“Se Espanha e Alemanha, onde colocamos 50% das nossas exportações, estão mal, nós sentimos esse impacto negativo obrigatoriamente”, diz José Couto, presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel. O dirigente associativo defende um ”reset total” da política industrial da Europa num cenário de “tempestade”
Na indústria automóvel, os 60 anos da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, são celebrados com um alerta: “Depois de passear indiferença relativamente aos competidores com alguma soberba, a Europa tem de ganhar fôlego e acelerar porque o atraso face aos EUA e à China é grande”, diz ao Expresso José Couto, presidente desta estrutura associativa.
“Na comparação com os Estados Unidos, por exemplo, estamos 20% abaixo na produtividade”, sublinha o dirigente associativo, para defender apostas na produção industrial, no conhecimento, na competência tecnológica da indústria de componentes, de forma a “potenciar o Made in Europa”.
No entanto, sublinha, isso pode demorar mais de uma geração e, no caso de Portugal, “nem depende só de nós”. “As nossas empresas são competitivas, têm um posicionamento interessante na União Europeia, mas não dependem apenas delas. Se Espanha e Alemanha, onde colocamos 50% das nossas exportações, estão mal, nós sentimos esse impacto negativo obrigatoriamente”, nota.
“Dificuldades acrescidas”
E se as exportações do sector caíram 6,9% no primeiro trimestre, para os €3,03 mil milhões, a quebra em Espanha foi de 9,9% e na Alemanha atingiu os 2,7%. “Isto significa que temos de nos reajustar num contexto desafiante, em que os nossos dois maiores mercados, com quotas de 28,1% e 22,5%, respetivamente, estão a baixar a atividade produtiva”, afirma José Couto, no dia em que a associação celebra o seu 60º aniversário.
A agravar este quadro, “há dificuldades acrescidas das marcas europeias no mercado norte-americano depois de a administração Trump ter subido as tarifas sobre as importações do sector automóvel para 25%. E há as “as alterações significativas dos processos de produção para responder à transição do motor de combustão para o motor elétrico”. “A procura de carros elétricos na Europa está a aumentar, mas quem está a cobrir parte disso é a China”, precisa José Couto.
“É assim que pela primeira vez, a União Europeia parece ter percebido que tem de adotar uma política protecionista face ao Made in Europa. Tem de privilegiar o que é produzido na Europa. Também temos de produzir. A Europa não pode ter apenas fábricas para montar automóveis”, diz.
20% do PIB até 2035
“O momento que vivemos é grave. Está em causa a competitividade da indústria automóvel no meio de grande perturbação dos mercados, num cenário de tempestade”, comenta José Couto, para defender “um reset total na política industrial da Europa”.
Na verdade, acredita, esse caminho já foi iniciado, “com a União Europeia a reconhecer a importância da indústria de componentes e a fazer um esforço para criar um quadro mais amigável que promova a tração industrial através da IAA (Lei de Aceleração Industrial)”, de forma a garantir que 60% dos veículos produzidos na Europa tenham 60% de componentes produzidos na Europa e que o peso da indústria transformadora no PIB da UE atinja os 20% até 2035”.
“Ainda vamos a tempo? Temos de trabalhar muito e as empresas precisam de apoio. Vai demorar pelo menos uma geração”, sustenta.
O pilar da segurança
Com uma nota de otimismo, aponta “Portugal como um país muito seguro, o que o favorece como território de acolhimento de investimento”. No entanto, reconhece “dificuldades logísticas decorrentes do facto de estamos longe do centro da Europa”. “Isso é algo que não tem apenas a ver com quilómetros. Representa um problema de competitividade pelos custos do transporte e é um problema acrescido no quadro da redução da pegada de carbono, o que torna cada vez mais importante a questão da ferrovia”, defende.
Para já, apesar da quebra de vendas e de produção dos produtores europeus, a indústria lusa de componentes mantém a sua quota na Europa, o que significa que “98% dos automóveis produzidos na UE têm pelo menos um componente fabricado em Portugal”, destaca.
Na atual conjuntura, José Couto acredita que manter as produções e vendas do sector no nível de 2025 “já seria bom”, apesar de o registo do ano passado ter ficado 4,9% abaixo de 2024, nos €11,8 mil milhões.
Apostar na Península Ibérica
A AFIA mantém a aposta na “afirmação da Península Ibérica como grande produtor automóvel, com Espanha no segundo lugar na Europa e Portugal entre os 10 maiores”, indica José Couto, decidido a avançar com a realização de uma cimeira ibérica do sector com a congénere espanhola.
Apontado como estratégico para a economia nacional, o sector automóvel representa cerca de 5% do PIB, mais de €14 mil milhões de volume de negócios anual, 62 mil empregos diretos e 15% das exportações nacionais de bens transacionáveis.
in Expresso, por Margarida Cardoso, 21-05-2026





