A Europa deve adiar a meta de 2035 do fim dos carros de combustão?

A crise no sector automóvel levou o chanceler Merz a pedir à UE que adie o prazo para proibir carros a combustão. O debate está relançado

in Expresso, 04-12-2025


A Europa deve adiar a meta de 2035 do fim dos carros de combustão?

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José Couto, AFIA

SIM

a indústria automóvel (construtores e fornecedores) continua empenhada na descarbonização, contudo atingir as metas de CO2, definidas para 2030 e 2035, já não é viável. Portanto, sim, devemos alterar essa meta, porque os pressupostos de partida foram exagerados e errados, não existindo, claramente, condições de manter o objetivo de 2035. O que se enquadra no processo de avaliação da UE que levará ao recalibrar dos objetivos da redução das emissões de dióxido de carbono.

A quota de mercado dos automóveis de passageiros elétricos na União Europeia é de 16,4% (2025). A adoção generalizada no mercado ainda não aconteceu. E não acontecerá, se no mínimo, não acelerarmos as infraestruturas e não baixarmos o custo total dos veículos. A indústria investiu milhões de euros na transformação das fábricas e na requalificação a mão de obra. Mas os Governos e as entidades reguladoras não investiram nem exigiram níveis suficientes de infraestruturas e de modernização das redes, e os incentivos continuaram a ser inconsistentes.

A diminuição da produção não pode ser a um ritmo que destrua a indústria europeia

Consequência: os objetivos regulamentares já não são exequíveis. A atual trajetória de redução das emissões de CO2 na mobilidade rodoviária deve ser recalibrada para garantir o cumprimento dos objetivos climáticos da UE, salvaguardando simultaneamente a competitividade industrial da Europa, a coesão social e a resiliência estratégica das suas cadeias de abastecimento. Por isso, não às metas. A diminuição progressiva da produção de veículos a combustão é imprescindível, mas não pode ser a um ritmo que destrua a indústria europeia e abra uma janela de oportunidade para outros que invadam o mercado, com soluções que são destorcidas em termos mercado e imponham soluções de concorrência incompatível com as regras europeias. Se a escolha dos consumidores por veículos com emissões (supostamente) zero for altamente influenciada pelo preço, então não teremos forma de vencer no imediato este gap entre a indústria europeia e o concorrente principal, a indústria chinesa. Logo, é necessário que a compra ou a utilização destes veículos seja mais atrativa do que a dos veículos com motores de combustão interna e que a escolha possa recair nos veículos produzidos pela indústria europeia. Para tal, são necessários incentivos consistentes à compra, uma tributação mais justa, custos de carregamento mais baixos e um acesso mais fácil às cidades. Ao mesmo tempo, a Europa deve acelerar a competitividade, infraestruturas de carregamento e de reabastecimento, modernizando simultaneamente as redes e reformando os mercados da energia para fazer baixar os preços da eletricidade. A questão é: terá a Europa capacidade de o fazer em tempo? Não, não tem. E não pode excluir a produção e utilização de veículos a combustão e partir para uma posição de produção única de veículos 100% elétricos.

  • Presidente da AFIA — Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel

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A Europa deve adiar a meta de 2035 do fim dos carros de combustão?

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Pedro Faria, UVE

NÃO

a flexibilização das metas europeias que determinam o fim da venda de veículos movidos a combustíveis fósseis em 2035 seria um erro estratégico que comprometeria a transição energética e a competitividade industrial da União Europeia. Mesmo que o ritmo de inovação da tecnologia elétrica abrande face ao crescimento excecional dos últimos anos — algo que nada indica — continuaremos plenamente preparados para abandonar os motores de combustão muito antes de 2035.

A meta foi definida após amplo debate técnico e político, oferecendo à indústria automóvel a previsibilidade necessária para orientar investimentos e acelerar a inovação. Alterá-la agora, criaria incerteza e prejudicaria a competitividade europeia face a regiões que avançam rapidamente na eletrificação. Do ponto de vista ambiental, prolongaria emissões, atrasaria metas climáticas essenciais e enfraqueceria a credibilidade da UE enquanto líder global em políticas de descarbonização.

Não existe motivo técnico, económico ou climático para rever as metas

Apostar em soluções de extensão de autonomia, combustíveis sintéticos ou biocombustíveis apenas prolonga a vida de tecnologias que não terão lugar no futuro. Os combustíveis sintéticos são caros, ineficientes e exigem enormes quantidades de energia renovável; os híbridos continuam a depender da combustão; e os biocombustíveis, em larga escala, competem com a produção alimentar. Todos desviam recursos da eletrificação, que é hoje a solução mais madura, escalável e alinhada com os objetivos de neutralidade carbónica. Qualquer tecnologia futura verdadeiramente zero emissões será naturalmente bem-vinda.

Do ponto de vista económico, flexibilizar as metas não criaria mais emprego nem facilitaria a adaptação dos fabricantes. Tecnicamente, também não se justifica: a mobilidade elétrica já responde atualmente às necessidades reais de utilização, desde veículos urbanos até camiões de longa distância, existindo soluções fiáveis para toda a gama de transportes terrestres. O reforço da infraestrutura de carregamento é necessário, mas isso não demonstra qualquer limitação tecnológica — trata-se apenas de planeamento.

A mensagem precisa de ser clara: acelerar, não abrandar. Dar sinais de retrocesso seria prejudicial para a inovação, para a indústria e para a credibilidade da União Europeia. Não existe qualquer motivo técnico, económico ou climático para rever as metas de 2035. A mobilidade elétrica está pronta hoje e pode ir ainda mais longe!

  • Presidente da UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos

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