Artigo do Presidente da AFIA para a revista Portugalglobal

Oportunidades para olhar o futuro

Por José Couto, Presidente da AFIA

in Revista Portugalglobal, abril 2025


A produção nacional de componentes para a Indústria Automóvel tem um percurso de assinalável êxito. As empresas cresceram, tornaram-se competitivas e focaram-se no mercado europeu. A vocação deste cluster é claramente exportadora, o que impõe escolher um caminho onde permanentemente se têm de comparar com os melhores.

A indústria automóvel está a atravessar momentos de grande turbulência, de alteração de pressupostos e de um novo paradigma económico e social, que resulta da conjugação de vários fatores e de novos princípios de vida que visam inverter a destruição do ambiente. Trata-se de uma enormidade em termos de mudança, com dificuldades que promovem conflitos, desde logo os relacionados com a situação geopolítica mundial e destruição das regras do comércio internacional.

Os países e os blocos fizeram contas e diagnosticaram o que valiam e quais eram as fragilidades. No caso europeu, após um estado de letargia, assistimos a um abruto despertar, quer por força do que resultou da perturbação gerada pela pandemia, quer por consequência de uma guerra que potencia a possibilidade de agressão ao espaço da Europa. Ao que temos de adicionar o comportamento de uma nova ameaçante potência económica, que pretende continuar a ser líder na produção de veículos automóveis, e do desespero da velha economia americana que pretende fugir a regras ambientais.

Sem qualquer esforço observamos que está a alterar-se a utilização quotidiana do automóvel e a sua utilidade enquanto bem, mas também se verifica uma transição estrutural da produção automóvel. O posicionamento dos consumidores e da opinião pública em geral relativamente ao automóvel alterou-se e é irreversível, o que tem efeitos sobre o consumo e a produção. Portanto, são vários os fatores determinantes da mudança nesta indústria e a velocidade dos acontecimentos é caustica para um tradicional planeamento de investimentos, sobretudo a médio prazo. A única premissa que é absolutamente partilhada por todos os participantes no jogo é que a competitividade tem de estar presente, é incontornável porque não nos podemos atrasar mais relativamente aos competidores da Europa.

Em termos geopolíticos, e ainda em contexto de recuperação dos efeitos da pandemia – afinal passaram cinco anos –, a indústria ressente-se de uma economia em fragmentação, com a Europa assolada por conflitos que a levam para labirintos de governabilidade na assunção de políticas económicas a 27, com os EUA a erguer barreiras protecionistas ao comércio e com o desfazer do modelo de globalização assente na Ásia, em particular na China.

Nada disto é conceptualmente novo, muitos o avisaram, mas os decisores mostraram-se surpreendidos com a disrupção nas cadeias de abastecimento, que resultaram da pandemia e de outros acontecimentos recentes, que influíram no aumento de preço de matérias-primas, energia e transporte, o que fez aumentar o nível de imprevisibilidade dos mercados.

No que respeita à transição estrutural da produção temos, por um lado, o desafio da transição verde imposto pela descarbonização e, por outro, a vertigem da transição digital decorrente dos avanços tecnológicos acelerados. No contexto europeu, o campo de jogo da indústria automóvel está claramente em cheque, com a Europa a perder vapor para os restantes blocos concorrentes, fruto de um quadro regulatório altamente condicionante, bem como de um nível produtividade abaixo do necessário, o que afeta a competitividade do setor.

Os alarmes dispararam em Bruxelas, as associações representativas do cluster da indústria automóvel mostraram a evidência e a Comissão Europeia (CE) parece ter acordado para uma realidade que se impõe: “too big to fail”. Efetivamente, estamos a falar de uma indústria demasiado importante para a Europa, que emprega mais de 13 milhões de trabalhadores, representa 7,5 por cento do PIB da zona euro, que é um dos maiores contribuidores para o processo de investigação e desenvolvimento (I&D) e tem uma enorme capacidade de arrasto sobre vários outros setores de atividade.

O recém-publicado Plano de Ação Industrial para o Setor Automóvel Europeu dá os primeiros passos no sentido de fortalecer a competitividade da indústria numa conjuntura extremamente crítica para os fornecedores europeus deste setor. É muito positiva esta abertura da CE. A Europa esteve enredada numa miríade de supostas boas razões que a envolveram na letargia, e enquanto os seus concorrentes se fortaleceram, a Europa foi perdendo terreno e a indústria automóvel viu-se amarrada a uma regulamentação muito restritiva e refém da obsolescência em várias dimensões de um modelo de negócio que nos atirou para um cenário de custos elevados, diminuição dos valores da produtividade e desindustrialização.

Duas medidas de contingência para travar a exposição a concorrentes são o apoio à fabricação de baterias e o desenvolvimento e registo de patentes no espaço da União Europeia (UE). Mas o plano de ação é mais do que isso, está alicerçado em cinco vetores fundamentais: Inovação/Digitalização; Mobilidade Verde; Competitividade e resiliência da cadeia de fornecimento; Capacitação / transformação social e Equidade, acesso ao mercado e segurança económica.

O plano não responde à questão crucial que se coloca para manter a competitividade e o emprego, uma vez que apenas convoca o elétrico para a transição verde, deixando de fora outras tecnologias competitivas de mobilidade limpa. Uma das medidas fundamentais seria a Comissão Europeia assumir a neutralidade tecnológica na transição para a mobilidade verde, ou seja, adotar uma carteira diversificada de alternativas tecnológicas igualmente sustentáveis para além do elétrico, entre elas os híbridos plug-in (PHEV), os extensores de autonomia, o hidrogénio e os combustíveis renováveis. Estas alternativas deveriam ter um papel claro e duradouro enquanto tecnologias de mobilidade limpa que complementem a eletrificação até 2035.

Um desempenho acima da média europeia

A indústria portuguesa de componentes automóveis está dependente dos grandes centros de produção automóvel da Europa, dos construtores e dos fornecedores de primeira linha, para onde exporta a maior parte da sua produção. Por isso, todas as medidas que beneficiem a competitividade da Europa também serão benéficas para as empresas portuguesas. Este setor nacional tem revelado um desempenho acima da produção automóvel na Europa. Nos últimos anos cresceu a uma taxa de 4 por cento ao ano, o que compara com um decréscimo médio anual de 8 por cento da produção automóvel na Europa. Esta performance só é possível pela teimosia das empresas e seus dirigentes, afirmando a competência e fiabilidade junto dos clientes. Refira-se que 98 por cento dos modelos automóveis produzidos na Europa têm pelo menos um componente fabricado em Portugal, o que traduz um posicionamento competitivo e um track record que demonstra sucesso.

Esta indústria agrega cerca de 360 empresas de capital nacional e internacional que fornece direta e indiretamente os construtores, emprega 64 mil trabalhadores e tem um volume de negócios de cerca de 15 mil milhões de euros. É uma indústria que oferece soluções e contribui para a cadeia de valor do produto automóvel.

A indústria de componentes atingiu um patamar onde já não é o custo de mão-de-obra que faz a diferença, é a capacidade de responder aos desafios propostos pelo cliente que permite ser reconhecida e competitiva. Porque queremos estar entre os que vão construir a mobilidade do futuro, inteligente e com baixas emissões de carbono. Porém, uma das preocupações reside na capacidade de as empresas nacionais se manterem capazes de competir com as suas congéneres, continuarem a manter a dimensão diferenciadora nos clientes e ganharem quota de mercado. Para isso, não há alternativa senão um investimento permanente nos fatores de modernidade que conduzem à competitividade.

A indústria automóvel tem uma relevância importante para a economia de Portugal, devido à sua capacidade de exportação, à criação de empregos qualificados, ao valor acrescentado e ao efeito catalisador noutros setores, nomeadamente enquanto motor da capacidade competitiva do ecossistema científico. Por isso, é fundamental estabelecer um quadro estratégico que acolha o que deve ser feito e garanta o investimento privado e público, porque será necessária uma transformação cuidadosamente gerida para alcançar com sucesso a descarbonização e a digitalização da economia.

Apesar de se ressentirem com esta crise, os fabricantes nacionais de componentes estão ao nível do melhor que se faz no mundo e, por conseguinte, estarão preparados para as exigências de mudança que implica este paradigma de transição. Portugal está no radar de grandes investimentos como é o caso da unidade de produção de baterias a instalar-se em Sines ou a recente decisão de fabricar o novo modelo elétrico ID.Every1 da VW na Autoeuropa em Palmela. Não podemos deixar de referir que a Indústria de Componentes Nacional espera que o governo português reaja em conformidade com as políticas de apoio referidas pela CE, para que não fiquemos atrás dos nossos concorrentes, e para que possamos manter a trajetória de fortalecimento da competitividade das nossas empresas.

No final deste ano a AFIA irá refletir sobre o momento porque passa a indústria automóvel e, em paralelo, mostrar como evoluímos, os avanços tecnológicos das nossas empresas e o que conseguimos fazer para estarmos na pole position, mostrando as melhores soluções. Mas a aferição da competitividade não passa apenas pelas empresas. É necessário mostrar que o país também tem soluções de acolhimento e catalisadoras de competitividade. É a indústria nacional que tem de aproveitar a oportunidade que nos levará ao futuro.


Últimos Artigos

  • All Posts
  • _Artigos de Opinião
  • _Destaques
  • 10ENCAFIAFOTO
  • ABRANTES
  • ABRASIVOS
  • ACEA
  • ACTIVIDADE
  • AFIA
  • AFIAATIV
  • AFIACOMSOCIAL
  • AFIANOTAIMPR
  • AFTERMARKET
  • AGÊNCIA
  • AGI
  • ÁGUEDA
  • AICEP
  • AIRBAGS
  • AIW
  • ALANTRA
  • ALEMANHA
  • ALUDEC
  • AMICA
  • AMKOR
  • AMT
  • ANGOLA
  • ANI
  • ANTICORRUPÇÃO
  • ARGANIL
  • AUTOEUROPA
  • AUTOFORM
  • Automotive Industry
  • AUTOREVISTA
  • AVEIRO
  • BATERIAS
  • BBC
  • BEN
  • BENJAMIN KRIEGER
  • BMW
  • BORGSTENA
  • BOSCH
  • Bosch Mobility Aftermarket
  • Bosch Service Solutions
  • BRAGA
  • BYD
  • CACIA
  • CAETANO COATINGS
  • CALB
  • CALIXARENOS
  • CARLOS TAVARES
  • CCILF
  • CEIIA
  • CENTI
  • CENTIMFE
  • CHINA
  • CHIPS
  • CHIPS ACT
  • CHIPSNEWS
  • CIE AUTOMOTIVE
  • CIP
  • CITROËN
  • CLEPA
  • CLEPA
  • CNN
  • CNN PORTUGAL
  • COCHE GLOBAL
  • COMÉRCIO INTERNACIONAL
  • COMISSÃO EUROPEIA
  • COMPLIANCE
  • COMUNICADO DE IMPRENSA
  • CONTINENTAL
  • COPEFI
  • CORREIO DA BEIRA SERRA
  • CORREIO DA MANHÃ
  • DEFESA
  • DESCARBONIZAÇÃO
  • DGERT
  • DIÁLOGO
  • DOMINGOS PINTO
  • DS SMITH TECNICARTON
  • ECO
  • ELEIÇÕES
  • ELÉTRICOS
  • ELV
  • EPALFER
  • ESCAPES
  • ESG
  • ESPANHA
  • EUA
  • EURELECTRIC
  • EXACT SYSTEMS
  • EXPORTAÇÕES
  • EXPORTADORES
  • EXPRESSO
  • FÁBRICA
  • FAMALICÃO
  • FEINDEF
  • FERROVIA
  • FEUP
  • FIGUEIRA DA FOZ
  • FORMINGWORLD
  • FRANÇA
  • GREEN SAVERS
  • HELENA BRAGA
  • HI-REV
  • HORSE
  • HUF
  • IAPMEI
  • IBEROGESTÃO
  • IBEROMOLDES
  • ID. BUZZ
  • ID. EVERY 1
  • IFEMA
  • IMEGUISA
  • IMPREASSOC
  • INDASA
  • Indústria Automóvel
  • INE
  • INFRAESTRUTURA
  • INOVAÇÃO
  • INTELIGENTE
  • INTEREMPRESAS
  • International Federation of Robotics
  • INVESTIMENTO
  • JAVIER GONZÁLEZ PAREJA
  • JORGE CASTRO
  • JORNAL DE NEGÓCIOS
  • JOSÉ COUTO
  • JOSÉ PORTILLA
  • KOPPTEC
  • LA TRIBUNA DE AUTOMOCIÓN
  • LEAPMOTOR
  • LÍDER MAGAZINE
  • LINARES
  • LIXAGEM
  • LOGÍSTICA MODERNA
  • LUSA
  • LUZA GROUP
  • MADRID
  • MAIA
  • MANGUALDE
  • MARINHA GRANDE
  • MARROCOS
  • MAXIPLÁS
  • MD GROUP
  • MEGATECH
  • MIGUEL PINTO
  • MOBILIDADE
  • MOBINOV
  • MODELO
  • MOLDES
  • MOLDOESTE
  • MOLDPLAS
  • Morocco World News
  • MOTORTEC
  • MÚCIO BRASILEIR
  • MÚCIO BRASILEIRO
  • NAVARRA
  • NOINDAUMUN
  • NOTICASSOC
  • Notícias
  • O JORNAL ECONÓMICO
  • OBSERVADOR
  • OKE TILLNER
  • OLIVEIRA DE AZEMÉIS
  • OPTIMAL GROUP
  • OUNOINAUPT
  • OUTARTINT
  • PACOTE AUTOMÓVEL
  • PALMELA
  • PECOL
  • PIEP
  • PLÁSTICOS
  • POLESTAR
  • POLÓNIA
  • POLUIÇÃO
  • PORTO CANAL
  • PORTUGALGLOBAL
  • Press-Release
  • PRODUÇÃO
  • PRR
  • PULSE CHECK
  • RÁDIO RENASCENÇA
  • RAZÃO AUTOMÓVEL
  • RENAULT
  • RESULTADOS
  • SAPA
  • SDV
  • Sem categoria
  • SEMICONDUTORES
  • SERNAUTO
  • SÉRVIA
  • SIC
  • SIGRID DE VRIES
  • SIMOLDES
  • SIMOLDES PLÁSTICOS
  • SINES
  • SODECIA
  • SOPLAST
  • SSAB
  • STELLANTIS
  • STELLANTIS MANGUALDE
  • SUNVIAUTO
  • SUSTENTABILIDADE
  • T-ROC
  • TÂNGER
  • TARIFAS
  • TARIFAS1
  • TECNICARTON
  • TMG
  • TSF
  • UNIÃO EUROPEIA
  • UNIVERSIDADE DE AVEIRO
  • UNIVERSIDADE DE COIMBRA
  • VALLADOLID
  • VDA
  • VEÍCULOS PESADOS
  • VENDAS
  • VENEPORTE
  • VFV
  • VIGO
  • VOLKSWAGEN
  • VOLVO
  • WELDNDT
  • ZARAGOZA
  • ZERO
  • ZF
  • ZF LIFETEC

Categorias de Artigos

ACPS

Localização

Edifício de Serviços da AEP
Av.ª Dr. António Macedo, n.º 196, 4450-617 – Leça da Palmeira

Lat: 41º11’45.19″N  |  Long: 8º41’21.21″W

© 2026 Todos os direitos reservados | AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel | dev by DesignCorner

×