José Couto | Presidente da direção da AFIA, Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel
Se a Europa quer incorporar mais produção europeia nos veículos que fabrica, então este é o momento de posicionar a nossa base industrial para ganhar escala
A Europa está a entrar numa nova fase. Durante anos, o debate industrial europeu foi dominado pela urgência climática e pela transição energética. Essa prioridade mantém-se. Mas hoje tornou-se claro que descarbonizar, por si só, não basta e é introduzida agora uma dimensão adicional. A Europa percebeu que precisa também de preservar a sua capacidade produtiva, reforçar a competitividade e reduzir dependências estratégicas.
É precisamente neste contexto que ganha relevância o Industrial Accelerator Act (IAA). O IAA não é apenas uma norma técnica, é o sinal de uma nova fase da política industrial e um sinal inequívoco de que a União Europeia quer voltar a produzir mais no seu território, fortalecer cadeias de valor europeias e orientar financiamento, investimento e contratação pública com vista a atingir esse objetivo. A “marca” Made in Europe está a transformar-se num critério industrial estratégico.
Para Portugal, e em particular para os fornecedores da indústria automóvel, esta mudança é altamente relevante, permitindo aumentar faseadamente a produção de componentes na Europa e a sua integração nos veículos produzidos em território europeu. A indústria de componentes integra cadeias de valor exigentes, exportadoras e tecnologicamente intensivas.
Se a Europa quer incorporar mais produção europeia nos veículos que fabrica, então este é o momento de posicionar a nossa base industrial para ganhar escala, captar investimento e reforçar integração nas cadeias de abastecimento.
A indústria de componentes para o automóvel é um dos vetores considerados estratégicos pelo IAA e o financiamento europeu terá isso em conta. Mas esta estratégia exige atitude, rapidez e condições adequadas de enquadramento. Exige financiamento alinhado com os objetivos europeus, infraestruturas competitivas, regulação de custos de energia, talento qualificado e estabilidade regulatória.
Exige também que Portugal alinhe os seus instrumentos públicos com esta nova orientação, para que as empresas nacionais possam responder com capacidade produtiva, inovação e ambição exportadora.
Portanto, na nossa visão, o essencial é simples: a transição verde e digital continuará a contar, mas passará a ser avaliada juntamente com a resiliência industrial, a intensidade tecnológica e a autonomia estratégica. Quem perceber esta mudança a tempo ficará melhor preparado e quem não a perceber arrisca-se a perder relevância.
Portugal tem indústria, competência e experiência para fazer parte desta nova etapa europeia. Só precisa de transformar essa capacidade em prioridade estratégica. No ano em que a AFIA (Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel) celebra 60 anos, reafirmamos o mesmo compromisso de sempre: contribuir para uma indústria automóvel mais competitiva, mais inovadora e mais preparada para o futuro.
A Europa está a acelerar e Portugal tem de estar pronto para a acompanhar.
in Expresso, 18-05-2026





