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Faltam 67 mil profissionais aos exportadores nacionais Imprimir E-mail

Metalurgia, têxteis, calçado, turismo, moldes e componentes da indústria automóvel têm dificuldade em contratar

in Expresso, por Cátia Mateus, 17-03-2018

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O sector do calçado é dos exportadores que enfrentam dificuldades de contratação
Fot:OCTÁVIO PASSOS

 

Em janeiro deste ano, as exportações nacionais cresceram 9,6% em termos homólogos, segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE). Uma variação positiva muito sustentada na dinâmica de indústrias como a da metalurgia e metalomecânica, têxteis, calçado, moldes, turismo ou dos componentes para a indústria automóvel. Mas esta dinâmica pode ser travada por um fator: a escassez de profissionais qualificados que afeta estas indústrias. O Expresso realizou uma ronda por estes seis sectores, que estão entre os líderes das exportações nacionais, e apurou que faltam, pelo menos, 67 mil profissionais qualificados. E o cenário tende a agravar-se.

“Socialmente, trabalhar nos serviços continua a ser muito mais bem visto do que trabalhar na Indústria. E esta questão cultural é o maior entrave à contratação. Maior do que a falta de profissionais. Esses podemos formar, assim tenhamos quem queira trabalhar na indústria.” É Paulo Vaz, director-geral da Associação Textil e Vestuário de Portugal (ATP), quem o afirma. Em 2017, as exportações do sector atingiram os €5,2 milhões, num crescimento de 4% face a 2016. Às empresas do sector faltam pelo menos 15 mil profissionais, avança Paulo Vaz.

As maiores necessidades são na área do vestuário, “em particular na confeção onde são necessárias muitas pessoas e onde é muito difícil contratar”. Paulo Vaz fala, por exemplo, de costureiras. Uma carreira que não atrai os mais jovens, mas que é o grande trunfo desta indústria e que, afirma, está longe de ser uma carreira sem futuro. “Substituir a confecção por tecnologia não será fácil, pelo que estes perfis são, e continuarão a ser, fundamentais ao sector”, explica. Na lista de dificuldades de contratação das empresas da fileira têxtil estão também perfis tecnológicos, engenheiros têxteis, designers, especialistas em inovação e técnicos de produção experientes.

Calçado também sofre

No calçado o cenário é idêntico. Há oito anos que as exportações do sector estão em crescimento. Aumentaram 55% desde 2010 e em 2017 bateram novo recorde: foram vendidos 84 milhões de pares de calçado para 152 países, nos cinco continentes. Tal como no sector têxtil, há dificuldades de contratação. “O crescimento muito rápido do sector esgotou a mão de obra disponível”, explica Paulo Gonçalves, porta-voz da associação dos industriais do calçado, a APICCAPS. Desde 2010, o sector contratou mais de 10 mil profissionais. Paulo Gonçalves tem dificuldade em contabilizar, a números atuais, quantos faltam hoje nas empresas, mas confirma a preocupação de “atrair uma nova geração de talento”, essencial para fazer face aos desafios da indústria 4.0.

A metalurgia e metalomecânica é um dos sectores exportadores com maiores dificuldades na captação de talento. Rafael Campos Ferreira, vice-presidente executivo da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), fala num défice de 28 mil profissionais qualificados. Em 2017, as exportações atingiram o recorde de €16,4 mil milhões. Um crescimento que pode estar ameaçado pela carência de talento em quase todas as áreas: “posições intermédias, como operadores de máquinas, soldadores especializados e torneiros mecânicos, são profissionais que simplesmente não temos disponíveis no mercado e para os quais há imensa procura”, explica defendendo que é fundamental “mostrar aos jovens e à comunidade, que a indústria é interessante para desenvolver uma carreira e é uma área com futuro”.

Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol (Associação Nacional da Indústria de Moldes), partilha a mesma visão. O sector emprega em Portugal 10.460 profissionais, num universo de 500 empresas, maioritariamente de pequena e média dimensão que alcançaram, em 2017, €675 milhões em exportação. O líder arrisca assumir que todas têm recrutamentos ativos. “Se tivermos em conta o universo do sector e pensarmos que cada empresa tem, pelo menos, uma vaga (e tem mais!), é fácil perceber que teremos entre 500 a mil oportunidades para preencher no imediato”, explica reconhecendo as dificuldades de contratação, sobretudo nas áreas mais técnicas (projecto, conceção de moldes e montagem). “O problema não passa pela existência de cursos nestas áreas, mas pelo facto dos alunos estarem longe destas carreiras e terem uma imagem distorcida da competitividade da indústria nacional”, desabafa.

Na fabricação de componentes para o sector automóvel, bateu-se em 2017 o recorde de exportações: €7,7 mil milhões. Os resultados reflectem o impacto do aumento da produção automóvel, mas Tomás Moreira, presidente da direcção da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), também reconhece o desafio que é atrair talento. Apesar das dificuldades, as 220 empresas do sector têm conseguido aumentar os seus quadros a um ritmo de 5% ao ano e empregam hoje 52 mil profissionais. O líder admite que venham a surgir este ano milhares de oportunidades no sector, em quase todas as áreas, mas sobretudo para quadros técnicos especializados, engenheiros e pessoal fabril. A automação, garante, não é uma alternativa às dificuldades de contratação. “Precisaremos sempre de profissionais qualificados para operar a tecnologia e isso coloca maior pressão numa das áreas onde é mais difícil recrutar: a dos perfis altamente qualificados. “Em fevereiro deste ano a associação admitia que até 2020 seriam necessários quase oito mil novos trabalhadores para o sector.

Turismo só recruta um quinto dos trabalhadores de que precisa

O turismo é o sector da moda, mas nem por isso escapa ao desafio de contratar. A última edição da Bolsa de Turismo de Lisboa, que decorreu este mês, deixou-o bem claro ao promover uma feira de emprego com 15 mil vagas em aberto. Necessidades de contratação imediatas que até ao final do ano deverão aumentar e em grande escala. Francisco Calheiros, presidente da Confederação de Turismo de Portugal, admite que “tendo em conta a actual realidade de crescimento contínuo do turismo, estimamos que sejam necessários 50 mil profissionais por ano e o sector apenas consegue contratar cerca de 10 mil”. Para o líder, “o turismo depara-se com várias dificuldades entre as quais a inexistência de pessoas disponíveis no mercado de trabalho e a incapacidade de resposta das escolas de formação”.