo contínuo de choque e adaptação”.
O representante do setor elétrico e eletrónico, que inclui gigantes como a Bosch, aponta que “as reservas estratégicas mobilizadas pelos governos europeus — embora necessárias no imediato — são paliativas” e “se o conflito se prolongar, as cadeias de abastecimento serão severamente testadas e as soluções de curto prazo rapidamente esgotar-se-ão, expondo fragilidades estruturais com impacto direto na competitividade da economia europeia e portuguesa”.
Aurélio Caldeira refere que a crescente fragmentação logística global está a reconfigurar as cadeias de valor. “As consequências são tangíveis: os prazos de entrega tornam-se imprevisíveis, aumento nos custos de transporte e dos prémios de seguro de carga, e aumento das necessidades de working capital das empresas, que precisam de gerir stocks de segurança mais elevados”.
A este cenário, diz, “soma-se a tensão sobre matérias-primas e componentes críticos, que tende a amplificar a volatilidade dos custos de produção e a criar constrangimentos operacionais adicionais num setor altamente integrado e exposto a cadeias de abastecimento globais, como é o nosso”. Uma disrupção que está a “obrigar a uma redefinição das estratégias de sourcing e a um reforço das políticas de gestão de risco ao longo de toda a cadeia de valor”.
Num cenário de conflito prolongado, a absorção do aumento de custos “torna-se insustentável e a repercussão nos preços é a única opção — o que pressionará as margens num setor altamente exposto à concorrência internacional”, atira.
José Couto, presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, é outro dos representantes setoriais que está acompanhar a situação atual com grande preocupação. Em termos de impacto na indústria, José Couto fala, para já, em “alguns reflexos, ainda ligeiros”, mas diz que o efeito nos preços, “que vai refletir-se no aumento dos combustíveis”, vai ter impacto em diversas dimensões.
“Há um efeito transversal [da crise] desde as matérias-primas até à logística. De forma geral é toda uma complexidade dos efeitos que ainda não podemos aferir”, reconhece o representante da indústria de componentes. “Se não se vislumbrar o final da guerra e a reposição do abastecimento de petróleo vai haver um aumento em tudo o que é custo de energia”, acrescenta.
“Receio que haja um aumento do custo da energia, logística e das matérias-primas”, reforça.
Grandes exportadoras mantêm produção
Apesar de reconhecer grandes impactos nos custos, José Couto afasta impactos na produção da indústria. Questionadas pelo ECO, grandes as grandes construtoras automóveis no país também afastam, para já, efeitos na produção.
“O Grupo Volkswagen está muito preocupado com a situação na região. Esperamos que as hostilidades, que também afetam a população civil nos países atingidos, terminem em breve”, adiantou fonte oficial da fabricante automóvel alemã, que tem a Autoeuropa, em Palmela. “Estamos a avaliar continuamente a situação atual e os possíveis impactos na nossa empresa“, acrescentou a mesma fonte, adiantando que “atualmente não prevemos nenhum impacto na nossa produção“.
“Na fábrica de Mangualde as entregas estão a decorrer conforme o planeado, não se tendo verificado, até ao momento, qualquer impacto na produção“, disse ao ECO fonte oficial da Stellantis. Em respostas ao ECO, também na Bosch adiantou que, neste momento, a empresa está a “funcionar na normalidade”.





