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Bosch Portugal quer nova fábrica PDF Imprimir E-mail

O representante da Bosch tem como ambição ser líder das exportações nacionais. Para isso diz "a Bosch tem que nos deixar fazer uma grande fábrica". Mas não será fácil convencer os alemães.

in ECO Economia Online, 15-03-2017

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Ninguém vende Portugal como eu”. É desta forma que Carlos Ribas, o representante da Bosch em Portugal diz que está a lutar por trazer uma grande fábrica do gigante alemão para Portugal. O grupo tem três unidades fabris em Portugal. A Bosch Car, que pesa 65% do total de faturação do grupo e que fornece displays eletrónicos para marcas como a Rolls Royce, a Jaguar, a BMW, entre outras. Em Aveiro está instalada a produção de soluções de água quente e em Ovar os sistemas eletrónicos de vigilância.

Com estas três unidades, a Bosch Portugal fechou o último ano com um volume de negócios superior a mil milhões de euros. E o objetivo de Carlos Ribas é crescer 50%. Para isso vai investir na expansão das unidades de Ovar e Braga, sendo que na “cidade dos arcebispos” o plano passa pelo aumento da produção em mais de 50%.

Crescer, crescer, crescer… para liderar as exportações nacionais, é essa a meta de Carlos Ribas. Atualmente estará entre o quinto e sexto lugar, mesmo exportando 95% de tudo o que produz.

Qual é o segredo da Bosch para atingir sempre bons resultados?
Este ano, apesar de as contas só estarem oficialmente aprovadas em maio, podemos dizer que atingimos os nossos objetivos. A meta de ultrapassar os mil milhões de euros de faturação foi alcançada. Foi um ano muito positivo. Mas já tivemos uns anos menos positivos, nomeadamente na mudança do portfólio de produtos em que atingimos um valor complicado.

A que atribui estes bons resultados?
Estes resultados são sobretudo consequência de muitos projetos novos. Em 2016, em Portugal, contratamos cerca de mil pessoas. Só na Bosch Car, em Braga, contratamos perto de 750. No global somos mais de 4.500 pessoas mas ainda não chegamos aos cinco mil. -Poderemos chegar, eventualmente, este ano. Tivemos, e continuamos a ter, muitos projetos novos, não só nesta fábrica mas também na de Ovar que cresceu muito. A fábrica de Aveiro cresceu muito na parte de desenvolvimento, na parte de produção ficou estável mas melhor do que estava previsto no plano inicial e Lisboa tem crescido muito também, sobretudo na parte dos serviços para o exterior.

As exportações também aumentaram…
Do total da nossa faturação cerca de 95% é para exportação. Em Braga, na fábrica da indústria automóvel, temos zero de incorporação nacional. Nunca poderemos atingir os 100% de exportação porque temos a Vulcano e algumas coisas para essa fábrica são feitas a partir das unidades de Braga ou de Aveiro, portanto o máximo que podemos ambicionar é chegar aos 99,5%.

Mas mantém o objetivo de ser o exportador número um em Portugal?
Gostava muito. Neste momento devemos estar entre os cinco a seis primeiros.

O que é que falta à Bosch para chegar à liderança?
É difícil competir com a EDP e com a Galp. É muito difícil competir com eles e agora, com o novo modelo da Autoeuropa vai ser ainda mais difícil porque penso que eles vão crescer bastante. A Bosch precisa de mais uma fábrica para chegar a número um. Temos três… precisávamos de mais uma.

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Está em estudo essa fábrica?
Ainda não podemos dizer que está em estudo. Fala-se de vez em quando… mas no ano seguinte já não se fala tanto.

Este ano é o ano em que se fala?
Em termos de crescimento continua a ser um ano sim. Para as nossas fábricas (Aveiro, Ovar e Braga), vai ser um ano sim. Chegaremos à liderança das exportações nacionais quando a Bosch nos deixar fazer mais uma grande fábrica em Portugal. Não é fácil.

Mas queria mais uma fábrica da Bosch em Portugal para que área?
Queríamos diversificar. A área não é muito importante, o que é importante é que seja para a área técnica, com forte incorporação de desenvolvimento, seja eletrodomésticos, seja ferramentas, seja diesel, gasolina ou elétrico. O elétrico seria o mais interessante… a mobilidade elétrica.

Porque é que diz que é difícil trazer mais uma fábrica para Portugal?
Porque estamos a concorrer com um nível de países que a nível de benefícios oferecem coisas que a União Europeia não nos permite oferecer. E, como tal, temos que conseguir provar que as nossas competências são muito melhores e que os benefícios que os outros oferecem não compensam as nossas competências. Isso consegue-se umas vezes e outras vezes nem tanto.

Mas está empenhado nessa tarefa?
Claro que sim. Ninguém vende Portugal como eu.

A Bosch, a casa-mãe, vai tomar essa decisão a breve prazo?
Não, na Bosch somos quase 400 mil a nível mundial e em Portugal somos pouco mais de 4.500 pessoas. Há muita gente a falar do mesmo em todo o mundo. Essas decisões demoram bastante tempo, são muito maturadas e tem que se lutar todos os dias.

Anda há muito tempo a batalhar pela nova fábrica?
Muitos projetos têm-se conseguido. Fábricas novas é outra coisa. Neste momento não temos previsões, até porque a situação a nível mundial está um pouco complicada, temos o tal efeito Trump que não sabemos o que vai dar, temos o Brexit que não sabemos o que vai dar, temos vários países a virar quase à extrema direita, temos os países asiáticos que estão um bocadinho mais estáveis, mas aqui na Europa isto está um bocadinho efervescente. Não sabemos para onde vai cair e obviamente que estar a investir nesta altura…

Está a dizer que os planos de investimento da Bosch estão congelados à espera de ver o que acontece na Europa?
Congelados não, mas não estamos naquela fase de que o mercado vai continuar a crescer. Quando há consistência no mercado investe-se e neste momento há muitas dúvidas de como e onde investir. Há muita instabilidade que não sabemos como vai acabar.

Se conseguisse trazer a fábrica para Portugal onde é que gostava de a localizar?
Se a fábrica viesse para Portugal seria para ficar algures entre Lisboa e Porto, e perto do litoral, apesar de gostar de ir para o interior, mas não pode ser porque depois não temos pessoas para trabalhar.

Paralelamente tem um plano de expansão para as três fábricas (Aveiro, Ovar e Braga).
Por isso é que digo que vamos crescer.

Em que é que se consubstancia esse plano de expansão?
Este ano, na fábrica de Braga crescemos entre 25 a 30%, estamos a atingir o ponto de saturação pelo que precisamos de novos edifícios. Em Ovar a nossa fábrica já está em remodelação e deverá ficar concluída já em abril, em Aveiro não deve ser necessário crescer a nível físico porque ainda há espaço para a produção crescer, na medida em que em novembro do ano passado foi inaugurado um novo edifício de desenvolvimento. Aveiro é o centro mundial de desenvolvimento para soluções de água quente, esquentadores e bombas de calor e provavelmente vamos entrar também na parte do solar.

Portanto a expansão do edificado será em Ovar e Braga.
Sim, Ovar está a crescer bastante e Aveiro irá crescer no futuro, mas em termos de infraestruturas é preciso crescer em Ovar e Braga.

Estamos a falar de investimentos de que ordem de grandezas?
O ano passado investimos cerca de 100 milhões e este ano vamos investir sensivelmente a mesma ordem de grandeza.

Mas esses 100 milhões já incluem a expansão de Braga?
É o investimento total, e já incorpora uma parte do investimento que é necessário realizar na expansão da fábrica de Braga. Digo uma parte parte porque este investimento será realizado uma parte em 2017 e outra em 2018.

Quer dizer que vai começar a construir ainda este ano?
O investimento tem que estar pronto até ao fim de 2018. Por isso, sim. À partida começa ainda este ano.

Quanto é que vai aumentar a produção com esse novo edifício?
É mais do que um edifício… Vai aumentar cerca de 50%. Com este aumento de produção iremos aumentar o volume de negócios na mesma proporção.

Isso quer dizer que 2018 vai ser um ano de forte crescimento para a Bosch?
No final de 2018 gostaria de estar a faturar entre 1,5 a 1,7 mil milhões de euros.

Com este aumento de expansão de Braga vai captar novas marcas?
É para novos projetos que já temos e que vão arrancar e para crescer na produção daquilo que também já temos. Temos muitos clientes novos que arrancaram… Temos muitos projetos em crescimento e muitos projetos novos.

A que se deve o sucesso a nível mundial da Bosch Car?
A que se deve o sucesso? Somos uma empresa modelo mas também temos problemas, não é tudo flores. Temos colaboradores que amam aquilo que fazem, temos desenvolvimento nas fábricas muito forte, temos mais de 300 pessoas a fazerem desenvolvimento aqui em Braga, a nível nacional temos mais de 500, Aveiro também tem uma área de desenvolvimento muito forte, é a capital mundial da Bosch para soluções de água quente. Em Ovar começamos há dois anos com a área de desenvolvimento. Prevemos chegar este ano às 25 pessoas mas com um potencial de crescimento muito rápido. Temos parcerias com as Universidades, desde projetos de inovação, doutoramentos feitos aqui dentro da fábrica — as teses são uma tabela de problemas que lhes apresentamos no início do curso, e eles escolhem o tema mas de problemas que temos na fábrica. E com a particularidade dos doutoramentos metade serem portugueses e metade serem estrangeiros. No ano passado tivemos 10 e este ano mais 10.

Mas a produção automóvel multimédia da Bosch estar concentrada em Portugal não é muito normal. A que se deve isso?
Não há segredo nenhum. O segredo é convencer as equipas a terem paixão. Esta fábrica tem mais de 25 anos, somos mais de 2.800 pessoas, tudo pessoas muito experientes que viveram fora e que trouxeram muito know how’. Os nossos colaboradores são extremamente competentes naquilo que fazem e conseguem ser extremamente eficientes. E escusam de dizer que os salários são baixos porque a este nível de desenvolvimento e de criação os salários não são assim tão diferentes. Para cativarmos as pessoas temos que lhes dar alguma coisa em troca, por isso não me venham falar em salários. Conseguimos criar paixão por aquilo que elas fazem e isso é o mais importante na empresa.

Não pagam salário mínimo a ninguém?
Pagamos aos estagiários da linha quando entram para estágio.

O setor automóvel viveu uma grande crise. A Bosch Car conseguiu passar ao lado dessa crise?
A crise de 2007 e 2008 passou-nos ao lado. Aliás, para nós foi uma fase de muito crescimento aqui em Braga. Toda a gente estava em baixa e ninguém entendia como é que nós estávamos a investir, mas tivemos a sorte de termos muitos projetos novos. Mesmo a indústria estando em decréscimo, nós investimos. Todas as semanas tinha de dar explicações ao meu chefe na Alemanha de como é que precisava de mais dinheiro e tinha que enviar os planos de encomendas para ele perceber que era preciso investir.

É fácil convencer os alemães a investir em Portugal?
Com argumentos factuais é fácil.

A crise da emissão dos gases da Volkswagen não vos prejudicou?
É curioso… naqueles anos de crise, a Volkswagen salvou-nos — na altura a maior parte dos projetos eram Volkswagen. Hoje não temos Volkswagen. Temos Audi, mas já não temos Volkswagen. Vamos voltar a fazer novos projetos no futuro. Neste momento não temos.

A meta dos cinco mil trabalhadores que tinha para 2018 vai ser antecipada?
Penso que no final deste ano chegaremos a esse valor, mas se não for este ano será no próximo. É por aí.

Que marca é que o gestor Carlos Ribas gostava de deixar na Bosch?
A de sempre: crescimento sustentado e uma aposta forte no desenvolvimento e na criação porque entendo que tendo desenvolvimento é a única forma de garantir as fábricas. Se o conhecimento e a criação estiverem cá as fábricas mantém-se porque deslocar a produção de um lado para o outro não é nada complicado, mas se o conhecimento estiver cá é muito mais difícil.

A Bosch Car corre esse risco?
A Bosch Car nunca será deslocalizada. Não só pelo conhecimento que tem, mas também pela própria fábrica em si e a experiência à volta das pessoas. Isto não se consegue num ano ou dois, são muitos anos, muita aprendizagem, uma cultura que se consegue estabelecer no local, as pessoas começarem a estar alinhadas. Temos situações em que toda a gente é muito inteligente, mas se não estiverem alinhadas não adianta de nada. E aqui conseguimos isso. Aliás, nas outras fábricas da Bosch em Portugal também. As pessoas estão todas alinhadas com os mesmos objetivos e isso é fundamental.

Costuma falar na estabilidade fiscal e laboral como essencial no que diz respeito a atrair investimento estrangeiro…
Para o investimento estrangeiro isso é fundamental. A estabilidade financeira e política é fundamental para quem investe. Quem investe gosta de saber com aquilo que conta.

É difícil explicar as vicissitudes do mercado português à Bosch?
É muito complicado. Principalmente para alemães que gostam de fazer a coisa pela certa e que gostam de muita estabilidade. É por isso que de cada vez que tenho possibilidade de estar com membros do Governo o que peço é que tragam estabilidade ao país. Se trouxerem estabilidade ao país, os investidores acreditam e veem para Portugal porque sabem que há conhecimento, há competências e há disponibilidade no mercado. Mas para isso é que preciso que os governantes passem a mensagem de confiança. E não é confiança a uma semana ou duas, tem que ser a longo prazo.

E a instabilidade do sistema financeiro?
Isso é outra… mas infelizmente já não é só em Portugal. A banca europeia então… A situação a nível mundial não está muito fácil, mas a nós interessa-nos mais a banca europeia e a nacional. Estas coisas são mensagens negativas que passam para o exterior. Um dos maiores barómetros do país é a banca. E quando a banca está como está em Portugal, a mensagem que passa não é muito positiva.

Efeitos como o Trump e o Brexit pode afetar-vos de alguma maneira?
À Bosch em si podem, não quer dizer que vá, mas podem. À Bosch Portugal, no curto prazo, não estou a ver como possa afetar muito, já a médio prazo se existirem fortes alterações no mercado inglês podemos ser um bocadinho afetados.

Para onde exporta a Bosch Portugal?
95% do nosso produto fica na Europa, depois cerca de 2% vai para os Estados Unidos, 5% para a Turquia, mais 2% para a Ásia. Dentro da Europa, 20% a 25% vai para Inglaterra e o resto é Europa Central. O grande bolo é Europa central… muito, muito mercado alemão.

E a Bosch Car quanto pesa nas contas da Bosch Portugal?
A nível de faturação pesa cerca de 65% a nível nacional.

Portanto tem que acarinhar essa fábrica de maneira diferente…
Todas… mas essa tem gente muito competente.

Que novos projetos é que tem em mãos?
Nós temos a parte de Ovar com projetos novos na parte da videovigilância — conseguimos trazer alguns produtos da China para Portugal. A China que é mão-de-obra muito barata, mas nós conseguimos provar que com os impostos, transportes, custos logísticos, a nossa fábrica de Ovar consegue ser tão ou mais competitiva que a China para o mercado europeu. Produzir em Ovar para mandar para a China não, mas fazer em Ovar para mandar para o mercado europeu, sim. Somos mais competitivos. Temos conseguido trazer muitos projetos da China. E estamos a transferir alguns produtos da Hungria para aqui, para a nossa fábrica.

Da Bosch da Hungria para Portugal? É isso?
Sim, da Bosch da Hungria. E em Aveiro, que é sobretudo soluções de água quente, em princípio iremos ter outros produtos nomeadamente na parte do elétrico e bombas de calor.

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O vosso forte desenvolvimento tem a ver com as parcerias que fazem com Universidades, quer com Aveiro, quer com o Minho?
Nós temos muitos projetos com a Universidade do Minho. Estamos a trabalhar em coisas que não existem no mercado, projetos que a Bosch central está muito contente connosco porque estamos a fazer desenvolvimentos — em conjunto com eles obviamente porque o road map é sempre alinhado com a casa mãe — que eles na Alemanha não tinham capacidade para fazer. O que fazemos é trazer alguns colegas da Alemanha para cá e desenvolver projetos connosco aqui. Fazemos o desenvolvimento todo aqui e depois a aplicação nos produtos.

Como é que está a correr o laboratório único para a manufatura aditiva avançada de protótipos e ferramentas, o Done Lab?
O Done Lab é uma parceria entre a Universidade do Minho e a Bosch Car Mulimédia e está a correr muito bem. Ainda no outro dia estive numa cerimónia com o presidente da República em que os prémios que foram oferecidos foram feitos com a nossa marca.

A Bosch tem também em curso um projeto com a Universidade do Minho e com o IAPMEI e que passa por aumentar a incorporação de fornecedores nacionais…
Nós temos menos de 10% de fornecimento de componentes de produtores locais, mas também a nível de fornecedores de tecnologia, e o objetivo é conseguimos passar rapidamente desses menos de 10% até aos 20%. Para tal, a empresa investirá entre cerca de 80 a 100 milhões na compra de componentes em Portugal. Com este projeto substituímos as nossas importações e contribuímos para o crescimento do valor acrescentado nacional.

Lá está a tal relação com a Universidade do Minho…
Há uma cumplicidade muito grande com a Universidade do Minho. Para além dos projetos de inovação, temos projetos do laboratório dentro da universidade, temos os doutoramentos. Vamos ter em breve o desenvolvimento dos fornecedores, e temos a requalificação de competências.

É fácil encontrar mão-de-obra qualificada para as vossas fábricas?
Já tive mais receio. O ano passado recrutamos aqui para Braga cerca de 750 pessoas dos quais mais de 200 eram engenheiros. Cheguei a ter receio que não íamos conseguir, mas temos conseguido. Neste momento temos 1.700 pessoas em Braga.