Artigo de Opinião "Indústria Automóvel: A Próxima Década"

É fundamental replicar, a nível nacional, a proposta da Presidente da Comissão Europeia, através da criação de um Observatório da Transição Justa para o Automóvel e a Mobilidade.

in ECO, artigo de opinião de Miguel Pinto, 17-07-2025


A indústria automóvel europeia encontra-se num ponto de viragem histórico. Durante décadas, foi símbolo de inovação, prosperidade e liderança tecnológica. Hoje, enfrenta uma transformação profunda, impulsionada por três grandes forças: eletrificação, digitalização e regionalização da produção. Estas mudanças estão a redesenhar o setor a uma velocidade sem precedentes, colocando em causa o papel da Europa na nova era da mobilidade. Portugal, com um ecossistema industrial consolidado, tem aqui uma oportunidade estratégica — mas o tempo para agir é limitado.

A eletrificação dos veículos, outrora uma tendência emergente, tornou-se uma exigência regulatória. A União Europeia determinou que, a partir de 2035, será proibida a venda de automóveis com motor de combustão interna. Em 2023, os veículos elétricos representaram já 21,8% das vendas globais, um salto significativo face aos 3,4% registados em 2019. Contudo, este crescimento tem sido liderado pela Ásia, particularmente pela China, que detém mais de 70% da capacidade global de produção de baterias e poderá controlar até 90% da refinação de lítio até 2030. Adicionalmente, os custos de produção de um veículo elétrico na China são até 30% inferiores aos da Europa, e o tempo de desenvolvimento de novos modelos é quatro vezes mais curto. Entre 2015 e 2023, os fabricantes chineses aumentaram a sua quota no mercado europeu de veículos eletrificados de 5% para quase 13%, enquanto os fabricantes europeus perderam mais de 13 pontos percentuais de quota global desde 2017.

Paralelamente, os Estados Unidos adotaram uma abordagem coordenada e estratégica. Através do Inflation Reduction Act, mobilizaram 270 mil milhões de dólares em incentivos fiscais e subsídios, promovendo a produção doméstica de veículos e baterias. Esta política atraiu investimento e reforçou a competitividade americana. A Europa, embora pioneira na regulação ambiental, continua a revelar fragilidades em termos de escala, coordenação e visão industrial. A ausência de uma política industrial comum, a fragmentação dos apoios nacionais e a morosidade dos processos de licenciamento dificultam uma resposta eficaz aos desafios emergentes.

Para além da transição energética, o automóvel está a tornar-se um produto digital sobre rodas. Conectividade, inteligência artificial, serviços digitais e atualizações remotas são já fatores críticos de diferenciação. No entanto, 63% dos consumidores preferem Apple CarPlay ou Android Auto aos sistemas nativos dos fabricantes, o que evidencia a dependência tecnológica da Europa e a fragmentação do seu ecossistema digital. A capacitação em software automóvel e eletrónica é, por isso, uma prioridade estratégica. A liderança no setor dependerá cada vez mais da capacidade de desenvolver plataformas digitais integradas, seguras e escaláveis.

Neste contexto, a mobilidade conectada e a condução autónoma assumem um papel crescente. Tecnologias como o V2X (Vehicle-to-Everything), que permitem a comunicação entre veículos, infraestruturas e redes energéticas, são essenciais para uma mobilidade mais segura, eficiente e sustentável. Contudo, a sua implementação requer investimentos robustos em redes 5G, sensores urbanos e normas de interoperabilidade. A condução autónoma, por seu lado, depende de infraestruturas digitais avançadas, mapas de alta definição e legislação adaptada. A Europa tem feito progressos, mas continua a enfrentar barreiras em termos de harmonização regulatória e financiamento. A criação de corredores de teste e zonas urbanas inteligentes será fundamental para acelerar estas tecnologias.

Na mobilidade pesada, a descarbonização exigirá soluções complementares à eletrificação. O hidrogénio — sob a forma de pilhas de combustível (FCEV) ou motores de combustão a hidrogénio (H2ICE) — está a emergir como uma alternativa viável. Estima-se que os FCEV representem 16% das vendas globais de veículos pesados até 2035. O hidrogénio verde, produzido a partir de fontes renováveis, representa uma oportunidade para reduzir a dependência energética externa e criar novas cadeias de valor industrial. Portugal, com um plano nacional de hidrogénio aprovado e vários projetos industriais em curso, está bem posicionado para se afirmar como fornecedor estratégico neste novo mercado.

Apesar disso, a Europa continua longe de garantir autonomia estratégica em áreas críticas como matérias-primas, semicondutores, software e baterias. A produção automóvel europeia mantém-se abaixo dos níveis pré-Covid e só deverá recuperar totalmente em 2028, enquanto a China prevê aumentar a sua produção de 29 para 33 milhões de unidades até 2030. Esta realidade exige uma reindustrialização coordenada, centrada na produção local, em cadeias de valor resilientes e em políticas públicas proativas. A criação de gigafábricas, o investimento em semicondutores e a qualificação da mão de obra são fundamentais para mitigar vulnerabilidades externas — especialmente num contexto em que a administração norte-americana propõe o aumento das tarifas sobre vários produtos fabricados na Europa e exportados para os Estados Unidos, uma medida que poderá lançar ainda mais instabilidade no comércio global de bens.

Reconhecendo esta necessidade, a Comissão Europeia apresentou recentemente um Plano de Ação ambicioso para revitalizar a indústria automóvel. Entre as principais medidas, destacam-se o investimento de 1,8 mil milhões de euros para garantir uma cadeia de fornecimento segura de matérias-primas críticas, a criação da Aliança Europeia para Veículos Conectados e Autónomos, e a mobilização de mil milhão de euros em parcerias público-privadas para promover a inovação em mobilidade inteligente. Adicionalmente, o plano propõe maior flexibilidade nas metas de CO2, incentivos à descarbonização das frotas empresariais, apoio direto à produção de baterias e reforço dos mecanismos de formação e reconversão profissional, com recurso ao Fundo Social Europeu e ao Fundo de Ajustamento à Globalização.

Neste contexto de profunda transformação, é fundamental reconhecer que Portugal apresenta uma elevada dependência económica do setor automóvel, sendo este responsável por uma parte significativa das exportações, do emprego industrial e do investimento estrangeiro direto. Perante os desafios estruturais que afetam a indústria — desde a eletrificação à digitalização, passando pela reorganização das cadeias de valor — torna-se imperativo garantir uma resposta coordenada, informada e orientada para o futuro.

Assim, é fundamental replicar, a nível nacional, a proposta da Presidente da Comissão Europeia, através da criação de um Observatório da Transição Justa para o Automóvel e a Mobilidade. Este organismo deverá assumir uma natureza institucional e multissetorial, integrando representantes de entidades públicas, do setor industrial, dos trabalhadores e das associações do setor.

Este Observatório poderá ter como ponto de partida o Observatório Automóvel, lançado em 2021 pela MOBINOV, AFIA e ACAP, que já funciona como uma plataforma nacional de análise, coordenação e antecipação dos impactos da transição na indústria automóvel e na mobilidade. A nova estrutura deverá reforçar e expandir esta missão, atuando como um centro estratégico de monitorização e planeamento das transformações estruturais em curso, assegurando que Portugal esteja preparado para gerir os desafios da transição e aproveitar, de forma inclusiva, estratégica e sustentável, as oportunidades emergentes.

Enquanto cluster do setor automóvel e da mobilidade, a MOBINOV manifesta total disponibilidade para colaborar ativamente na criação e operacionalização deste Observatório, contribuindo com conhecimento técnico, articulação setorial e capacidade de mobilização.

O cluster automóvel e da mobilidade não é apenas mais um setor económico — é um ativo geoestratégico, um motor de inovação e um pilar essencial da autonomia europeia. O que está em jogo é o posicionamento da Europa — e de Portugal — na nova geração da mobilidade.


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