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Entrevista a Miguel Santos – Bosch Car Multimédia Imprimir E-mail

“A Inteligência Artificial e o machine learning serão cruciais para a condução autónoma”
A Bosch desenvolve novas tecnologias relacionadas com a condução autónoma, detendo o maior número de patentes na área. Segundo Miguel Santos, Diretor de I&D, a empresa investirá 300 milhões de euros em Inteligência Artificial até 2020.

in revista Auto Profissional nº 91, Janeiro-Fevereiro 2018

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Auto Profissional: Temas como a Condução Autónoma e a Inteligência Artificial ganharam um especial relevo na fronteira do conhecimento em 2017. No entanto a questão não é pacífica, pois ainda subsistem questões éticas como aumentar a segurança, confiança e aceitação da tecnologia. Na sua opinião, quais são os grandes desafios da condução autónoma?
Miguel Santos:
Um dos grandes objetivos da Bosch é contribuir para uma mobilidade livre de acidentes, stress e emissões, e acreditamos que este objetivo pode ser atingido com uma condução autónoma, conectada e eletrificada. Na realidade, a Bosch é hoje o fornecedor automóvel com o maior número de patentes na área da condução autónoma. Mas realmente ainda há uma série de desafios no caminho deste novo tipo de mobilidade, como as questões éticas, a aceitação do público, os custos de desenvolvimento da tecnologia, apenas para mencionar alguns.
Se pensarmos nos aspetos legais e na necessidade de harmonização entre países e regiões, é certo que estes vão trazer soluções técnicas customizadas e consequentemente mais complexidade. De qualquer forma, já estão a ser dados alguns passos importantes neste sentido, como a entrada em vigor da legislação que permite que as tecnologias de condução autónoma que transferem tarefas para o veículo sejam utilizadas, desde que estejam de acordo com o regulamento de veículos das Nações Unidas ou possam ser contrariadas ou interrompidas pelo condutor.
Outro desafio são os sensores necessários para a condução autónoma. Alguns já estão a ser produzidos em série, mas têm de ser integrados no sistema com algoritmos de fusão complexos. Além destes, há outros sensores, nomeadamente o LiDAR que, para já, só existem em pequenas séries de produção, com custos elevados e sem a precisão e o alcance necessários. Estes, ainda têm de ser desenvolvidos e industrializados, para a produção em massa com custos competitivos, o que ainda poderá levar alguns anos.

AP: Recentemente, a Honda seguiu a tendência de outros fabricantes da indústria automóvel, tendo assinado um acordo com a empresa SenseTime Group, sedeada na China, que detém fortes competências em inteligência artificial. O projeto combina a tecnologia de reconhecimento de objetos em movimento da SenseTime com os algoritmos de inteligência artificial da Honda. Em termos gerais, como comenta este acordo?
MS:
Num mundo conectado, são necessários modelos mais flexíveis de cooperação. Os fornecedores tradicionais “OEM” e “Tier-One” têm uma história longa e bem-sucedida no que toca a fazer produtos seguros e fiáveis. As “startups”, por outro lado, são excelentes na rápida adaptação às necessidades do mercado, lançando ideias disruptivas e desenvolvendo produtos e serviços com mais agilidade. Neste sentido, temos visto parcerias entre empresas tradicionais de software e da área automóvel: entre a Volvo e a Uber; a Volkswagen e a Get; ou a GM e a Lyft, em termos de conceito de mobilidade partilhada.
A própria Bosch continua comprometida com plataformas abertas e parcerias para além daquelas que já existem com empresas líderes e OEM. A colaboração com a Vodafone e a Huawei na tecnologia Cellular- V2X – que torna possível que os automóveis comuniquem entre si e com o que os rodeia através de telefonia móvel –, e com a Daimler para o parqueamento autónomo, são alguns exemplos das parcerias em que a Bosch está envolvida, essenciais para conseguirmos estar um passo à frente na definição da mobilidade do futuro.

AP: Para a Bosch, quais são os principais avanços da condução autónoma em termos globais?
MS:
As pessoas ainda são a maior causa dos acidentes rodoviários: cerca de 90 por cento podem ser atribuídos ao erro humano. Na Bosch, acreditamos que uma maior automação é essencial para a redução da frequência dos acidentes e, consequentemente, do número de mortes nas estradas. Por outro lado, a condução autónoma vai contribuir para a redução do trânsito nas estradas em até 80 por cento. Isto porque os veículos autónomos poderão conduzir a uma distância mais curta em relação ao veículo da frente, o que significa que vão maximizar a utilização da capacidade das estradas, nomeadamente nas rotas mais utilizadas. Há também uma maior eficiência no consumo de combustível, que levará a uma poupança de 23 a 39 por cento nas autoestradas.
Por fim, ao possibilitar a automatização da condução, a Bosch estará a contribuir para uma maior qualidade de vida, visto que as pessoas terão mais cerca de 1 hora livre por dia. Os condutores vão poder usar o tempo livre para relaxar, trabalhar, comunicar ou utilizar os sistemas de entretenimento do veículo. É precisamente este o objetivo da divisão Car Multimédia da Bosch – com um polo de desenvolvimento a crescer em Braga – que passa por transformar o carro num local de lazer e entretenimento, na nossa “terceira casa”.

AP: A Bosch Car Multimedia detém uma parceria com o Centro de Computação Gráfica (CCG) da Universidade do Minho, nomeadamente, ao nível do programa INNOVCAR, que procura contribuir para avanços na direção da condução autónoma. Em que consiste este projeto?
MS:
A Bosch tem uma parceria de inovação com a Universidade do Minho desde 2013, e o CGC é parte desta parceria. O programa INNOVCAR, mais especificamente, foi iniciado em julho de 2015 e será finalizado em junho deste ano, tendo envolvido um investimento de 32 milhões de euros. Aqui está-se a trabalhar para a criação de conhecimento em Portugal que se vai traduzir em inovações globais na área automóvel. Estamos a contribuir para o design e desenvolvimento de novos produtos e tecnologias como os sistemas de comunicação entre veículos (V2V), entre o veículo e a infraestrutura (V2I) e entre o veículo e o peão (V2P); uma série de novos sensores sofisticados e sistemas de deteção; conceitos e sistemas de interface homem-máquina; displays e vários tipos de sistemas de projeção de imagem; e software e aplicações integradas para os veículos inteligentes. Focamo-nos cada vez mais em arquitetura de software, reutilização, qualidade e robustez.

AP: Quais são os principais avanços da Bosch no desenvolvimento de soluções para a condução autónoma?
MS:
A Bosch está a desenvolver uma série de iniciativas e novas tecnologias relacionadas com a tendência emergente da condução autónoma. Como disse inicialmente, o Grupo é o detentor do maior número de patentes na área. Especificamente na Bosch em Braga, estamos a desenvolver, em parceria com a Universidade do Minho, uma série de inovações focadas na condução autónoma, conectividade e na interface homem-máquina. As diferentes linhas de inovação, como a comunicação entre carros (Car2X ou V2X), as câmaras de monitorização do condutor (DMC), o LiDAR, o VMPS (Sensor de Posicionamento do Movimento do Veículo), os sensores que detetam o estado do piso da estrada são apenas alguns exemplos. Além disso, estamos a trabalhar em sistemas de cancelamento de ruído causado pelo atrito entre a viatura e a estrada para uma melhor experiência dentro do carro.

AP: A Bosch considera a implementação do assistente de voz uma primeira etapa da inteligência artificial. Já existem projetos novos da Bosch, ao nível de I&D, para o lançamento de mais soluções de inteligência artificial para, por exemplo, promover a condução autónoma e a interface homem-máquina em sistemas de conectividade?
MS:
A Bosch vai investir 300 milhões de euros em Inteligência Artificial (IA) até 2020, e tem inúmeras iniciativas nesta área. Conforme já referi, estamos certos que os carros vão ser conectados e é algo que parte da Internet das Coisas. Relativamente à tecnologia em si, a Inteligência Artificial, e em particular o machine learning, serão absolutamente fundamentais para a condução autónoma. Além disso a IA vai permitir a transformação do carro num verdadeiro assistente pessoal de agradável interação, bem como vai ajudar a transformar e otimizar todo o conceito de mobilidade.

 

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