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Entrevista a Adolfo Silva, Director da AFIA Imprimir E-mail

Competitividade na economia global
A indústria automóvel de hoje está num ponto de viragem, devendo abraçar a próxima revolução digital - a Indústria 4.0. Segundo Adolfo Silva, Membro do Conselho Diretor, o setor é um dos mais competitivos do mundo e gera um superavit comercial para a União Europeia.

in revista Auto Profissional nº 91, Janeiro-Fevereiro 2018

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Auto Profissional: Qual é a perspetiva atual da AFIA sobre a evolução das empresas nacionais de componentes automóveis?
Adolfo Silva: Sem dúvida que o ano de 2017 foi bastante positivo para a indústria dos componentes automóveis. Segundo os dados até agora disponíveis, foram estabelecidos novos recordes, tanto em volume de negócios como em vendas ao exterior. As exportações diretas do setor de componentes cresceram 9% relativamente a 2016. Este crescimento das exportações, muito acima do valor de crescimento da indústria automóvel europeia, principal destino das mesmas, significa que as empresas do setor estão a conseguir aumentar a sua quota de mercado, e assim assegurarem uma perspetiva fundamentada e sólida para o futuro desta indústria. Em Portugal, a indústria de componentes para automóveis representa 5% do PIB, 7% do emprego da indústria transformadora e 14% das exportações de bens transacionáveis, sendo por isso um dos mais importantes setores da economia nacional.

AP: O setor automóvel registou no primeiro semestre de 2017 um crescimento de 6,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Na sua opinião, que balanço faz do potencial de exportação das empresas que representam o cluster de componentes auto?
AS:
O crescimento das exportações do setor de fabricação de componentes para automóveis tem sido uma constante. Nesta década, o valor das exportações diretas cresceu de 5000 milhões de euros em 2010 para os 7600 milhões de euros em 2016. Em rigor, a estes valores devem ser acrescentados os valores de exportação por efeito indireto, isto é, pelas vendas efetuadas aos construtores a laborar em Portugal, que exportam mais de 95% dos veículos montados. As vendas do setor de componentes aos construtores nacionais atingiram cerca de 1200 milhões de euros em 2016, o que quer dizer que mais de 1100 milhões de euros de componentes fabricados em Portugal foram exportados por esta via. Se agregarmos os dois valores chegamos à cifra de 8700 milhões de euros exportados em 2016. Como já referido, em 2017 a taxa de crescimento das exportações cresceu para uns impressivos 9%. Estes dados demonstram a capacidade competitiva destas empresas que competem numa indústria altamente globalizada e dinâmica.

AP: Em termos gerais, como caracteriza o fator de inovação do mercado de componentes automóveis?
AS:
São conhecidos os elevados graus de exigência e de competitividade desta indústria, que obriga as empresas a recorrer a processos tecnológicos sofisticados, a manter uma dinâmica de contínuo desenvolvimento e inovação de produtos/tecnologias/processos, a seguir conceitos de qualidade total e de excelência nas operações, requerendo recursos humanos altamente qualificados, algo só possível através de formação contínua e valorização profissional nas empresas.

AP: Qual é o papel mobilizador da AFIA enquanto representante de fabricantes para a indústria automóvel?
AS:
A AFIA, fundada em 1966, é a associação que representa nacional e internacionalmente os fabricantes para a indústria automóvel instalados em Portugal. É o seu porta-voz junto das autoridades e outras instituições, tanto portuguesas como no estrangeiro, e divulga o setor junto da comunicação social e de entidades terceiras.
A AFIA promove a internacionalização e as exportações das empresas nacionais, apoia compradores estrangeiros a encontrar fornecedores portugueses e apoia os investidores estrangeiros no início e na integração de novas atividades em Portugal, tendentes a alargar a base industrial portuguesa e a reforçar o setor.

AP: Recentemente, a AFIA e a CLEPA (Associação Europeia dos Fornecedores da Indústria Automóvel, na qual a AFIA se integra como membro), reuniram-se em Bruxelas para defender a “via europeia” na redução das emissões de CO2, com vista a se atingir as metas do Acordo de Paris. Quais foram as principais conclusões deste encontro?
AS:
A AFIA e a CLEPA reuniram-se em Bruxelas com o Vice-Presidente do Comité Económico e Social Europeu, Gonçalo Lobo Xavier, para defender a “via europeia” na redução das emissões de CO2. A proposta legislativa de regulamento europeu que estabelece as normas de desempenho das emissões para os novos automóveis de passageiros e para os novos veículos comerciais ligeiros define novos limites de emissões mais rigorosos para 2021 (Ligeiros de passageiros – 95 g CO2/km e Comerciais ligeiros – 147 gCO2/km), sendo que as emissões médias dos novos carros e comerciais ligeiros deverão ser: em 2025, 15% mais baixas do que em 2021 e em 2030, 30% menos do que em 2021. Esta lei terá grande impacto para os fornecedores europeus da indústria automóvel, bem como para a produção e para a base de emprego, particularmente em Portugal. Neste sentido, a CLEPA e as entidades que a constituem emitiram recomendações importantes a propósito desta nova lei sobre emissões de dióxido de carbono, entre as quais destaco a nossa recomendação de que a nova legislação sobre emissões de CO2 deve reger-se pela neutralidade tecnológica, evitando prescrever a solução técnica a privilegiar para atingir as metas. Este deve ser um princípio central para promover inovação e competitividade pelas melhores tecnologias, procurando assim cumprir os objetivos previstos para 2030 e datas posteriores. A segunda mensagem importante é que a UE deve suportar a sua indústria transformadora para cumprir as suas metas ambientais e sociais. Outras regiões do mundo deverão fazer o mesmo. Não há qualquer razão para a Europa colocar a sua competitividade global em risco, sob o falso pressuposto de “ajudar a indústria”.

AP: A AFIA organizou em finais do ano passado, na sua sede no Porto, a reunião semestral das associações nacionais europeias (CLEPA), na qual estiveram representadas as suas principais organizações homólogas, destacando-se o foco na iniciativa GEAR 2030 (Grupo de Alto Nível da Comissão Europeia sobre Competitividade e Crescimento Sustentável da Indústria Automóvel na União Europeia). Em que consiste esta iniciativa?
AS:
A indústria automóvel da União Europeia ocupa um lugar central no panorama industrial da Europa. Dá emprego a milhões de pessoas e empregos altamente qualificados e é um grande investidor em investigação e desenvolvimento. O setor é um dos mais competitivos do mundo e gera um superavit comercial substancial para a União Europeia. Está no centro de muitas políticas importantes da União Europeia, incluindo: Competitividade, Investigação & Desenvolvimento, Energia, Meio Ambiente, Transportes, Mercado Único, etc. A indústria automóvel de hoje está num ponto de viragem: deve abraçar a próxima revolução digital (Indústria 4.0), a automação e a condução autónoma, desafios ambientais (como metas climáticas), mudanças sociais e a crescente globalização.
A fim de desenvolver uma abordagem coordenada e eficaz da União Europeia para a indústria automóvel neste cenário em mudança, a Comissão Europeia estabeleceu o GEAR 2030 (Grupo de Alto Nível) em outubro de 2015. O grupo integra as autoridades dos Estados Membros e os principais interessados que representam indústria, serviços, consumidores, proteção ambiental e segurança rodoviária.

AP: Temas emergente como a mobilidade elétrica e a condução autónoma foram também debatidos no referido evento realizado no Porto. De que forma observa a importância destas tendências da indústria automóvel?
AS:
A indústria europeia é líder mundial em eficiência e ocupa o topo da lista de registos de patentes para tecnologias de eletrificação. A tecnologia oferece soluções eficientes, sofisticadas e acessíveis. Apenas uma abordagem aberta às tecnologias, que abrace os pontos fortes da indústria europeia, pode assegurar uma base financeira para os brutais investimentos iniciais necessários para a produção de motorizações alternativas, bem como para sustentar o futuro de milhões de postos de trabalho altamente qualificados no setor.
Os investimentos são uma constante premissa desta indústria. Só em Portugal a indústria de componentes automóveis investiu ao longo dos últimos cinco anos mais de 2000 milhões de euros em novos equipamentos produtivos e instalações fabris.

AP: A AFIA tem mobilizado uma parte importante da indústria transformadora para o setor automóvel, tendo já contactado representantes dos subsetores interiores (têxtil e plásticos) para delinearem estratégias conjuntas de desenvolvimento. Já existem resultados concretos destas estratégias?
AS:
Para potenciar o crescimento, promovemos o setor junto de mercados-alvo selecionados através de missões a países ou a clientes específicos, participações conjuntas em feiras, estabelecimento de contactos com potenciais novos clientes, ações conjuntas com instituições nacionais e estrangeiras para a promoção do setor e divulgação das suas potencialidades, e ainda divulgação de informação relevante para os exportadores.
No campo da competitividade, desenvolvemos ações para melhorar o desempenho dos fornecedores da indústria automóvel, estabelecendo encontros – genéricos ou temáticos – para troca de informação, intercâmbio de boas práticas e valorização mútua e para estreitamento de relações entre as entidades do setor.
Defendemos direta e indiretamente, junto das empresas e junto das autoridades nacionais, todas as questões com implicação na competitividade das empresas. Incluímos aqui temas como a produtividade, flexibilidade laboral e a simplificação administrativa, assim como a inovação de processo e métodos de trabalho – incluindo o que se vem designando por Indústria 4.0 –, questões logísticas, investigação, inovação e a melhoria contínua nas empresas, mas também temas de natureza macroeconómica como os custos do trabalho e da energia, a fiscalidade e outros custos de contexto.