Carlos Tavares, ex-diretor-executivo da Stellantis, deixou o seu aviso: “vai haver manifestações, pneus a queimar e paletes a arder”.
in Razão Automóvel, por Mariana Teles, 03-12-2025
Carlos Tavares, antigo diretor-executivo da Stellantis, voltou a criar ondas dentro da indústria automóvel europeia. No Millennium Portugal Exportador, realizado esta terça-feira no Europarque, em Santa Maria da Feira, o gestor português criticou duramente as políticas europeias para a indústria automóvel, considerando que a União Europeia (UE) cometeu um erro estratégico ao definir tecnologia em vez de objetivos.
“A Europa cometeu um erro gravíssimo, que foi decidir uma tecnologia em vez de decidir o objetivo. A intenção era baixar drasticamente as emissões, mas não se deve impor a tecnologia, deve-se impor uma regulamentação que é neutra em tecnologia para permitir às centenas de milhares de engenheiros desta indústria propor a solução que é a mais acessível, mais limpa e mais segura”, afirmou.
Segundo o gestor, esta escolha não só limitou a inovação europeia como também abriu espaço para os fabricantes chineses, que já estão neste domínio há mais de 20 anos. “É um caso de arrogância intelectual, que tem um custo enorme e no período de caos mais acentuado dessa indústria abriu-se a porta aos chineses… é um mecanismo fantástico para oferecer a indústria automóvel europeia aos chineses”, acrescentou.
Tavares alertou para um impacto concreto no mercado: “Com a aproximação dos construtores chineses vão conseguir rapidamente 10% da quota de mercado. Isto vai acontecer nos próximos cinco anos”. Para contextualizar, o gestor explicou que, num mercado europeu de 15 milhões de veículos, esta quota equivale a cerca de 1,5 milhões de carros — ou “dez fábricas de 150 mil veículos por ano”.
Tavares avisa para “pneus a queimar e paletes a arder”
O cenário, segundo Tavares, terá consequências sociais e políticas: “vão haver manifestações, pneus a queimar e paletes a arder. Vai haver um chinês a dizer que vai comprar (as fábricas) por um valor simbólico e ficar com empregos”. “A Europa vai dar a indústria automóvel aos chineses”, lamentou.
Perante este cenário, Tavares sublinhou a necessidade de ação europeia mais ampla e de consciência da população: “Não se pode dizer aos europeus que vamos protegê-los com a riqueza que estamos a criar. É preciso dizer às nossas populações que para protegermos o nosso nível de vida atual temos de estar na corrida”.
O gestor destacou que este esforço significa “trabalhar mais”, mas reconheceu que, dado que “provavelmente as nossas populações não vão aceitar trabalhar mais”, é necessário trabalhar “melhor”.
Sobre Portugal, Tavares defendeu que o país deve ter uma estratégia de longo prazo: “Se a Europa começa a estar em declínio, qual é o nosso interesse de ir a reboque de uma Europa em declínio? Temos de ser capazes de transformar o país pelo centro, com a certeza de que temos uma estratégia a 20 anos e tem de ser construída pelos partidos”.






